A RVORE DO OURO

Rosalind Laker



Sinpse:

  Seda - elegante, macia, luxuosa. O tecido
, da realeza. O tecido que Napoleo Bonaparte
  restitui ao auge da glria, agora que a
  Revoluo terminou.
  Toda a vida de Gabrielle Roche tem sido
  marcada pela seda, tanto assim que ela vai
  unir-se pelo matrimnio a mile Valmont, de
  forma a associar a fbrica da sua famlia 
  sirgaria, quinta de cultura de bichos-da-seda,
  que ele possui. O plano perfeito.
  Mas tal perfeio  perturbada na manh
  do casamento por um encontro fortuito com
  Nicolas Devaux, filho do maior rival de seu
  pai. Com um s olhar, o seu amor por Nicolas
   selado no preciso momento em que a
  carruagem a conduz para junto do homem com
  quem tem de casar. Gabrielle vive agora um
  sonho impossvel: um dia, ela e Nicolas ho-de
  honrar a promessa trocada naquele olhar
  nico e inesquecvel.
  Um magnifico drama histrico que tem
  como pano de fundo a Frana napolenica.

CAPTULO UM

NIN?tIEM podia ter previsto o perigo. E muito menos Gabrielle
Roche, a caminho do altar pelas estreitas ruas medievais de Croix-Rousse, o bairro dos teceles de seda de Lyon. Era o primeiro dia
de Primavera de 1804. O cu estava lmpido e azul, com algumas
nuvens brancas inofensivas, flutuando leves como flocos de algodo. Os raios de sol faziam brilhar as paredes de pedra das antigas
construes, infiltrando-se atravs das lajes gastas das leas sombrias que conduziam a ptios interiores, mas deixavam na sombra as
portas de madeira escura.
  Em todas as casas, as janelas dos andares trreos eram largas e
altas, com o fim de permitir que a luz entrasse a jorros nas oficinas
de tecelagem e nas salas dos teares. Os vidros quadrados reflectiam
o brilho do dia com as cores do arco-ris. No seu percurso, a carruagem nupcial ia deixando no ar o aroma das grinaldas que, entrelaadas com laos de cetim, balanavam 
nos aneios dos cavalos e enfeitavam o seu tecto abobadado.

  Gabrielle, aparentemente a noiva tradicional - jovem, tranquila e etrea -, pousou o bouquet no assento a seu lado.
  - Estamos quase a passar pelos nossos teceles - comentou,
impaciente, para o irmo mais velho, que a acompanhava. - Tenho
de estar preparada para lhes acenar.
  Henri Roche encontrava-se sentado  sua frente. Com trinta e

seis anos, mais quinze do que ela, era um homem pesado e agressivo. Ao ouvir as palavras de Gabrielle, cerrou os lbios num gesto irritado. Os teceles no lhe despertavam 
qualquer interesse, a no
  ser em termos de trabalho. Desagradou-lhe o facto de a irm ter
  pedido ao cocheiro que mantivesse um andamento moderado ao
  atravessar aquele bairro, para que pudesse despedir-se, sem pressas,
  de uma etapa da sua vida que chegara ao fim. Em sua opinio, ela
  nunca deveria ter sido autorizada a conviver com os teceles enquanto criana, nem a ser ensinada como uma vulgar aprendiza.
  orf de me de nascena, tornara-se uma jovem indisciplinada e
  com um feitio muito especial.
  - Espero que isto no demore muito - disse Henri com impacincia.
  - No devias ter esse receio - replicou Gabrielle. - O tempo
   demasiado valioso para esta gente to trabalhadora. Tinhas obrigao de o saber, ao fim de tantos anos no ramo.
' A notcia da sua aproximao correu clere. Os teares foram silenciados por momentos,  medida que os teceles que trabalhavam
  para a Maison Roche saam para a saudar alegremente. Gabrielle
  manteve-se em p junto da janela aberta da carruagem; sabia o
  nome de cada tecelo. A seda estava-lhe no sangue, assim como no
  deles, e respeitavam-na por isso mesmo.
  - Oh, muito obrigada! - Gabrielle apanhou vrios ramos de
  flores selvagens que lhe eram atirados e cujas ptalas se espalhavam pelo cho da carruagem.
  - Vamos chegar atrasados - informou Henri num tom severo.
  Despreocupada, continuava a acenar s famlias agrupadas nas
  soleiras das portas. O ofcio de tecelo envolvia normalmente todo
  o agregado familiar, desde os avs at ao filho mais novo, e a vida
  da famlia centrava-se invariavelmente  volta do tear, que ocupava
  uma grande parte do seu espao vital. Os teceles eram uma casta
  obstinada e independente e Gabrielle considerava-se afortunada por
  ter sido aceite pela comunidade.
  Depois de um aceno final, voltou a sentar-se, num farfalhar de
  seda, com a renda chantilly do toucado flutuando leve como uma
  teia sobre o cabelo cor de avel penteado ao alto, com uns caracis
  cados sobre a testa e o pescoo de cisne. Nas orelhas pequeninas,
  danavam uns brincos de prolas. Um sorriso escondia a angstia
  que lhe provocaram as despedidas.
  - Agora podemos ir mais depressa - disse ela.
  Henri resmungou. Com a bengala de casto de ouro, deu uma
  pancada com fora no tecto da carruagem, e o sbito aumento de

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velocidade fez com que Gabrielle tivesse que se agarrar ao assento

para no se desequilibrar.
  Embora achasse a irm um fardo incmodo que queria ver fora
da casa da famlia, no s por si, mas tambm por causa da sua
mulher, Yvonne, Henri reconhecia que ela era bonita e que o estava
particularmente naquele dia, com o seu vestido de noiva. De altura
ligeiramente acima da mdia, uma figura atraente e uma voz suave
e quente, Gabrielle tinha uns olhos cor de violeta com longas pestanas. Era alegre e cheia de vida. Estava agora prestes a desposar um
solene e intelectual proprietrio, que no nutria qualquer interesse
pela vida social citadina de que ela sempre tanto gostara. Na opinio
de Henri, ela ia ter exactamente aquilo que merecia. Consultando o
relgio, deu outra bengalada no tecto para indicar que queria mais
velocidade.
  Nem ele nem Gabrielle ouviram o grito de aviso dado ao cocheiro por um transeunte, que conseguiu aperceber-se do que iria
acontecer na altura em que a carruagem estava prestes a passar sob
um arco renascena.
  - Cuidado, cidado!
  Tarde demais. Segundos depois, Gabrielle era projectada do
assento para o cho, no momento em que as rodas da carruagem em
que seguiam colidiram e ficaram presas nas de outra, que emergia
pesadamente do arco. Com o impacto, Henri, com a respirao suspensa e os olhos cerrados, foi atirado para um canto, enquanto a
carruagem se equilibrava perigosamente em duas rodas. Permaneceu periclitante momentos sem fim, at que os cavalos, aterrorizados, tentando fugir, a soltaram com 
um solavanco. Quando a carruagem assentou de novo sobre as quatro rodas, Henri caiu sobre
Gabrielle, quase a esmagando com o seu peso. Logrando pr-se de
p, ficou preocupado com a irm.
  - Ests magoada? - perguntou, rouco de ansiedade.
  - Estou perfeitamente bem - respondeu ela num sussurro. -- V se algum est ferido.
  Ele ajudou-a a sentar-se e ela aceitou, agradecida, o seu apoio,
mais abalada do que julgara estar. Ao olhar pela janela, viu o que o
seu irmo j vira. Ficou sentada, petrificada, agarrando automaticamente, com os dedos nervosos, o bouquet amassado que ele salvara
do cho.
  Tinham colidido com a carruagem de um cortejo fnebre, coberta dos lados por tapearias sombrias, os cavalos negros abanando as cabeas emplumadas e resfolegando 
agitados. Os acompanhantes a p, de fatos sbrios, avanavam aos magotes para observarem
o que se passava. Alguns, com olhos avermelhados, esqueciam
momentaneamente o seu desgosto, unindo-se num repdio geral
pelo ocorrido. No momento em que Henri, exaltado com os estragos
provocados na sua carruagem, se preparava para descer, Gabrielle
ps-lhe a mo enluvada no brao.

  - Apresenta as nossas desculpas  famlia - pediu ela. - A
culpa foi com certeza do nosso cocheiro.
  - De maneira nenhuma! Acabei de descobrir de quem  o funeral. J ouvi dizer que Louis Devaux ia ser trazido de Paris pelo filho
para ser sepultado hoje.
  Um arrepio gelado percorreu as costas de Gabrielle. A contenda
entre os Roches e os Devaux arrastava-se h muito tempo. A sua
origem remontava a uma querela resultante de um negcio, e desde
essa altura as geraes seguintes tinham continuado uma feroz rivalidade, lutando pelo poder na cidade de Lyon. Com a Revoluo, a
rixa tomara novas e perigosas propores, dividindo politicamente
os Roches, moderados, dos Devaux, extremistas. Gabrielle estremeceu. A desavena tinha conseguido atingi-la exactamente naquele dia to especial.
  De sbito, endireitou-se. Viu Nicolas, filho do falecido Louis
Devaux, segurando as rdeas e tentando acalmar um dos cavalos. J
o vira uma vez, embora na altura ele no tivesse reparado na rapariguinha apavorada que o observava por trs das cortinas de uma janela de um primeiro andar, quando 
ele, um rapazinho magro de
quinze anos, com o cabelo negro encaracolado, gritava em frente de
casa de seu pai o seu desprezo pela famlia Roche e por tudo o que
ela representava da velha Frana. Receoso de que Henri Roche,
postado a uma janela. de pistola apontada, o atingisse, o pai de Nicolas afastara-o apressadamente.
  Isto passara-se em 1793, durante o Regime de Terror de Robespierre, na altura em que Lyon fora cercada e semidestruda; no
tempo em que os Devaux tinham fechado as suas fbricas e partido
para se juntarem aos extremistas.
  Onze anos se tinham passado desde ento e, no entanto, no
havia qualquer dvida. Com o mesmo rosto magro, o mesmo nariz
correcto e boca bem desenhada, Nicolas tornara-se, com o decorrer
dos anos, um homem insinuante e muito atraente. O rebelde revolucionrio transformara-se numa presena viril e forte.

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  O cavalo acalmou-se finalmente. Nesse preciso instante, os olhos
de Gabrielle e Nicolas encontraram-se. Foi um olhar intenso que a
tocou profundamente, como se ele quisesse absorver dela a prpria
essncia. O antigo pavor ressurgiu, mas desta vez com uma nova
dimenso, provocando-lhe uma excitao que lhe acelerou o pulso.
Esqueceu-se completamente de que era uma noiva a caminho do
altar e ele, por sua vez, alheou-se igualmente de tudo o que o
rodeava e da razo por que se encontrava ali.
  Passando pela frente dos cavalos, fez meno de se lhe dirigir,
mas Henri, avanando, agarrou Nicolas Devaux pela manga do casaco e, apanhando-o desprevenido, quase o fez perder o equilbrio.
  - Vocs, os Devaux, sempre causaram problemas nesta cidade
- gritou. - No queremos aqui ningum, morto ou vivo, que use o

vosso odioso nome! Veja o que o carro fnebre fez  nossa carruagem!
  Com o semblante carregado, Nicolas libertou-se de Henri e
comentou:
  - Parece-me que os Roches ainda no aprenderam a ter boas
maneiras nem a serem tolerantes desde a ltima vez que aqui estive!
  Henri esboou um gesto insolente.
  - Amaldioados sejam! O vosso falecido pai j est condenado!
- Dando meia volta, dirigiu-se para a carruagem, que oscilou com
o seu peso quando ele entrou e se sentou pesadamente. Antes de o
cocheiro ter tempo de fechar a porta, esta foi aberta com violncia
por Nicolas, que agarrou Henri pela lapela.
  - Ningum insulta a memria de meu pai! Exijo uma reparao!
  Gabrielle deixou escapar um grito de pavor, envergonhada com
a atitude de seu irmo.
  - No, por favor - implorou -, a culpa do choque foi nossa e
foram ditas palavras irreflectidamente!
  Nicolas no olhou para ela, continuando a segurar Henri com
firmeza.
  - Isso no desculpa uma falta de respeito pelos mortos.
  Ela continuou a interceder:
  - Eu caso-me hoje, e s por isso suplico-lhe que desculpe o que
aconteceu e retire o pedido de reparao.
  - Aconselho-a a sair desta carruagem e a desistir do casamento, donzela. Desposar este homem no lhe trar qualquer felicidade - respondeu com dureza Nicolas.
  - Ele no  o meu noivo!  o meu irmo mais velho e meu
acompanhante. Chamo-me Gabrielle Roche e, em nome dele, apresento-lhe as maiores desculpas. - A sua voz era suplicante. -- Espero que neste dia especial se possam 
fazer as pazes.
  Para seu alvio, Nicolas largou o irmo, atirando-o de encontro
ao assento, e voltou-se para ela. O olhar que lhe dirigiu provocou-lhe, como anteriormente, a mesma sensao de prazer misturado
com excitao. Pausadamente, ele respondeu-lhe:
  - Aceito o seu pedido de desculpas, em nome do seu irmo. Mas
repito o conselho que lhe dei para no se casar hoje, espere mais um
pouco. Cometem-se erros com muita facilidade.
  O nico desejo de Gabrielle era afastar Henri dali o mais rapidamente possvel.
  - Farei o que for melhor, Monsieur Devaux. No queremos
demor-lo ainda mais. Sinto-me feliz por tudo se ter resolvido pacificamente.
  - Acha que sim? - perguntou ele com ar duvidoso, enquanto
descia da carruagem. O prprio ar que respiravam parecia carregado.
  - Adeus - disse ela, quase sem dar por isso.
  Ele fez-lhe uma vnia e afastou-se. A porta da carruagem fechou-se. Quando recomearam a andar, Henri explodiu de raiva.
  - Que insolncia infernal! Que gente detestvel!
  Nicolas, entretanto, retomou a sua posio, encabeando o cortejo. Voltou a cabea e Gabrielle sentiu-se de novo hipnotizada pelo
seu olhar. O rosto dela assemelhava-se a um retrato encantador

emoldurado pela janela da carruagem. Depois, abrupta e subitamente, ela desapareceu do alcance da sua vista.
  Afundando-se nos estofos aveludados, confusa mas excitada,
Gabrielle sentia-se simultaneamente  beira do riso e das lgrimas.
Henri, sentado  sua frente, apoiava as mos sobre as pernas, que, de
to gordas, pareciam querer rebentar o tecido das calas.
  - Ests com um ar plido. - Tentou suavizar o tom brusco que
geralmente usava com ela, sabendo que os nervos faziam com que
as noivas muitas vezes procedessem de forma imprevisvel. -- Tenta esquecer este pequeno contratempo. Lembra-te de que mile
te espera.
  Gabrielle assentiu vagamente e virou-se para olhar, sem ver, as
tabernas e pequenos cafs por que passavam. O olhar que Nicolas
lhe dirigira era aquele que uma noiva deveria receber apenas do

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noivo, e s no dia do casamento. Precisava de esquecer todo o incidente e concentrar-se noutras coisas. Tinha muito em que pensar na
altura em que a sua ltima hora de solteira se aproximava do fim.
  Comeara a ter propostas de casamento a partir dos dezasseis
anos, mas decidira que faria a sua prpria escolha na altura certa,
apesar da presso tirnica de seu pai. A luta para manter a independncia tinha sido dura. Henri e a sua egocntrica mulher, Yvonne,
tinham-se unido ao pai contra ela. Os seus nicos aliados haviam
sido Jules, o irmo mais novo, e a sua doce esposa, Helne. Infelizmente, Jules estava no Exrcito e raramente vinha a casa. Quanto
a Hlne, embora fosse a nica a tentar satisfazer os caprichos do
seu intratvel sogro, Dominique Roche, no o conseguira influenciar no que dizia respeito a Gabrielle.
  Gabrielle sempre acalentara a esperana de um dia, mais tarde,
ser autorizada a participar oficialmente na manufactura da seda
Roche, e com este propsito aprendera todas as fases do processo de
tecelagem. No era de estranhar que os seus objectivos fossem alm
da dcil e simples vida domstica, visto que passara pela tumultuosa experincia da Revoluo no perodo mais sensvel da sua vida.
O grito da liberdade soara como um eco da sua prpria luta pelo
direito de decidir o seu futuro.
  Durante a Revoluo, Lyon sofrera mais do que a maioria. das
cidades. Era desde os tempos medievais um grande centro internacional de comrcio de tecidos, embora s a partir da introduo dos
bichos-da-seda em Frana, no sculo xv, a indstria da seda tivesse
criado razes e florescido. Nessa altura, os privilgios reais haviam
concedido a Lyon o controle total sobre toda a seda crua existente

no pas. A cidade continuou a crescer at que a Revoluo veio
acabar com este negcio de luxo.
  Habituado a esta longa tradio de abastecer ricos e nobres, o
povo de Lyon revoltara-se contra o novo regime revolucionrio, que
pretendia a redistribuio da riqueza. As foras governamentais
cercaram ento a cidade, vencendo pela fome os seus habitantes.
Depois de ter suportado o cerco durante dois meses, Lyon iara a
bandeira branca da rendio, na esperana de misericrdia.
  Mas no foi o que sucedeu. Como castigo, a cidade foi condenada a um destino vergonhoso, a demolio. Todos os dias, o fumo
e a poeira provocados pelas exploses elevavam-se em escuras
nuvens que cobriam a pennsula em que se situa a cidade, na confluncia dos rios Sane e Rdano. Nenhuma zona escapou  carnificina de franceses contra franceses. 
A destruio e os assassnios
prosseguiram durante dois meses, causando mais de dois mil mortos, at que, em Paris, o tirano Robespierre foi destitudo e o Regime
do Terror chegou ao fim.
  Por essa altura, no havia em Lyon nenhum membro da famlia
Devaux. Dominique Roche aproveitara a oportunidade para se livrar dos seus velhos inimigos. Acusara-os de extremistas aliados do
Governo, contra os Lioneses. Para salvar a vida, Louis Devaux teve
que fugir, levando consigo a mulher e o filho, Nicolas. At quele
dia nenhum Devaux regressara a Lyon, e Gabrielle esperava que,
terminado o funeral, Nicolas partisse to depressa como da ltima
vez. Ele tinha uma personalidade demasiado perturbante, pelo que
seria melhor para ela no voltar a v-lo.
  - C estamos ns - disse Henri, interrompendo o curso dos
pensamentos de Gabrielle.
  Tinham parado junto dos degraus de pedra de uma das muitas
igrejas que, a partir da Revoluo, se haviam transformado em locais de reunio pblicos. Gabrielle alisou as pregas do vestido.
Apesar da sua aparncia delicada, a seda  um material resistente e
nada sofrera com a queda provocada pelo acidente. O vestido, cortado por baixo do peito, como era moda na poca, ficava-lhe lindamente. Nos degraus, Henri ofereceu-lhe 
o brao e assim fizeram a
sua entrada.
  No interior, uma orquestra tocava no local onde outrora fora uma
capela lateral. Presentemente, todas as cerimnias de casamento
eram civis, mas Gabrielle e mile planeavam receber a bno religiosa assim que fosse possvel.
  A chegada da noiva provocou uma certa agitao entre os presentes, e o seu irmo Jules presenteou-a com um sorriso afectuoso.
Sardento, com o cabelo cor de areia, conservava ainda um ar arrapazado, apesar do longo servio prestado nos campos de batalha.

Elegante no seu uniforme cinzento e vermelho de hussardo, segurava na dobra do brao o chapu de pele com plumas. A seu lado,
Hlne sorria, fazendo covinhas nas faces, feliz com a ocasio e
pelo facto de ter consigo o marido, embora a licena fosse muito
curta. Estava com um elegante toucado de gaze cor de mbar que
combinava com a cor dos seus olhos e contrastava fortemente com
o cabelo preto de azeviche. Gabrielle enterneceu-se com o ar afectuoso destes dois seres que significavam tanto para ela.
  Olhando para a parte superior da nave, viu mile. Os raios de

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sol, penetrando atravs de uma janela de vitrais, faziam brilhar os
seus cabelos castanhos mesclados de cinzento. Por trs dele, erguia-se a bandeira tricolor, azul, branca e vermelha.
  Retribuiu a mile o olhar que este lhe lanou e avanou devagar
na sua direco, com o vestido sussurrando  sua volta. A princpio,
tinha-se sentido atrada pelos seus pensativos olhos cinzentos, o seu
rosto magro e sensvel, a voz profunda e atraente e pelo seu comportamento calmo. Sentiu que, com este homem inteligente e mais velho, iria ser capaz de esquecer, 
de uma vez por todas, o temo e fugaz
amor que partilhara com Philippe, filho de um tecelo - romance
que fora reprimido por seu pai. Tinha dezassete anos na altura e s
com dificuldade recuperara desse desgosto juvenil.
  Queria que o seu casamento com Emile resultasse, embora estivesse consciente de que o amor que outrora ambicionara no faria
parte dele. Embora com a Revoluo o divrcio se tivesse tomado
comum, estava decidida a no quebrar o compromisso e sabia que
mile pensava do mesmo modo. Nesse momento, ele avanou na
sua direco.
  - Minha querida Gabrielle. - Pegou-lhe na mo, entrelaou os
dedos nos dela e voltaram-se de frente para o magistrado.

  - Cidado mile Valmont e cidad Gabrielle Roche, eis-vos
aqui perante a lei de Frana, a fim de vos unirdes pelo matrimnio.
  A cerimnia decorreu sem incidentes at  altura em que ela retirou a luva para receber a aliana. Quando mile se preparava para
lha enfiar no dedo, Gabrielle retirou involuntariamente a mo. Ficou horrorizada com a sua prpria atitude. Pelo rosto de mile perpassou uma fugaz expresso de 
surpresa, mas permaneceu calmo,
limitando-se a apertar com mais firmeza os dedos dela. Com excepo do magistrado, ningum mais reparara na sua reaco instintiva
para manter a liberdade. mile inclinou-se depois para a beijar com
um ar tranquilizador e confiante, fazendo com que o pnico que ela
  sentira desaparecesse, como se nunca tivesse existido.
  Foram rodeados por pessoas que os queriam felicitar. A primeira

  pessoa a beij-la foi Hlne.
  - Minha querida Gabrielle, desejo que sejas muito feliz.
  - Fao meus os votos de minha mulher, irmzinha. - Jules
  abraou-a afectuosamente. Tinham sido sempre muito unidos, visto
  que a diferena de idade entre os dois era apenas de quatro anos.
  - Quem me dera que a tua licena tivesse comeado mais cedo
  - disse ela. - Quase no tive oportunidade de falar contigo.
  - Antes de partir, vou fazer-te uma visita - prometeu ele.
  Estas palavras animaram-na imenso. Voltou-se em seguida para
receber os beijos? e abraos do resto da famlia e dos amigos. Yvonne, mulher de Henri, estava como habitualmente elegantssima, trajando um vestido de seda de riscas 
amarelas, com um enorme alfinete de diamantes preso no decote e um chapu enfeitado com plumas. Exalava um intenso perfume; inclinou-se para beijar a noiva e
disse com um olhar indefinido:
  - Muitas felicidades. O vestido  muito bonito. A cor de ostra 
uma tonalidade que no fica bem a qualquer pessoa, embora eu a
pudesse usar devido ao meu tom de pele.
  Gabrielle disfarou um sorriso. Mesmo num casamento que no
era o seu, Yvonne no conseguia pensar seno em si prpria.
  Havia tanta gente  sua volta que os noivos demoraram um certo
tempo at conseguirem sair para entrar na carruagem. Segundo uma
velha tradio local, os noivos deveriam fazer uma entrada triunfal
na festa; assim, iriam ser conduzidos por um percurso mais longo,
de forma a permitir que todos os convidados chegassem antes deles.
  Depois de acenar a todos, Gabrielle voltou-se para observar o
noivo, sentado a seu lado. Ele olhava serenamente pela janela, o
perfil correcto quase parecendo uma gravura contra o sol. Gostaria
de conversar, mas calculou que ele lhe agradeceria uma pausa silenciosa antes de enfrentar a confuso da festa. Haveria, no futuro,
muitas oportunidades para conversarem e mesmo para discutirem
pontos de vista, sobretudo se ela insistisse em elogiar Napoleo
Bonaparte por tudo o que ele e Madame Josphine tinham feito para
incrementar o comrcio da seda em Lyon.
  mile no partilhava o entusiasmo de Gabrielle por Napoleo,
embora estivesse sempre disposto a ouvir a opinio dela. Esta fora
uma das razes que contribura para que mile tivesse ganho o seu
respeito e confiana. Havia facetas nele que ela desconhecia, visto
que quase no tinham tido a oportunidade de estar a ss. Hlne
estava sempre presente a servir de chaperon. S tinham conseguido
estar sozinhos na tarde em que ele a pediu em casamento.
  Momentos houvera em que pensava ter vislumbrado em mile
uma paixo profunda. No entanto, ele nunca mencionara sequer a
palavra ??amor??. Neste momento, gostaria que ele lhe pegasse na
mo, tal como fizera durante a cerimnia. Para o encorajar, ps a

mo, onde agora brilhava a aliana, no assento entre os dois, mas ele
pareceu no dar por isso.

  Chegaram a casa de seu pai, na Rua Clmont. Era uma residncia espaosa - mais um local de trabalho do que um lar, visto que
os compradores e os associados eram ali recebidos. Dois escritrios,
pertencentes a Dominique e Henri, respectivamente, assim como as
salas de desenho e de controle, situavam-se na parte de trs da casa.
Todos os sales principais e quartos dos andares superiores estavam forrados com painis de seda Roche. Os padres variavam entre o espectacular, no salo principal, 
e o discreto, nas divises mais
pequenas. Para alm de alguns vidros partidos, a casa tinha escapado ilesa aos estragos que a Revoluo provocara. Pouco tempo
depois, Henri casara com Yvonne e levara-a l para casa. Hlne
fora a segunda noiva a ir viver para casa de seu sogro, visto que Jules
estava a maior parte do tempo fora, em servio.
  Dominique Roche recebeu os seus convidados no salo principal
e aguardava a chegada dos noivos. As paredes brilhavam com ricas
sedas coloridas, pintadas com paves dourados de caudas abertas
em leque. O salo deslumbrava e fascinava a vista como uma jia.
  Dominique estava sentado na grande cadeira de madeira preta
esculpida, que tinha o assento e as costas forrados com brocado. A
queda que dera trs anos antes e que lhe afectara a anca, aliada 
falta de exerccio e ao apetite devorador que possua, tinham feito
aumentar ainda mais o seu peso, j considervel. No entanto, embora confinado  cadeira, nada do que acontecia em casa ou no escritrio lhe passava despercebido. 
Mais do que nunca, usava toda a
sua perspiccia para evitar que o filho mais velho, vido de poder,
assumisse o controle total sobre os negcios a qualquer pretexto.
  - mile e Gabrielle acabaram de chegar - disse Hlne, olhando-o sorridente.
  - Menina bonita - comentou ele, agarrando-lhe as mos com
ar paternal.
  Confiava plenamente em Hlne para o manter informado sobre
qualquer acontecimento social, mas era sobretudo o facto de ser a
mulher do seu filho predilecto que o levava a ser to carinhoso com
ela. Ao contrrio de Henri e de si prprio, Jules no possua qualquer malcia. Tinha herdado de sua falecida me o encanto e o temperamento alegre. Fora para Dominique 
uma amarga desiluso saber que Jules decidira entrar para o Exrcito, e no para o negcio da
seda. Aceitou a deciso do filho, mas, secretamente, traou um
plano para o reconduzir  Maison Roche assim que acabasse o seu
tempo de servio.
  - Monsieur e Madame Valmont. - Os noivos foram anunciados no meio de uma grande ovao.

  Uma expresso agressiva apareceu no rosto de Dominique. Todo
o antigo ressentimento contra a filha reapareceu. No lhe perdoava
o facto de estar viva e de a sua amada esposa ter morrido - por
causa dela. No dia em que nasceu, Gabrielle no recebeu de seu pai
nem um olhar. Hoje, como atravs de um vu de memria, Dominique conseguia rever Marguerite - a nica mulher que amara em
toda a sua vida - na beleza de Gabrielle, nos seus caracis castanhos, na sua forma de andar. Ignorou-a quando ela o cumprimentou.
  - Ento, agora passou a ser meu genro - declarou cordialmente a mile. - Que a sorte o acompanhe, a si e  sua noiva.
  mile fez uma vnia.
  - Agradeo-lhe a amabilidade.
  Dominique fez sinal de que estava pronto para se levantar.
Apoiando-se pesadamente na bengala, s permitia a Jules que o
ajudasse a deslocar-se at  sala contgua, onde o banquete de casamento era servido no meio de damascos, sedas e cristais.
  Gabrielle, mile e o resto dos convidados seguiram-no. O desprezo deliberado demonstrado por seu pai naquele dia especial
chocara-a profundamente. No entanto, a sua determinao igualava
a dele. Por vezes, interrogava-se se a sua paixo pela seda no teria
origem no desejo de quebrar a hostilidade de Dominique. Fosse
como fosse, agora amava a seda por aquilo que ela era e considerava-a o mais maravilhoso tecido do Mundo. Sabia que a sua vida
futura seria passada na propriedade Valmont, localizada numa encantadora zona fora de Lyon.
  O banquete prolongou-se por vrias horas. Era quase noite
quando finalmente Gabrielle subiu com Hlne, que a ajudou a trocar o vestido de noiva por um vestido lils. O trajecto at  sua nova
residncia no levaria mais do que uma hora.
  - Aqui esto as luvas - disse Hlne.
  Gabrielle recebeu-as e agarrou com fora as mos da cunhada.
  - Vou sentir muito a tua falta. Vai visitar-me quando Jules se
for embora. Vou sentir-me muito s sem a tua companhia.
  - Esqueces-te de que agora tens mile.
  - Sim,  verdade - disse ela enquanto calava as luvas com ar
sombrio.
  Hlne, observando-a, reparou que Gabrielle se sentia desnorteada, o que contrastava com a segurana com que de manh se

A rvore do Ouro 163

vestira para a cerimnia. Parecia-lhe que alguma coisa acontecera 
cunhada entre a sada e o regresso a casa; talvez o acidente com o
cortejo fnebre a tivesse perturbado mais do que pensava.
  - Ests pronta? - perguntou gentilmente.
  Gabrielle beijou Hlne e com um sorriso forado nos lbios
desceu as escadas que conduziam ao hall, onde mile a esperava e
os convidados se tinham reunido para se despedirem. At mesmo

Dominique ali se encontrava apoiado na bengala. Partiram no meio
da ruidosa excitao que acompanha sempre as despedidas dos recm-casados.

  NoutRo local da cidade, Nicolas Devaux cumprimentava as pessoas que o tinham acompanhado durante o funeral. Todos o conheciam e se recordavam dele, como se os 
onze anos que tinham passado no fossem mais do que onze dias.
  Quando partiu a ltima carruagem, entrou no hotel para confirmar que iria passar ali a noite. Depois, com a lanterna na mo, dirigiu-se para um local aonde no 
voltara desde o dia em que a sua
famlia partira. Era no Bairro Croix-Rousse, onde nessa mesma tarde a carruagem dos Roches tinha feito parar o cortejo, qual flecha
derradeira disparada contra a memria de seu pai.
  Subiu um lano de escadas at atingir uma rua estreita empedrada.  medida que escurecia, acendiam-se as luzes das familiares
casas de pedra, que se dispunham de ambos os lados da rua. Ao
contrrio dos Roches, que, ao prosperarem, se tinham transferido h
vrias geraes para um bairro elegante, os Devaux haviam permanecido no corao da zona industrial, numa casa antiga, cuja
fachada negra escondia um verdadeiro tesouro de sedas.
  A velha casa surgiu perante o seu olhar. Nicolas tirou do bolso a
chave que iria conduzi-lo de volta ao passado. Que iria encontrar ao
fim de todos aqueles anos? Preparando-se para o pior, meteu a
chave na porta e abriu-a de par em par.
  A luz da lanterna revelou o mrmore axadrezado do cho e a
escadaria elevando-se  sua frente. Entrou e fechou a porta. A casa
cheirava a mofo e a abandono, mas os quadros permaneciam pendurados nas paredes e nenhuma das cadeiras do hall estava tombada.
Por enquanto, no havia sinais de desordem. Abriu uma das portas
duplas que dava para o salo principal e entrou.
  Os estragos ali eram maiores do que aquilo que podia ter imaginado. Os painis de seda que cobriam as paredes tinham sido rasgados em pedaos. As cadeiras douradas 
estavam feitas em cavacos,
com o estofo a sair pelo brocado de seda. Ficou estarrecido com a
violncia da destruio, sobretudo porque a melhor seda Devaux
tinha sido usada, naquela sala. Caminhando sobre os destroos,
avanou para outro par de portas que conduziam a uma diviso estreita e comprida, conhecida como a galeria; ali se encontravam
muitos retratos e pinturas, todos em seda. Nenhum escapara ao
vandalismo.
  A galeria desembocava no escritrio de seu pai, o qual, para seu
grande alvio, tinha permanecido intacto. O mesmo acontecera com
a sala de desenho, com os pincis e tintas coloridas arrumados em
prateleiras e com os desenhos semiacabados sobre os estiradores.
  Atravessou um ptio interior e abriu uma porta que conduzia 

fbrica. Elevando a lanterna, dirigiu a luz para os sessenta teares
que, arrumados em quatro filas, mais pareciam escuros esqueletos.
Tinham sido golpeados com machados, abrindo feridas na velha
madeira, gasta pelo tempo.
  Avanando com cuidado por entre os teares, foi recordando a
forma como o pai, decidido a que no houvesse falhas na sua formao, o tinha posto a par de todas as fases do trabalho ali desenvolvido. Ainda muito jovem, comeara 
a trabalhar nos teares. Ia
dando ns nos fios  medida que estes se quebravam, tarefa dura e
cansativa, normalmente reservada s crianas. Os dedos ficavam
em ferida, os braos dormentes e era frequente ver crianas a chorar
enquanto trabalhavam.
  Escarrando de vez em quando numa das centenas de bobinas e
lanadeiras que tinham sido atiradas ao cho, deu por terminada a
volta  oficina. Na altura em que se dirigia para casa, soou uma
pancada na porta da frente. Abrindo-a, deparou com um homem
velho e grisalho usando a indumentria dos teceles, uma tnica
comprida sobre as calas e um gorro. O visitante agarrou as mos de
Nicolas num rude e vigoroso aperto.
  - Ento  o senhor, cidado Devaux. At que enfim o vejo regressar s razes!
  Nicolas esboou um sorriso rasgado.
  - Jean-Baptiste Rouband! Ao fim de tantos anos! Entra, entra.
Se no fosse o teu aviso atempado na altura em que eu e o meu pai
ramos perseguidos, no estaria aqui hoje. - Passou um brao 
volta dos ombros do velho homem e fechou a porta. - Precisamos
de festejar este encontro com uma garrafa de vinho.

A rvore do Ouro 165

  - J inspeccionou a adega?
  - Ainda no tive tempo. - Nicolas apontou para a porta aberta
do salo. Em tom amargo disse: - V os estragos que aqui foram
feitos em nome da lei e da ordem. At a oficina foi arrasada.
  Jean-Baptiste deu uns passos em direco ao salo.
  -  mau, mas no  nada que no possa ser remediado. De qualquer maneira, a lei no teve nada a ver com isto.
  - Ento, quem foi?
  O velho homem voltou-se.
  - Foram os homens de Dominique Roche. Invadiram isto aps
a vossa sada. Teriam provocado ainda mais danos se no fossem
alguns dos vossos teceles que os puseram em fuga.
  Nicolas empalideceu.
  - No lhe chegou ter posto as nossas vidas em perigo! Teve que
nos destruir a casa e a fbrica!
  - Como reagiu a sua me  fuga?
  - Muito mal, infelizmente. J estava doente h vrias semanas.
O facto de ter que deixar a casa naquelas circunstncias acelerou a
sua morte. Estou absolutamente certo disso! - Nicolas passeava
impaciente para c e para l. - Digo-te que tenho muitas coisas
contra os Roches e hoje, e hoje ainda fiquei com mais!

  - Se no o ofendo - aventurou-se Jean-Baptiste cautelosamente -, gostaria de perguntar se a acusao formulada por Dominique Roche sobre a colaborao da vossa 
famlia com o Regime
do Terror poderia ser sustentada se fosse levada aos tribunais de
Lyon.
  - Muito possivelmente. - Nicolas no fugiu  pergunta. - Os
nimos estavam muito exaltados naquela altura e teria sido muito
difcil encontrar um juiz imparcial. - Parou por momentos. -- Chega de melancolia por hoje! Vamos l ver o que se consegue
encontrar na adega.
  Para l se encaminharam e descobriram com alegria que nada
tinha sido saqueado. Armados de copos e garrafas, os dois homens
subiram as escadas e foram sentar-se no que em tempos fora o salo
de famlia.
  - Quando tenciona pr de novo os teares a funcionar, cidado
Devaux? - perguntou o velhote.
  Nicolas, instalado numa confortvel cadeira, olhou para o tecelo por cima do copo.
  - Que te faz pensar que eu quero voltar a viver aqui? Depois de ter estado no Exrcito durante quatro anos, voltei a Paris e a, em
conjunto com o meu pai, montei um negcio de seda. Presentemente, controlo um nmero razovel de teares nas zonas limtrofes
de Paris.
  - A seda s  seda se for tecida em Lyon. Seda parisiense? Bah!
- Jean-Baptiste sublinhou o seu desdm com outro copo de vinho,
que bebeu de um trago. Depois, acrescentou: - No precisa de ter
receio de que a lama com que sujaram o vosso bom nome perdure.
Os tempos mudaram.
  - Se eu decidir regressar a Lyon - disse Nicolas -, ser para
me restabelecer  minha maneira. Quanto  seda parisiense, fechei
recentemente um contrato para parte da renovao das Tulherias.
  - Far ainda melhor na sua cidade. Alm disso, a Maison Roche
tem assegurados, dentro em breve, bons contratos com Napoleo
Bonaparte - resmungou o velhote.
  Nicolas semicerrou os olhos.
  - Ento os Roches entraram na corrida? Talvez seja a altura de
a Maison Devaux reabrir.
  - Bem dito! - Jean-Baptiste bateu no joelho, triunfante. - 
isso mesmo! So as melhores notcias que ouo desde h muito
tempo.
  Pondo de lado o copo, pegou na garrafa pelo gargalo e com jbilo despejou o contedo pela garganta abaixo. De pouco ou nada se
recordou depois disso e no teve a percepo de que Nicolas teve de
o ajudar a regressar a casa.
  De volta ao hotel, Nicolas adivinhou que Jean-Baptiste iria gabar-se de ter tido um papel primordial no restabelecimento da seda
Devaux em Lyon. A verdade  que havia j pensado em regressar ao
local onde os seus antepassados tinham produzido a melhor seda de
Lyon, como membro do que colectivamente era conhecido pela
??Grande Fabrique??.
  J no quarto, pensou na noiva que encontrara naquele dia. No

rescaldo da coliso, olhara para ela, desejara-a e considerara-se
louco por ser assaltado pelo desejo durante o funeral de seu pai.
Nunca na vida se tinha sentido to atrado por uma mulher. Pressentira uma resposta da parte dela, que tornara a sintonia entre eles
completa.
  Na recepo que se seguira ao funeral, obtivera preciosas informaes sobre ela, incluindo o nome e profisso do noivo. Nicolas
tencionava voltar a v-la logo que a oportunidade surgisse.

A rvore do Ouro 167

   Luz Da vELa, Gabrielle preparava-se para se deitar. Era ajudada por uma criada que mile contratara para a servir. Nunca tivera uma criada particular, e era 
por isso novidade ter algum para
a ajudar a despir e lhe escovar o cabelo.
  Tinha visitado uma nica vez a casa de mile, antes de se casar,
e gostara dela de imediato. Construda em pedra, que com o tempo
adquirira uma colorao dourada, tinha mais de cem anos e apresentava propores equilibradas. Agora que pela primeira vez se encontrava no andar de cima, constatou 
que, por sua causa, houvera ali
uma remodelao total. Pois o quarto ainda cheirava a tinta e o papel de parede tinha como padro as flores da sua rvore preferida, a
mimosa. A cama, tambm nova, possua um dossel circular, a partir
do qual desciam finos reposteiros, formando como que uma tenda.

  Gostava da sua nova casa. Sentia-se segura nela, embora no
fizesse parte do seu feitio a procura de segurana.
  - Precisa de mais alguma coisa, madame? - perguntou a
criada.
  - No, obrigada. Pode ir. - Gabrielle foi at  janela e olhou l
para fora. A Lua estava brilhante, permitindo ver para alm da copa
das rvores as instalaes de produo de seda. No dia em que o
havia visitado, mile mostrara-lhe os barraces de pedra branca
cobertos de telhas onde milhares de ovos eram armazenados em
caves frias at  altura da incubao. Depois desta, todo o ciclo da
sericicultura - a criao de bichos-da-seda para a produo de seda
crua - recomearia.
  A histria favorita de Gabrielle, em criana, era a que se contava
acerca da origem da seda. Um dia, quando a imperatriz chinesa Hsi
Ling Shi tomava o seu ch no jardim, no ano 2640 a. C., caiu-lhe um
casulo dentro da chvena. Vendo uma ponta de fio solta, puxou por
ela e, espantada ao ver que era contnuo, comeou a enrol-lo num
galho. Constatou que tinha vrios metros de comprimento. Compreendendo o seu potencial, a imperatriz introduziu a sericicultura

em larga escala no seu pas. Para Gabrielle fora sempre muito fcil
sentir-se em sintonia com a imperatriz no seu amor pela seda.
  Puxando a cortina para trs e olhando para oeste, podia ver a
plantao de amoreiras, podadas do tamanho de pequenos arbustos,
que se estendia sob as estrelas. Visto que os bichos-da-seda dependiam totalmente das folhas de amoreira para a sua subsistncia,
no admirava que a amoreira fosse conhecida em todo o Mundo
como a rvore do ouro, um nome mgico que a fascinava.
  mile subiu as escadas e dirigiu-se ao seu quarto de vestir. Era,
para ele, clara a forma como se passaria a sua noite de npcias.
Aceitava que Gabrielle no o amasse. Se precisasse de uma prova,
tivera-a durante a cerimnia de casamento, na altura em que ela
retirara momentaneamente a mo onde ele ia colocar a aliana. A
dor que sentira nesse momento assemelhava-se  de um golpe de
punhal, agravada pelo desejo que sentia por ela. No entanto, planeava conquistar o seu amor gradualmente, sem pressas.
  Gabrielle, com os cabelos cor de cobre brilhando  luz da vela,
estava j deitada quando ele entrou no quarto. Segurando o castial
de prata, apagou a vela, levantou os lenis e deitou-se a seu lado.
Fazendo um grande esforo para se conter, voltou-se para ela e,
tomando-lhe o rosto nas mos, beijou-a ternamente.
  - Boa noite, minha querida Gabrielle, dorme bem.
  Ento, na altura em que ia afastar-se, ela lanou-lhe os braos 
volta do pescoo e puxou-o para si.
  - Que se passa? - perguntou, espantada. - Estou muito feliz
por ser tua mulher.
  Deixando escapar um grito de alegria, mile beijou-a apaixonadamente, tendo sentido nela igual ardor. Acreditou ento que tinha
feito despertar nela um sentimento de necessidade em relao a ele,
o que era um bom pressgio para a sua vida em comum. O que nunca
chegou a saber foi que, depois de adormecer, ela se manteve acordada por muito tempo ainda.



CAPTULO DOIS

PASSARAM-SE dez dias antes de Jules e Hlne lhe fazerem a prometida visita. Gabrielle, de braos abertos, com o vestido de musselina
a esvoaar, desceu as escadas a correr ao encontro deles.
  - Sejam bem-vindos! Tenho estado ansiosa  vossa espera.
  Jules, descendo da carruagem primeiro, abraou Gabrielle efusivamente.
  - Ento, aqui tens a tua recompensa! - Agarrou a irm pela
cintura e f-la andar  roda, como fazia quando eram crianas.
  mile, aparecendo com um ar calmo, franziu o sobrolho ao deparar com to exuberante manifestao de afecto. No se sentia
ainda preparado para partilhar com outros a sua encantadora esposa.
Apesar de tudo, foi receber os convidados com a devida cortesia.

A rvore do Ouro 169

  - Fao minhas as palavras da minha mulher - disse-lhes. -- Sentimo-nos honrados com a vossa presena.
  Enquanto os criados retiravam a bagagem, mile acompanhou
Jules at ao salo para lhe oferecer uma bebida. Entretanto, Gabrielle conduziu Hlne ao quarto de hspedes, situado no andar de
cima.
  - Aqui ficamos muito confortveis - observou Hlne enquanto apreciava o papel de riscas azuis e brancas e a cama com ornamentos dourados.
  Gabrielle agarrou-lhe no chapu e no casaco.
  - Como est o pai?
  As covinhas de Hlne reapareceram.
  - Continua difcil - admitiu. - Quando Jules est em casa,
no gosta de o perder de vista um segundo, por isso foi bastante
difcil virmos. Mas Jules insistiu.
  - Ainda bem. O pai gosta de controlar a vida de toda a gente. -- Gabrielle suspirou. - Agora, tornaste-te sua governanta, companhia, enfermeira e escrava. Vai-te 
apertando o cerco cada vez mais.
Mas chega de problemas de famlia. Vamos ter com os homens, que
devem estar a pensar o que nos aconteceu.
  Jules e Hlne ficaram trs dias. os quais, na opinio de Gabrielle, passaram depressa demais. A ocasio que ela aguardava h
muito tempo surgiu apenas na ltima noite, na altura em que mile
convidou Hlne a visitar a sua coleco de mariposas raras, vindas
da ndia e do Extremo Oriente.
  - Finalmente, tenho oportunidade de falar a ss contigo -- disse Jules.
  -  verdade - respondeu ela. - Sei que nunca quiseste sujeitar Hlne  violncia de ter que te acompanhar quando ests em
campanha, mas agora ela deve ir contigo ou ento deves arranjar
uma casa vossa. Ela merece ter tempo para si, em vez de ser o principal suporte de uma casa onde no a deixam em paz. Os seus afazeres duplicaram desde que me casei.
  Jules agarrou-lhe no cotovelo e levou-a at a um sof, onde se
sentaram.
  - Hlne e eu j conversmos sobre o assunto. Ela no quer
mudar-se para um stio onde no tenha nada que fazer a no ser
preocupar-se comigo. Faz-lhe bem estar ocupada. Alm disso, acha
que o pai precisa dela e agrada-me a ideia de a minha mulher ser
para ele um apoio.
  Viu o rosto da irm ensombrar-se.
  - No quis magoar-te. Sou provavelmente a nica pessoa, 
excepo de Hlne, que sabe que, apesar de tudo, te preocupas com
o pai.
  Ela esboou um gesto de resignao.
  - No se quebra facilmente um lao filial. Ele  um homem
extraordinrio e eu admiro o poder que detm. Eu prpria gostava
de o vir a ter.
  - Henri  que vai herdar todo esse poder, um dia, o que me leva
a falar-te noutro assunto. O pai est cada vez mais doente. Temos

que encarar a possibilidade de que ele no dure tanto tempo quanto
gostaramos. Quando ele desaparecer, no quero que Hlne continue a viver naquela casa. No quero que a minha querida mulher
passe o resto da vida sob as ordens de Yvonne.
  - Porqu o resto da vida? Estas guerras ho-de terminar um dia
e tu regressars a casa de vez. - Ela viu que o olhar arrapazado
desaparecera e fora substitudo pelo do soldado.
  - No h garantias de que eu faa parte dos sobreviventes.
  - No digas isso - implorou ela.
  - Tenho que te falar deste assunto. Sabes, pensamos que Hlne
 capaz de estar  espera de criana, o que quer dizer que, se ficar
viva, estar ainda mais vulnervel com um beb! - Aproximou-se
e agarrou a mo da irm. - Prometes-me que a tiras de casa do
nosso pai se, quando ele morrer, eu j no a puder proteger?
  - Sabes que sim! S espero e rezo para que nunca tenha necessidade de cumprir a promessa.
  Ele sorriu abertamente e a boa disposio habitual reapareceu.
  - Farei os possveis para que no seja preciso.
  No dia seguinte, enquanto se despedia com o marido de Jules e
Hlne, Gabrielle pensava em tudo o que fora dito. Quando a carruagem desapareceu no horizonte, suspirou e voltou-se para entrar
em casa com mile, mas constatou que ele no esperara por ela. Nos
dias que se seguiram, mile permaneceu frio e distante e ela percebeu com assombro que ele se sentira negligenciado. Nunca lhe passaria pela cabea que ele fosse 
ciumento da sua ateno e constatou,
aliviada, que pelo fim-de-semana j recuperara da crise de mau-humor.
   Primavera de 1804 seguiu-se o Vero. A sua vida de casada
decorreu sem sobressaltos, e foi um grande choque para ela a sbita
e inesperada confrontao que surgiu entre os dois. Aconteceu algum tempo depois de os milhares de bichos-da-seda terem sado dos
ovos, o que provocou um alvoroo de actividade por toda a quinta.
  mile entrou num dos pequenos barraces, onde Gabrielle estava a colocar uma nova rao de folhas de amoreira sobre a rede
que fora fixada em cima de cada um dos tabuleiros de larvas. Os
bichos-da-seda so comedores vorazes.  necessria uma tonelada
de folhas para alimentar as lagartas que saem de apenas trinta gramas de ovos. Trinta gramas essas que produzem por fim mais de
vinte e sete mil quilmetros de fio de seda.
  mile observou Gabrielle por um momento e depois disse-lhe
com rispidez:
  - Andas a passar aqui demasiado tempo e dedicas-te pouco aos
deveres de dona de casa.
  - Isso  uma acusao injusta! - protestou ela, indignada.
Enfrentou-o em p, na passagem entre as prateleiras com os tabuleiros. - Pensei, Emile, que ficarias satisfeito por eu demonstrar tanto
interesse por aquilo que  o nosso meio de subsistncia.
  - Claro que fico, mas no me parece correcto que a minha
mulher trabalhe aqui como se fosse uma assalariada. Visita estes

barraces sempre que quiseres para veres o que se vai passando. Isso
 diferente. No tarda, as larvas comeam a fazer os casulos. At l,
no me parece que haja alguma coisa que justifique a tua presena
aqui.
  Os olhos de Gabrielle brilhavam perigosamente. Ele estava a
proibir-lhe o acesso aos barraces.
  - Ests a querer condenar-me ao tdio?
  Ele manteve-se calmo. Estava preparado para enfrentar os
momentos difceis do seu casamento, pois apercebera-se, logo que
a conhecera, que ela era viva, inteligente e independente. No entanto, estava, se possvel, mais apaixonado do que nunca.
  - H muitas coisas que podes fazer.  altura de retribuirmos
alguns dos convites que nos foram feitos durante estas ltimas semanas. Desde que Jules e Hlne aqui estiveram, no convidmos

ningum.
  - Posso organizar um jantar e contratar uma orquestra - disse
ela secamente. - Podia danar-se no jardim.
  - Excelente ideia! - exclamou ele com mais entusiasmo do
que a sugesto merecia. A seguir, abraou-a e, tentando ignorar a
sua atitude rgida, disse-lhe com voz terna: - Chegou a altura de
desempenhares a tua verdadeira funo.
  Pelo rosto dela passou uma sombra de desiluso. Afastando-se
bruscamente dele, abriu os braos, exasperada.
  - Desde que me lembro, os homens sempre tentaram contrariar
o meu interesse pela seda. Tudo aquilo que aprendi foi atravs do
meu esforo e a minha esperana era que, um dia, meu pai cedesse e
me deixasse partilhar com Henri a responsabilidade pelo negcio. A
Maison Roche s teria a ganhar se meu pai tivesse conseguido perceber que eu tenho tanto talento como o meu irmo.
  - Quando decidiste casar comigo, tinhas os mesmos objectivos
em relao  sirgaria Valmont?
  Ela encarou-o frontalmente.
  - Penso que j suspeitavas disso. Deste a entender que eras um
homem esclarecido, pronto a aceitar que a Revoluo concedeu a
mulheres como eu uma nova liberdade.
  O olhar dele tornou-se frio.
  - Foi essa a nica razo que te levou a casar comigo?
  - No! Antevi a possibilidade de desempenhar o papel de esposa e simultaneamente ajudar-te no negcio. - A sua expresso
suavizou-se e, aproximando-se, apoiou as mos no peito dele. -- Mas, acima de tudo, sempre te respeitei e admirei. No gostaria que
qualquer diferena de opinio pudesse interpor-se entre ns.
  Ele ps-lhe a mo por baixo do queixo.
  - Aceita o meu conselho, minha querida.  o melhor para ti.
Amo-te e o meu maior desejo  que te tornes completamente minha,
como eu sou teu.
  Ela afastou-se pouco  vontade. mile era um homem bom e
muito temo e gostaria de poder apaixonar-se por ele. Mas, por enquanto, tudo o que lhe podia oferecer era afecto e lealdade.
  - Vou ver se comeo a fazer a lista dos convidados - disse em

voz baixa.

  NoS DIAS que se seguiram, ocupou-se com os preparativos para a
festa e comeou at a ficar ansiosa que chegasse o dia. Os convites
foram enviados e ficou desapontada quando soube que Hlne no
compareceria devido ao seu estado j confirmado. No sentiu o
mesmo em relao a Henri e Yvonne, que tambm declinaram o
convite. Quanto a seu pai, nunca participava em nenhum acto social
fora de sua casa. Mesmo assim, entre amigos e conhecidos de negcios, esperavam-se mais de cem pessoas.
  Apesar das restries impostas por mile, Gabrielle conseguia

A rvore do Ouro 173

retirar alguns momentos ao seu apertado horrio para visitar os barraces. Queria observar o momento em que as larvas iriam parar de
comer para comearem a fazer o casulo. O delicado processo comeou trs dias antes da festa. Viu o fio de seda que as larvas produziam endurecer ao entrar em contacto 
com o ar, envolvendo-as
em vus nebulosos.
  No dia da festa, a maioria dos bichos-da-seda estava encerrada
em pequenos casulos amarelo-dourados e leves como penas. Enquanto os observava com mile, Gabrielle pensou uma vez mais
que a seda era, de facto, a rainha dos tecidos, bela, quente e forte.
  - Tenho a certeza de que vamos ter uma boa poca este ano -- disse mile. - E no fim ters um vestido feito de seda Valmont.
  Ela olhou-o agradavelmente surpreendida.
  - Vou eu prpria tec-la com o tear que trouxe de casa. - Beijou-o ao de leve na boca e ele abraou-a.
  A noite do dia da festa estava quente e amena, o cu de veludo
cheio de estrelas. Lanternas de papel penduradas nas rvores faziam
com que entre os ramos aparecessem raios de luz colorida e cintilante. Os convidados comeavam a chegar em carruagens abertas,
as senhoras usando jias e vestidos de cores suaves. Gabrielle estava com um vestido de seda em tom de pssego, coberto de renda
creme, que lhe assentava como uma luva. mile oferecera-lhe uma
rosa creme, que ela prendera no decote com um alfinete de prolas.
  Receberam os convidados no hall de entrada. Quando o baile
comeou, alguns preferiram o grande terrao para estarem mais
peno da orquestra, enquanto outros se espalharam pelo relvado sob
o brilho das pequenas lanternas. Depois de danarem juntos a primeira quadrilha, mile e Gabrielle separaram-se para danarem
com os seus convidados. Um pouco antes da hora do jantar, Emile
reclamou a sua ateno, na altura em que ela conversava alegremente com um grupo de gente nova de Lyon.
  - Gabrielle, minha querida, gostaria de te apresentar um convidado que se atrasou um pouco ... Aqui est ele ... Monsieur Devaux.

  Durante um ou dois segundos, ela no se mexeu. Depois, bruscamente, voltou-se e olhou de frente para Nicolas, o que lhe provocou
uma deliciosa onda de prazer. Observou que ele, involuntariamente, contraiu o maxilar, como se a sua presena tivesse produzido nele o mesmo efeito.
  - J nos conhecemos, no  verdade, Monsieur Devaux? -- Sentia-se fraca, paralisada pelo prazer e ao mesmo tempo apavorada. Pelo canto do olho, viu a expresso 
surpreendida de mile.
  - J se conheciam?
  - Apenas s?perficialmente.
  - Foi o mais breve dos encontros - disse Nicolas com uma
ligeira inclinao da cabea.
  Sentindo instintivamente o perigo, Gabrielle disse suavemente:
  - Sei que vou fazer eco dos votos de mile ao desejar-lhe que
passe uma noite agradvel entre ns.
  - Obrigado, so muito amveis.
  mile encarregou-se de Nicolas, apresentando-o aos convidados do grupo em que ela estava. Na primeira ocasio, Gabrielle escapou-se e dirigiu-se a casa, visto 
que precisava de se recompor do
impacto provocado por aquele inesperado encontro. No seu quarto,
afundou-se num cadeiro e reviu toda a situao.
  O que sentia naquele momento sentira-o aos dezassete anos.
Agora, aquela sensao voltava, mil vezes mais intensa, arrastando-lhe o corpo e o esprito para caminhos que ela considerava muito
perigosos. Iria necessitar de toda a sua fora de vontade para resistir  atraco daquele homem, que era, para todos os efeitos, seu
inimigo e da sua famlia.
  Quando se dirigia ao terrao; j recomposta e decidida a enfrentar o resto da noite, encontrou Emile.
  - Tenho andado  tua procura. Aconteceu alguma coisa?
  - Nada que no tenha soluo. Penso que  altura de mandar
servir o jantar - disse com um ar alegre.
  Aumentava o rudo das conversas  medida que os convidados
iam entrando no grande salo, onde os esperava o huffet. Procurando Nicolas com o olhar, depressa o descobriu no meio do grupo dos seus amigos. Parecia muito divertido, 
o que era natural, visto
que as mulheres eram bonitas e os homens bons conversadores.
  Sorrindo graciosamente, caminhava entre os convidados, verificando se tudo estava em ordem. Evitou deliberadamente o local
onde Nicolas e os seus amigos se haviam sentado, acabando por se
encontrar junto a mile. Percebeu que, instintivamente, procurara a
sua proteco.
  Terminado o jantar e na altura em que se recomeava a danar, o
tempo mudou bruscamente e adivinhava-se um temporal. Um estranho vento quente, que parecia querer empurrar as nuvens, estava a
provocar um efeito estimulante nas mulheres, fazendo com que as

A rvore do Ouro 175

saias rodopiassem  sua volta, obrigando-as a um contacto mais
chegado com os seus pares. A orquestra, contagiada pelo clima,

tocava agora uma animada contredanse. Todos danavam, incluindo Gabrielle. Os danarinos, de mos dadas, formaram um grande
crculo, que ia mudando de forma  medida que avanavam no relvado, serpenteando no meio das rvores, onde as sombras eram
escuras e secretas. A cadeia quebrava-se a cada doze passos a fim de
que se mudassem os pares.
  Ento, no momento em que se ouviu o ribombar distante de um
trovo, Gabrielle encontrou-se frente a frente com Nicolas. Os seus
rostos estavam iluminados pela luz das lanternas. Ele reparou na sua
expresso radiosa, na altura em que as suas mos estendidas agarraram as dela.
  - Tenho estado toda a noite  espera deste momento! - exclamou ele, rindo discretamente com um ar triunfante.
  Ela riu-se tambm, sentindo-se completamente despreocupada
ao deixar-se guiar pela dana. A trovoada fez com que vrios pares,
olhando o cu com ar duvidoso, abandonassem a roda, e assim
Gabrielle ficou livre para continuar a danar com Nicolas.
  - Devo confessar que nunca esperei v-lo aqui esta noite -- disse ela em voz baixa.
  Ele estava bastante divertido.
  - Devia saber que, mais cedo ou mais tarde, nos havamos de
encontrar novamente.
  Pressentindo o perigo, ela desviou o olhar. H muito tempo que
no sentia aquela sensao de leveza. Parecia que flutuava no ar.
  - No pensei que isso viesse a acontecer na minha prpria casa
- disse ela.
  - Acha que no deveria ter vindo? - perguntou ele.
  - Porque no? - Inclinou a cabea com ar desafiador, olhos
travessos, a saia a rodopiar  sua volta.
  Abrandaram o passo da dana. Como era inevitvel, acabaram
por parar; ela encostou-se a uma rvore, ele,  sua frente, apoiou a
mo no tronco. O ribombar dos troves estava cada vez mais perto.
  - Tem estado a viver em Lyon desde a altura em que nos encontrmos? - perguntou ela.
  - No. Regressei a Paris na manh seguinte.  l que tenho os
meus teares. Estou de volta a Lyon numa curta estada para tratar das
obras de reparao da casa de minha famlia na Croix-Rousse. Vai
levar alguns meses at ficar tudo em ordem.
  - Porqu?
  Apercebeu-se de que ela no fazia a mais pequena ideia dos estragos causados por instigao de seu pai.
  - A humidad?e e o p so prejudiciais  seda. Para alm disso, h
outros danos a reparar.
  Vrios outros pares se tinham espalhado  volta deles. Para
Gabrielle, a atmosfera ertica criada pela tempestade iminente era
ainda mais sentida, consciente que estava da proximidade dos abraos e beijos roubados a coberto da pesada escurido. Sentiu de repente a necessidade de continuar 
a falar.
  - Pensa regressar a Lyon quando a sua casa estiver habitvel?
  -  essa a minha inteno. Mais do que isso, espero fixar-me

aqui. Quem nasceu em Lyon em mais lugar nenhum se consegue
sentir realmente em casa.
  Gabrielle sentiu-se em perfeita harmonia com ele.
  - Quer saber qual  o local de que mais gosto em Lyon?
  Ele no conseguia desprender os olhos dela.
  - Diga-me - pediu.
  -  na encosta da Fourvire. Gostava de ter l uma casa. Ficaria afastada de todas as casas, ruas e fbricas da cidade. Contudo, a
vista faria com que parecesse mais pertencer a Lyon do que a casa da
minha infncia, na Rua Clmont.
  - J escolheu o local exacto?
  Ela sorriu como que a recordar.
  - Sim, h muitos anos atrs. O meu irmo Jules e eu, quando
ramos crianas, fomos l fazer um piquenique. Encontrmos algumas peas de cermica romana. Marquei o stio com um dos fragmentos.
  - Gostaria de ir l ver. - Estava a falar a srio. O clima que se
estabelecera entre os dois era agora mais ntimo, mais profundo. Ela
s o percebeu tarde demais e tentou grace?ar.
  - Ento ter que o procurar sozinho. E o meu segredo.
  A tentativa no resultou. Ele continuou a fix-la intensamente.
  - No se sente desenraizada aqui no campo?
  - Sinto que me faz falta estar no centro da actividade do comrcio da seda.
  Ele sorriu.
  - Poucas mulheres teriam invocado tal razo. Diriam que lhes
fazia falta a vida social, as modistas a conversa. Mas a Gabrielle 
diferente de todas as mulheres que conheci.

A rvore do Ouro 177

  Ao ouvi-lo pronunciar o seu nome, ela voltou ligeiramente a cabea e olhou para as luzes distantes que provinham de casa.
  - Acha que sou? - A sua voz mal se ouvia.
  - Se o tempo voltasse para trs at ao dia em que nos conhecemos, no a teria deixado ir embora.
  Ela olhou-o de novo. O prazer intenso que lhe provocava a sua
proximidade teria que ser estritamente confirmado quela noite e no
deveria voltar a repetir-se.
  - Fico feliz por nos termos encontrado esta noite - confessou.
- No entanto, farei todos os possveis para que os nossos caminhos
no voltem a cruzar-se no futuro.
  Ele aproximou-se mais, olhando-a nos olhos.
  - Como deve saber, vim aqui esta noite s para a ver.
  - Nesse caso, podemos dar-nos por satisfeitos de termos a oportunidade de reconhecer que no vale a pena sonhar com o impossvel.
  Subitamente, grandes relmpagos pareceram querer rasgar o
cu. No instante em que viram o rosto um do outro iluminado pelo

fugaz brilho azulado, desvaneceram-se quaisquer dvidas que pudessem ter acerca do magnetismo que os unia. Quando soou o estrondo enorme de um trovo, ele envolveu-a 
nos seus braos, beijando-a com tamanha paixo que ela apenas pde responder com
igual ardor. Percebeu naquele momento que o seu destino estava
para sempre ligado ao daquele homem.
  Com o trovo, veio a chuva em grandes btegas. Nicolas e Gabrielle, completamente alheados, desafiavam o temporal. Separaram-se somente na altura em que sentiram 
algum passar por perto.
  - Venha comigo! - suplicou ele, agarrando-se desesperadamente  sua mo. A luz do relmpago revelou a paixo violenta que
o dominava. - Agora! Neste momento!
  - No! Deve estar louco! - gritou ela, tentando fazer-se ouvir
acima do rudo de um trovo que estalou como um tiro de canho.
  -  a nossa segunda oportunidade! Pertencemos um ao outro,
no percebe?
  - Nunca! No sou sua e nunca o serei! - O pnico quase a
punha fora de si. - V-se embora! Saia da minha vida! - Largou-o bruscamente e afastou-se a correr.
  Ele gritou-lhe:
  - Afaste-se das rvores altas! So muito perigosas numa tempestade como esta!
  Ela tropeou e parou.
  - O laranjal  j ali - gritou. - Eu indico-lhe o caminho.
  Ele inclinou a cabea, dando-lhe a entender que a tinha ouvido.
As pessoas aglomeravam-se sob as rvores. A luz dos relmpagos ia
mostrando o caminho, e quando ela abriu a porta do laranjal um
delicioso aroma ajudou a orientar aqueles que a seguiam. L dentro,
as senhoras tremiam sob os vestidos encharcados, visto que a temperatura baixara consideravelmente com a ?chuva.
  mile tinha organizado os criados, que seguravam grandes oleados de forma a servir de abrigo aos convidados.
  Por fim, todos aqueles que se tinham reunido no laranjal acabaram por sair. Gabrielle e as senhoras debaixo dos oleados, os homens preferindo uma rpida corrida 
at casa. A festa, obviamente,
chegara ao fim. Gabrielle, que na altura se encontrava no andar de
cima com algumas senhoras, no viu Nicolas partir.
  Quando saiu a ltima carruagem, mile arranjou um grande
conhaque. Estava gelado e tremia.
  - Penso que podemos congratular-nos pelo sucesso da festa -- disse a Gabrielle, que acabava de pr uma estola de seda sobre os
ombros -, apesar deste final imprevisvel.
  - Concordo contigo. H s uma coisa. Monsieur Devaux no
deve voltar a ser convidado c para casa - declarou com um aperto
na garganta.
  - Porqu?
  A resposta foi rpida.
  - Acho que nem devias perguntar. Ele  um Devaux. Ests com
certeza a par da inimizade que existe entre a famlia dele e a minha!
  mile manteve-se imperturbvel, enquanto bebia devagar o seu
conhaque.
  - So guas passadas. No h necessidade de alimentar velhos

dios. Dominique  um homem que se deixa levar por rancores totalmente irracionais, como, por exemplo, naquela poca revolucionria, em que denunciou os seus inimigos.
  - Ests a fugir do problema.
  - Estou a tentar mostrar-te que no h razo para haver problema. - Pesou cuidadosamente as palavras. - Acho que Devaux 
um homem que pode fazer muito pela indstria da seda. Tenciono
fazer negcios com ele.
  - No!
  - J discutimos a quantidade de seda cnia de que ele necessita
para os seus teares em Paris. Assim que ele fizer a encomenda, pretendo satisfaz-la.
  Com as mos crispadas e em grande agitao, aproximou-se
dele.
  - Penso que o melhor ser evitar todo e qualquer contacto com
ele, de modo a prevenir futuros dissabores.
  Fatigado, mile desapertou a gravata encharcada e passou um
dedo  volta do colarinho alto.
  - S razovel, minha querida. No posso desperdiar um bom
negcio. Quando este homem reabrir a fbrica Devaux em Lyon, ir
necessitar de muito mais seda crua.
  Parecia que, por mais que ela lutasse, existia uma fora que
teimava em atir-los um de encontro ao outro. Em desespero, fez
um apelo final.
  - Faz negcio com ele ento, mas peo-te que no me obrigues
a encontrar-me com ele em reunies sociais.
  - Muito bem - concordou ele, perturbado pela expresso do
seu olhar, que revelava um tormento interior que a situao no
justificava. Com inteno de a tranquilizar, tocou-lhe ao de leve na
face, mas ela instintivamente afastou a cara da mo gelada, que
agarrou entre as suas.
  - Ests completamente enregelado - disse ela. - No fazia a
mnima ideia. Vai j despir essa roupa molhada. - Ele obedeceu
sem protestar.
  Na manh seguinte, o sol brilhava como se no tivesse havido
tempestade. Tentando esconder de Gabrielle o cansao e as dores de
cabea que sentia, mile anunciou que no fora afectado pela tempestade da noite anterior. No entanto, ao servir-lhe o caf, ela no
estava muito convencida. Viu-lhe o rosto congestionado e os olhos
raiados de vermelho.
  Por volta do meio-dia, confirmou-se o pior. mile voltou do
escritrio cheio de febre. Chamaram logo o mdico e Gabrielle ajudou-o a deitar-se, o que ele fez de bom grado.
  O Dr. Jaunet no demorou muito tempo. Era um homem de meia-idade, simptico e rotundo. Enquanto auscultava mile, no
deixou transparecer qualquer reaco, mas fora do quarto disse a
Gabrielle num tom de voz grave:
  - Trate do seu marido com muito cuidado, Madame Valmont. O
perigo destas febres  que podem causar sequelas permanentes nos
pulmes e acabar numa pneumonia. Ser uma rdua batalha.

A rvore do Ouro 181

  - Farei tudo o que puder.

  mile esteve de facto durante muitos dias entre a vida e a morte.
Hlne, sabendo-o to doente, fez a desfeita a Dominique de o deixar para ajudar Gabrielle a tratar do marido.
  Hlne, em adiantado estado de gravidez, respirava sade. O
facto de poder ajudar mile a curar-se constitua para ela um desafio, embora Gabrielle a tivesse convencido a no fazer os trabalhos
mais pesados, como velar durante a noite ou levantar o doente.
  Com mile incapacitado, era inevitvel que a sua mulher fosse
chamada a tomar decises sobre determinados assuntos relacionados com a criao dos bichos-da-seda. Estava ele ainda em estado
crtico quando o marre ouvrier consultou Gabrielle acerca do problema mais urgente da altura.
  - Peo que me desculpe, madame, mas gostaria de saber se tem
ideia de quantos casulos tenciona Monsieur Valmont pr de parte
este ano para a cultura?
  mile nunca lhe falara no assunto.
  - No sei e o meu marido est demasiado doente para eu lhe
perguntar. Dir-lhe-ei na primeira oportunidade.
  No voltou a pensar nos casulos nos dias que se seguiram. mile
entrou em delrio e a nica coisa que ela podia fazer era passar-lhe
uma esponja hmida no rosto. Quando finalmente a febre cedeu e
ele caiu num sono calmo, Gabrielle, exausta, foi tomada por uma
crise de choro. Hlne ps-lhe um brao pelos ombros e levou-a
para fora do quarto.
  No dia seguinte, revigorada por um sono profundo, Gabrielle
voltou ao quarto do doente e disseram-lhe que mile acordara j
tinha comido umas colheres de gemada e voltara a adormecer. Decidiu ento ir ao escritrio de Emile, na esperana de encontrar a
informao que o matre ouvrier lhe pedira. Deixando Hlne a
olhar pelo doente, saiu de casa. Tinha a impresso de que no sentia
o sol bater-lhe no rosto h meses.
  No pequeno escritrio exterior, o funcionrio cumprimentou-a.
  - Ouvi dizer que Monsieur Valmont se encontra melhor.
Quando poder voltar ao trabalho?
  - No ser to cedo, infelizmente.
  - H correspondncia que no pode ser despachada sem a autorizao dele - informou.
  - Traga-me tudo o que houver.
  Abriu uma das gavetas da secretria de mile. Continha uma
bolsa com moedas de ouro, alguns documentos, cartas particulares
e uma agenda. Folheando-a, encontrou a informao pretendida. O
matre ouvrier iria ficar bastante aliviado por saber que podia prosseguir a sua tarefa.
  A seguir, debruou-se sobre a correspondncia que o funcionrio lhe trouxera. No havia nada to complicado que no pudesse ser
resolvido sem o auxlio de mile. De repente, o olhar pousou sobre
uma carta enviada de Paris. Sentiu o corao parar. Era uma carta de
Nicolas - a confirmao escrita da quantidade de seda crua de que
necessitava.
  A viso do seu nome trouxe-lhe  memria o beijo que tinham

trocado na noite da tempestade. Recordou o ardor dos seus lbios e
a maravilhosa intimidade do seu abrao. Desejou-o to intensamente como naquela altura.
  A carta exigia uma resposta. Decidida, informou que a sirgaria
Valmont no poderia fornecer a encomenda de seda crua  fbrica
Devaux, nem agora nem no futuro. Assinou a carta, dobrou-a e selou-a. mile iria ficar seriamente aborrecido quando viesse a saber,
mas era um risco que ela tinha que correr. O importante  que com
esta carta iria conseguir eliminar, quase por completo, qualquer
hiptese de voltar a encontrar-se com Nicolas.
  Continuou a ocupar-se da correspondncia, certa de que poderia
manter o ritmo de funcionamento do escritrio sem sobressaltos at
mile estar completamente restabelecido. Nessa altura, iria provar
que podia desempenhar simultaneamente os papis de esposa, dona
de casa e mulher de negcios, sem detrimento de qualquer um deles.
Sentiu ento que voltava a ser uma pessoa na verdadeira acepo da
palavra e com direito  sua prpria independncia.


CAPTULO TRS

tvtILE recuperou lentamente. Logo que se sentiu capaz, quis saber
como decorriam os negcios. Hlne, que por acaso se encontrava a
seu lado, acalmou-o dizendo, com a melhor das intenes, que no
precisava de se preocupar.
  - Gabrielle encarregou-se de tudo.
  Para sua surpresa, ele gemeu com um ar atormentado. Gabrielle,
avisada desta reaco por Hlne, assim que o mdico o permitiu,
mandou o macre ouvrier e o empregado do escritrio ao seu quarto

A rvore do Ouro 183

para o porem a par do trabalho em curso. Os seus relatrios foram
breves e animadores. mile ficou com a impresso de que a sua mulher servira apenas de figura simblica temporria enquanto o negcio continuava a decorrer de acordo 
com as suas directrizes.
  Um ms depois da festa, os casulos deixados para cultura comearam a dar sinal de vida. Gabrielle e Hlne encontravam-se nos
barraces para verem emergir as primeiras crislidas. Escuras e
hmidas, tornar-se-iam em breve esbranquiadas, com asas que vibrariam sem parar.
  - Depois no fogem? - perguntou Hlne, olhando com ar duvidoso para a janela aberta.
  Gabrielle abanou a cabea.
  - Sculos de domesticao retiraram a estes pequenos seres a
faculdade de voar. - A seguir acrescentou, quase s para si: - Tal
como as mulheres quando se casam.
  O empregado do escritrio entrou no abrigo.
  - Est l fora um senhor que lhe quer falar, madame.

  - Quem ? - perguntou, dirigindo-se para a porta.
  - Penso que  um cliente novo, um tal Monsieur Devaux.
  Ao ouvir o nome, empalideceu. Sentia uma atraco to violenta
por Nicolas que no acreditava na sua prpria fora de vontade se
tivesse de se encontrar a ss com ele outra vez. Contudo, deixou
Hlne, dirigindo-se ao escritrio, onde entrou por uma porta lateral e se sentou  secretria de mile.
  Tocou a sineta e o empregado introduziu Nicolas no escritrio.
Percebeu de imediato que a entrevista ia ser difcil. Tanto a expresso como a postura dele pressagiavam sofrimento.
  - Bom dia, Gabrielle. Ento, agora est  frente dos negcios?
  - Estou - respondeu calmamente, embora consciente de que a
  presena dele exercia forte atraco sobre os seus sentidos. - Por
  favor, sente-se.
  Nicolas tirou o chapu e ps a bengala de lado antes de se sentar
  na cadeira  frente da secretria.
  - Espero que Monsieur Valmont esteja a caminho da recuperao total - disse ele de forma bastante convincente. - A sua
  carta deixou-me completamente confundido.
  - mile est francamente melhor, felizmente. - Por uma questo de defesa, endureceu o tom de voz. - Porque  que a minha
  carta o confundiu? Era perfeitamente clara.
  - No  essa a minha opinio. O seu marido acordou vender-me
seda crua e eu no posso acreditar que tenha mudado de ideias, a no
ser que ...
  Ela abanou a cabea com veemncia.
  - No lhe contei nada acerca do que se passou entre ns. No
compreendo porque  que quer ser cliente da sirgaria Valmont.
Penso que  de um gosto muito duvidoso querer a produo de um
homem e simultaneamente a sua mulher.
  Nicolas ficou hirto de fria.
  - Seria se aquilo que se passou entre ns tivesse terminado de
maneira diferente. Devo lembrar-lhe de que  para mim uma questo de honra manter o acordo que fiz com Monsieur Valmont.
  - Rescindo, em nome dele, qualquer acordo que possa ter havido e assumo completa responsabilidade pela deciso. Voc  um Devaux e eu uma Roche. As nossas famlias 
nunca fizeram negcios.
  - Voc era uma Roche - sublinhou ele de forma rspida. -- Agora  uma Valmont, o que  totalmente diferente.
  - No meu ntimo continuo a ser uma Roche.
  Subitamente, Nicolas levantou-se, batendo com fora as mos
sobre a secretria.
  - Pretendo reentrar na Grande Fabrique e para isso tenho que
conseguir superar os velhos preconceitos de Lyon contra a minha
famlia, e no vou permitir que isso me seja vedado por se saber que
no fui considerado um cliente de confiana pela sirgaria Valmont.
  Gabrielle permaneceu inflexvel.
  - O assunto est encerrado.
  Agarrando-a pelos pulsos, Nicolas obrigou-a a levantar-se do
lado oposto da secretria.
  - A seda crua no tem nada a ver com o que existe entre ns. Por

mais que queira, no pode alterar esse facto.
  Ela libertou-se dele com tanto mpeto que esbarrou contra a
cadeira.
  - No existe nada entre ns! E a sua encomenda est cancelada!
  Nenhum dos dois sentiu a maaneta da porta girar. mile, ainda
da porta, disse:
  - Tenho que lhe pedir que se retire, Monsieur Devaux. Apoio
inteiramente a deciso da minha mulher.
  Ambos se viraram para ele com igual surpresa. mile, plido,
permanecia de p, apoiado na ombreira da porta. Hlne segurava-o pelo brao. Gabrielle deu um grito preocupado.

A rvore do Ouro 185

  - No devias ter andado tanto! Ainda  muito cedo!
  Parecendo no a ter ouvido, continuou a dirigir-se a Nicolas:

  - O senhor ouviu o que eu disse. Dou-lhe a minha palavra de
honra de que tudo o que aqui se passou permanecer entre ns.
  - Nesse caso, no irei contestar a vossa deciso. - O rosto de
Nicolas demonstrava ainda uma intensa fria. Pegou no chapu e na
bengala. - No vos tomarei mais tempo. - Fez uma vnia formal
a ambos e abandonou o escritrio em passo apressado.
  mile quase caiu de fraqueza. As duas mulheres ajudaram-no a
sentar-se e Gabrielle ps-lhe uma manta  volta dos ombros, aterrorizada com a ideia de que ele pudesse ter uma recada.
  - Que  que te fez vir at aqui?
  Foi Hlne quem respondeu:
  - A culpa foi minha. Disse a mile que tinha chegado um tal
Monsieur Devaux.
  Gabrielle ajoelhou-se, olhando para o rosto exausto do seu marido.
  - Como soubeste que eu tinha recusado a encomenda de Monsieur Devaux?
  Com a respirao entrecortada, ele respondeu com dificuldade:
  - No sabia at ter ouvido o que diziam quando abri a porta.
  - Ests zangado comigo?
  mile respondeu secamente, sem tirar os olhos dela:
  - Recusar um cliente novo e novas encomendas no vai com
certeza ajudar muito a minha paz de esprito nem a minha carteira.
Hlne, por favor, deixa-nos sozinhos.
  Enquanto Hlne fechava a porta, Gabrielle no se moveu do
stio onde estava.
  - Sei que agi contra a tua vontade, mas, apesar de tudo, devo
confessar que gostei de ter poder para decidir.
  mile apreciou a sua franqueza e integridade.
  - Acho que no posso censurar-te pelo facto de quereres ver-te
livre de Devaux - afirmou com condescendncia.
  - s muito compreensivo - disse, vendo que os olhos dele se
adoavam.
  - Mesmo que, em vez de Devaux, tivesse sido o prprio Bonaparte, nunca me colocaria numa posio contrria  da minha
mulher.
  Impulsivamente, ela encostou a face s costas da mo dele.
mile demonstrara-lhe a mesma lealdade que ela sempre prometera

dedicar-lhe. Porque sentia ento a partida de Nicolas de forma to
intensa como se estivesse a morrer por dentro?

  O EsFoRo de mile para chegar ao escritrio provou ser um
ponto de viragem na sua convalescena. Hlne regressou a Lyon, e
todos os dias mile e Gabrielle se sentavam algumas horas  secretria, passando em revista todo o trabalho por ela desenvolvido
durante a sua doena.  parte algumas crticas sem importncia,
mais com o objectivo de a esclarecer do que de apontar erros, mile
aprovou tudo.
  Ento, um dia, ao pequeno-almoo, ele disse aquilo que Gabrielle esperava ouvir h mais de uma semana.
  - No h necessidade de ires hoje ao escritrio. Tens com certeza muito que fazer aqui e  altura de recomeares a estabelecer
contactos sociais.
  Mais tarde, como que tentando compens-la pela forma corajosa como tinha aceite a sua sugesto, trouxe-lhe um presente h
muito, prometido. Os trabalhadores haviam entregue alguma seda
crua. Emile encheu um cesto de vime coberto de fina musselina com
meadas brancas e lustrosas, leves como teias.
  - Aqui tens seda Valmont para o teu vestido, minha querida. Os
tintureiros tingi-la-o com a cor de que mais gostares.
  A sua expresso radiante foi para ele um blsamo, visto que no
queria que nada viesse destruir a nova harmonia que se estabelecera
entre os dois. Gabrielle era tudo o que ele desejava e estava determinado a nunca a perder.
  Ela escolheu uma tonalidade suave de damasco para a seda. No
dia em que as meadas foram enviadas para os tintureiros, reparou
numa notcia que vinha no jornal e chamou a ateno de mile.
  - Dizem aqui que Joseph Jacquard vai fazer em Lyon uma
demonstrao do seu novo tear. Jacquard era filho de um tecelo e
fez sucesso com o fabrico de chapus e posteriormente de teares.
Gostaria muito de ver a demonstrao. Vamos, est bem?
  - Neste momento, no posso largar o escritrio, minha querida.
- Sorriu-lhe. - Porque no vais tu? Podias passar uns dias em casa
do teu pai, ia fazer-te bem visitar Lyon outra vez.
  Gabrielle partiu para a cidade dois dias depois. A carruagem
manteve um bom andamento e a viagem demorou menos do que o
tempo habitual. Entraram em Lyon pelas colinas da Fourvire e ela
pediu ao cocheiro que parasse por momentos num determinado loA rvore do Ouro 187

cal. Encoberta por uma nvoa provocada pelo calor, Lyon estendia-se pela colina a perder de vista. Os rios Rdano e Sane atravessavam a cidade como fitas de cetim. 
Gabrielle achou maravilhoso regressar  vida palpitante da cidade.
  Em casa de seu pai foi recebida por Hlne, que a abraou afectuosamente. Reparou de imediato nas olheiras que lhe ensombravam a expresso.
  - Ests a ressentir-te do trabalho que tiveste com a convalescena de mile? - perguntou.

  - No, eu pouco fiz. Para mim foi quase tanto um descanso
como para ele.
  - Ento,  o pai? Tem-te sobrecarregado?
  Hlne rodeou a questo.
  - No te preocupes. Tenho sofrido muito com o calor desde que
voltei para casa.
  Gabrielle instalou-se no seu antigo quarto. Dominique recebeu-a mais tarde no seu escritrio. Sentado  secretria, cumprimentou-a friamente.
  - Ouvi dizer que mile ia ter uma boa produo este ano.
  - Sim,  verdade.
  - H rumores de que a fbrica de seda Devaux poder voltar a
funcionar.
  Inclinou-se para a frente na cadeira com uma expresso de satisfao maliciosa.
  - Hlne contou-me que recusaste uma encomenda de Devaux
e que o mandaste passear! Conta-me os pormenores.
  Gabrielle no tinha qualquer inteno de discutir o assunto com
o pai.
  - Fiz o que tinha de ser feito. Tinha autoridade para isso e utilizei-a.
  Dominique esfregou o queixo com ar pensativo. Comeava a
  descobrir que Gabrielle era muito parecida com ele. Com a sua atitude, tinha demonstrado que continuava a ser uma Roche, implacvel quando a situao o exigia. 
Para alm disso, parecia ter-se desembaraado bem com a responsabilidade que assumira quando da
  doena do seu marido.
  - Que  que te traz a Lyon agora? - perguntou.
  - Pretendo ver a demonstrao do tear de Jacquard. A Maison
Roche poder vir a beneficiar com uma eventual mudana de tear,
se se provar que este corresponde s expectativas.
  Dominique ergueu as sobrancelhas com ar cnico.
  - Lembro-me bem de Joseph Jacquard. Quando Lyon foi cercada, ele, tal como os Devaux, foi um traidor. O que ele quer  encher os bolsos. No haver qualquer mudana 
de teares, a menos
que Henri me traga um relatrio extremamente convincente.
  Gabrielle sentiu-se atingida com esta observao.
  - Henri foi sempre avesso a mudanas.
  - Parece que consideras a tua opinio mais vlida do que a dele.
  - Sempre me considerei predisposta a aceitar qualquer inovao e a fazer o meu prprio juzo acerca dela. Irei com Henri ver a
demonstrao e depois entrego-lhe o meu relatrio. - Dito isto,
saiu do escritrio.
  No dia da demonstrao, parecia que toda a cidade tinha convergido para a Place Sathonay. Os teceles abandonaram os teares para
verem com os seus prprios olhos a nova inveno, e os mercadores
e negociantes de seda ocuparam os lugares que lhes estavam reservados num dos lados do estrado onde o tear fora montado. Foi com
dificuldade que Henri e Gabrielle conseguiram chegar ao recinto.
   primeira vista, o tear parecia no ser muito diferente. Tinha
contudo um curioso dispositivo rectangular, montado na parte de
cima do tear, que suportava uma roda de cartes perfurados unidos
entre si. Gabrielle pensou que a maior parte das dependncias onde

se acomodavam os teares no tinha p-direito suficiente para instalar este novo modelo.
  Henri, consciente da sua importncia nos crculos da seda, assegurou-se de que os seus lugares fossem na primeira fila, de modo a
terem um bom ngulo de viso. Na altura em que se encontravam j
instalados, um dignitrio municipal subiu as escadas do estrado.
Atrs dele vinha Joseph Jacquard, um homem de meia-idade, de
olhar suave e finos cabelos cinzentos que caam de ambos os lados
do rosto.
  O dignitrio aclarou a voz.
  - Cidados de Lyon! Depois de uma ausncia de longos anos,
durante a qual, recomendado pelo prprio general Bonaparte, ocupou um lugar no Conservatrio Nacional de Artes e Ofcios de Paris, temos perante ns um homem da 
nossa cidade. O cidado Joseph
Marie Jacquard congregou nesta mquina todos os princpios da
arte da tecelagem. Agora, vou pedir-lhe que exemplifique o funcionamento deste novo tear.
  O dignitrio abandonou o estrado. Jacquard fez uma ligeira reverncia antes de se dirigir  multido. O seu tom de voz era fraco,
mas, apesar disso, bastante audvel no silncio atento que se instalou.
  - Amigos lioneses! Espero sinceramente que a minha mquina
traga mais prosperidade  nossa terra. A urdidura dos mais complicados padres torna-se um processo muito rpido. - Entrou em
mais alguns detalhes e a seguir aproximou-se do tear e comeou a
tecer.
  Gabrielle observava com a maior das atenes. A presso sobre
o pedal punha o mecanismo a funcionar e transformava a informao de cada carto perfurado na seleco do padro desejado para a
urdidura. Ao libertar-se o pedal, as agulhas recuavam para a posio
inicial, preparadas para o novo carto. Ela ficou profundamente
impressionada com o processo. Se esta mquina fosse aceite, faria
com que a produo de seda em Lyon aumentasse consideravelmente e aboliria para sempre a necessidade de empregar crianas,
agachadas horas a fio sob os teares, para atarem os fios  medida que
estes se quebravam.
  - Que achas? - perguntou a Henri, entusiasmada.
  Sem querer comprometer-se, ele encolheu os ombros.
  - A seda s perde. No h nada que substitua o trabalho manual.
  - Em qualquer dos casos,  sempre o tear que fornece o produto
final - afirmou Gabrielle. - Isto s ajuda a acelerar o processo e a
diminuir os custos de produo. Um maior nmero de pessoas teria
possibilidade de adquirir seda.
  - A seda nunca foi um produto para a ral e, se depender de
mim, nunca o ser.
  Ela permaneceu em silncio. Eram diversas as reaces entre os
mercadores. Alguns eram a favor do novo tear, outros, pelas mesmas razes de Henri, declaradamente contra. O clamor das vozes
aumentou, mas foi ultrapassado pelas opinies adversas dos teceles, expressas em voz alta e de forma muito indisciplinada.

  - O teu tear vai levar-nos  misria, Joseph Jacquard! Que trabalho daremos aos nossos filhos? s um traidor!
  Unia-os uma sensao de medo pelo facto de sentirem os seus
  postos de trabalho ameaados por este novo tear mecanizado. De
  punhos em riste, comearam a ameaar o suposto benfeitor, que
tentava acalm-los.
  - Esto enganados, meus amigos. A minha mquina no ir
diminuir o vosso trabalho. Pelo contrrio, ir aument-lo muito
mais do que possam imaginar. E os vossos filhos podero crescer
sos e escorreitos, sem as deformaes que o trabalho ao tear lhes
provoca. Com o meu novo tear, os vossos rendimentos aumentaro
de forma segura; porque qualquer pessoa ter possibilidade de adquirir seda devido ao seu baixo preo!
  O tumulto dos gritos e insultos depressa transformou os teceles
numa multido furiosa. O facto de ter sido mencionada uma baixa
de preos foi a ltima gota. Gritavam em unssono.
  - Fora com ele! Atirem-no ao Rdano!
  Jacquard, extremamente plido, retrocedeu um ou dois passos
em direco ao tear, na altura em que algumas pessoas comeavam
a subir para o estrado. Henri tentou arrastar Gabrielle para fora dali,
mas foi bloqueado por vrios comerciantes. Gabrielle, empurrada e
apertada, avistou Nicolas a saltar para o estrado e a carregar sobre os
atacantes, tentando afast-los.
  Era a confuso total. Os homens atropelavam-se para conseguirem trepar para cima do estrado, gritando a exigir o sangue de Jacquard. Gabrielle ficou gelada de 
pavor quando percebeu que Nicolas e o infeliz inventor tinham sido envolvidos pela multido.
  - Ajudem aqueles dois homens - gritava, apelando aos comerciantes, enquanto Henri continuava a tentar tir-la dali  pressa.
  - Ests louca? - gritou ele. - Acabaremos por ser envolvidos
nisto.
  Nesse momento, Nicolas e Jacquard reapareceram com os fatos
rasgados e saltaram para as pedras da calada mesmo  frente dela.
O inventor cambaleou, mas Nicolas ajudou-o a endireitar-se e empurrava o homem, completamente exausto,  sua frente. Os seus
perseguidores foram no encalce deles. Gabrielle, esticando o p, fez
com que o primeiro se estendesse ao comprido, o que originou um
choque em cadeia dos que o seguiam. Isto provocou um ligeiro
atraso e Henri, receando a fria da multido, conseguiu levar Gabrielle. Olhando para trs, por cima do ombro, ela viu que o tear de
Jacquard estava a ser completamente destrudo com machados e
bastes.
  Soube, mais tarde, que Jacquard conseguira escapar, deixando
Lyon a toda a pressa. Pela segunda vez, fora obrigado a fugir dos
seus conterrneos. Ningum parecia saber se Nicolas tinha ido com
ele ou no. Gabrielle soube ainda que as famlias Devaux e Jacquard
se conheciam h muito tempo. Mentalmente, elogiou Nicolas por

ter ido em socorro de Joseph Jacquard.

A rvore do Ouro 191

  Dominique escarneceu dela por causa do fiasco da demonstrao de Jacquard.
  - Uma boa perda de tempo. Aposto que Jacquard no tem coragem de aparecer em Lyon nos tempos mais prximos.
  Gabrielle reconheceu, com pena, que seu pai era capaz de ter
razo. Como que tentando consolar-se a si prpria, lembrou-se de
que, enquanto dirigira a sirgaria Valmont, tivera contactos com
Madame Hoinville, uma corajosa viva dona de vrios teares em
Lyon. Quando Madame Hoinville lhe fizera uma encomenda de
seda crua, revelara-lhe que apreciava as inovaes de Jacquard.
  Ento, Gabrielle foi visitar a pequena fbrica da viva, situada
no bairro dos teceles. No interior da casa antiga, Madame Hoinville tinha duas oficinas, cada qual com dois teares. Do nvel da rua,
desciam-se uns degraus de pedra para o pavimento, que fora rebaixado para albergar a altura dos teares, mas mesmo assim nem estas
divises tinham altura suficiente para que se pudesse a instalar a
nova mquina de Jacquard.
  A conversa entre a viva e Gabrielle centrou-se inevitavelmente
na demonstrao feita por Jacquard.
  - Foi uma pena terem destrudo o tear antes de eu o poder ver
em pormenor - disse Madame Hoinville. - Gostaria de no sobrecarregar tanto os meus teceles. At mesmo a mais forte das mulheres acaba por se cansar com estes teares 
e so as pobres costas que o
pagam. - Ps a mo na sua coluna. - A partir do momento em que
resolvi trabalhar ao lado delas, sei perfeitamente quais os benefcios que a inveno de Monsieur Jacquard traria.
  - Estou absolutamente de acordo - afirmou Gabrielle.
  O trabalho produzido pelos teares Hoinville era selecto e requintado. Gabrielle percebeu a razo pela qual a viva conquistara uma
posio de destaque num mercado to competitivo.
  No regresso a casa, Gabrielle passou pela casa dos Devaux,
constatando que estava fechada.

  O BEB de Hlne nasceu no ms de Dezembro de 1804, o ms
em que Napoleo Bonaparte se tornou imperador de Frana. Dominique no escondeu a sua decepo pelo facto de a nora ter dado 
luz uma rapariga. Um neto teria sido uma esperana para o futuro do
negcio; uma neta no tinha qualquer utilidade.

  Ao fim de trs meses, Dominique revelava um cime senil em
relao  pequena Juliette, um beb saudvel e bem-disposto, que o tinha privado da ateno exclusiva de Hlne. A verdade  que ele
se sentia abandonado no seio da sua prpria famlia. Achava que o

destino lhe pregara uma partida ao fazer com que Jules, o nico filho que lhe era querido, estivesse sempre to longe. Dominique
antevia o choque que Henri iria sofrer quando o seu testamento
fosse lido e gozava antecipadamente com a situao. Seria Jules o
herdeiro universal da Maison Roche e o continuador da sua tradio. Certamente por essa altura Hlne j teria dado  luz um ou
dois filhos.
  Assim, no ps qualquer objeco quando Hlne lhe disse que
tencionava visitar Jules, transferido para a zona costeira do canal da
Mancha, no seguimento dos preparativos para a invaso de Inglaterra, planeada pelo imperador. Gabrielle acompanhou Hlne e o
beb at Boulogne. Viajaram numa carruagem da Maison Roche,
acompanhadas por um cocheiro e duas criadas.
  A viagem decorreu sem incidentes.  medida que se aproximavam do porto martimo, comearam a aperceber-se das tendas
pouco asseadas aglomeradas  volta dos grandes acampamentos
militares e que pertenciam queles que seguiam os soldados. Aqui e
alm viam-se cabras amarradas com cordas e galinhas que cacarejavam presas em pequenos caixotes. Isto porque aqueles que no
podiam alegar nenhuma relao de parentesco no tinham sequer
direito  meia rao que era distribuda s mulheres e filhos dos
militares.
  Jules colocara uma sentinela para o avisar da chegada, e antes de
a carruagem alcanar as portas de Boulogne, montou o cavalo e foi
ao seu encontro a galope. Mal a carruagem parou, beijou com alegria a sua mulher. Quando esta lhe colocou Juliette nos braos e ela
o presenteou com um sorriso, sentiu-se extremamente orgulhoso.
Beijou de novo Hlne, conservando o beb aninhado entre os dois.
Durante o resto da viagem, foi ao lado da carruagem a conversar
com Hlne e Gabrielle atravs da janela aberta.
  - As instalaes que lhes consegui arranjar no so propriamente luxuosas; mesmo assim, tive sorte em encontr-las. Os quartos esto todos ocupados.
  Jules no exagerara quanto ao congestionamento da cidade.
Boulogne tinha-se tomado num vasto acampamento militar, fervilhando de soldados, canhes, carros pesados e outro equipamento.
A Grande Arme reunira as suas foras, num total de duzentos mil
homens, com o fim de atacar o outro lado do Canal. Havia apenas

A rvore do Ouro 193

uma barreira a retard-los. A Marinha Real Inglesa ainda dominava
os mares e, por isso, era intil enviar os bateles com soldados para
o canal da Mancha para serem afundados a meio caminho.
  As instalaes que Jules arranjara eram numa pequena estalagem
onde Gabrielle teve de partilhar o quarto com Hlne e o beb. O
casal s ficava a ss quando Gabrielle resolvia sair. Em resultado,

passou horas a calcorrear as ruas de Boulogne, ficando a conhecer a
cidade quase to bem como conhecia Lyon. Deambulou ao longo
dos molhes, explorou as ruelas serpenteantes e os mercados. Numa
loja situada numa rua estreita encontrou uma borboleta muito rara
dentro de uma caixa esculpida. Comprou-a para oferecer a mile.
  O tempo passou depressa e Junho chegou sem que houvesse
qualquer sinal acerca do avano sobre o canal da Mancha. Havia rumores de que o regimento de Jules poderia deslocar-se para leste,
visto que a ustria e a Rssia concentravam as suas foras para a
eventualidade de um ataque. Em breve, veio a ordem de que os hussardos deixariam Boulogne em direco a outro destino. Hlne
aceitou corajosamente o facto de Jules ter de partir de novo.
  Dois dias depois, ela e Gabrielle assistiram  partida de Jules e
do seu regimento. Com o estandarte ao vento, os tambores e tocadores de flauta  frente, os chapus de plumas vermelhas, as capas
guarnecidas de pele e botas igualmente vermelhas, os hussardos
ofereciam de facto um espectculo magnfico. Hlne levantou Juliette acima da cabea e Jules fez-lhes continncia com um ar orgulhoso. Logo que deixou de o ver, 
Hlne desfez-se em lgrimas.
Gabrielle pegou no beb e ajudou-a a entrar na carruagem que as
aguardava.
  Pouco depois de Gabrielle regressar a casa, o imperador abandonou os seus planos de invaso da Inglaterra. O grosso da Grande
Arme deixou Boulogne para enfrentar a ameaa crescente de um
ataque no Sul da Alemanha. Em Outubro, a Armada Inglesa alcanou uma estrondosa vitria em Trafalgar; muitos navios franceses e
espanhis foram afundados. Tinha sido destruda qualquer hiptese
de uma invaso da Inglaterra pela Frana num futuro prximo.
  Entretanto, Gabrielle ocupava-se a visitar os tintureiros e a seleccionar cores para a nova produo. mile, ocupado a maior parte
do tempo, sentia-se feliz por ela.
  s portas do Inverno, os jornais anunciavam triunfantes vitrias
da Grande Arme em Ulm e Austerlitz. Nunca a Frana tivera um
chefe to brilhante. Em meados de Dezembro, os Austracos renderam-se incondicionalmente e as foras do czar tinham-se retirado
para o seu territrio.
  Uma manh, no incio do ano de 1806, Gabrielle saa de casa
quando deparou com mile de p, junto da escada,  sua espera.
  - Interrompeste o trabalho para vir passear comigo? - perguntou com um ar descontrado enquanto calava as luvas. Ento, reparou na expresso grave do seu rosto. 
Um mau pressentimento assaltou-a. - Que  que aconteceu?
  - Infelizmente, trago ms notcias - disse com tristeza. -- Acabou de chegar um mensageiro de casa de teu pai. Soube-se em
Lyon que Jules faleceu h doze dias, vtima de ferimentos recebidos
no campo de batalha em Austerlitz.
  A cor desapareceu completamente do rosto de Gabrielle. mile

subiu a correr o lano de escadas que os separava e ela deixou-se
envolver pelos seus braos consoladores.



CAPTULO QUATRO

FOI DEVIDO  determinao de um sargento que o corpo de Jules foi
levado para a cidade para ser sepultado. Os oficiais, a menos que
fossem de patente muito elevada, eram geralmente sepultados prximo do campo de batalha, mas Jules dissera uma vez que gostaria
que a sua ltima morada fosse em Lyon. O sargento Gaston Garcin
ouvira e no se esquecera.
  Desde que se alistara, Gaston acompanhara Jules em todas as
campanhas. Havia sido ferido numa perna na mesma altura em que
Jules sofrera os ferimentos mortais. Em consequncia disso, fora
considerado invlido e portanto deixara o Exrcito. Com a perna
ainda envolta em ligaduras, iniciou a longa viagem que o levaria da
ustria at Frana, acompanhando a carruagem que transportava o
caixo.
  Com cerca de trinta e cinco anos, tinha uma constituio robusta, farta cabeleira loura, olhos negros e feies rudes. Fora um bom
soldado de cavalaria, que actuava com lucidez em situaes de perigo, e sentia-se orgulhoso de ter servido o seu pas. Optimista por
natureza, gostava da excitao das campanhas e sabia que sem isso
iria sentir-se perdido. Para alm do mais, iria sentir tanto a falta dos
cavalos como dos seus camaradas de armas.
  Ao longo da viagem, a populao das cidades, vilas e aldeias

A rvore do Ouro 195

levantava-se em sinal de respeito pelo caixo envolto na bandeira.
Nos arredores de Lyon, Gaston desdobrou uma nova bandeira tricolor e colocou-a sobre o caixo, de forma que Jules regressasse a casa
com toda a pompa.
  Gaston foi avistado mal entrou na Rue Clmont. Avisada da sua
chegada iminente atravs de uma carta enviada por um oficial, toda
a famlia estava reunida nos degraus da entrada, aguardando a carruagem. Gaston desceu a custo da carruagem, com a perna quase
paralisada de dor.
  Hlne avanou na sua direco e disse-lhe gentilmente:
  - Agradeo-lhe de todo o corao ter trazido o meu marido de
volta a casa, sargento Garcin.
  Gabrielle agradeceu tambm com toda a sinceridade. A seguir,
os criados levaram o caixo aos ombros para dentro de casa.
  Depois do funeral, Hlne recebeu Gaston na sua sala particular. Durante mais de uma hora, ficaram os dois l fechados enquanto ele recordava os ltimos dias de 
Jules. Contou tudo aquilo de
que conseguia lembrar-se, que se passara em pocas mais felizes.

Sempre que Hlne se entregava s lgrimas, ele esperava pacientemente que ela se acalmasse para voltarem a conversar.
  - Quais so agora os seus planos? - perguntou Hlne. Gaston
j lhe dissera que no tinha famlia.
  - Neste momento, preciso de encontrar trabalho, madame. Sou
forte e saudvel. A minha perna aleijada no vai impedir-me de
vencer na vida.
  - Penso que posso ajud-lo. Vou falar com o meu cunhado.
Tenho a certeza de que ele conseguir arranjar-lhe um emprego.
  Naquela altura, a taxa de desemprego era muito elevada devido
s dificuldades financeiras resultantes da guerra. Gaston ficou, por
isso, muito grato pela oferta.
  Henri, que no tinha necessidade de pessoal, mandou-o ir ter
com um funcionrio municipal das suas relaes. Como resultado,
Gaston conseguiu emprego no mais repugnante e mal pago dos trabalhos - a limpeza das fossas das casas durante a noite. Hlne, no
entanto, somente soube, atravs de Henri, que Gaston trabalhava
para a municipalidade, e por isso partiu do princpio de que ele estava seguro num lugar de responsabilidade.

  SETE meses depois, outro funeral fez com que a famlia Roche se
juntasse de novo. Dominique no conseguiu recuperar do desgosto
provocado pela morte do seu filho predilecto. Durante trs dias, no
permitira que nenhum membro da famlia se aproximasse dele, tolerando apenas a presena dos criados. Na tarde do terceiro dia, sofreu
uma trombose que o deixou paralisado.
  Hlne manteve-se sempre a seu lado. Quando Dominique morreu, toda a famlia o rodeava, mas era ela quem lhe segurava a mo.
Gabrielle chorou-o sem lgrimas, o que ainda  mais angustiante.
Sentia um grande desgosto por aquilo que nunca existira entre si e
seu pai. No teria comparecido  leitura do testamento de Dominique se o advogado no tivesse insistido na necessidade da presena
de todos os membros da famlia.
  Havia alguns pequenos legados, que incluam um rendimento a
favor de Hlne at  data em que voltasse a casar. A seguir, chegou
o momento pelo qual Henri e Yvonne h muito ansiavam. O advogado aclarou a voz.
  - O restante dos meus bens, a minha casa e o seu recheio, juntamente com a Maison Roche - leu o advogado -, deixo a minha
filha Gabrielle Valmont, que por sua vez o deixar a qualquer filho
ou neto que venha a ter. Para a eventualidade de que isso no acontea, os bens passaro para a minha neta Juliette Roche, que por sua
vez os deixar ao seu filho.  minha convico e meu desejo sincero
que Gabrielle h-de conduzir o negcio com o mesmo esprito de
iniciativa e imaginao que me caracterizaram. - Fez-se entre os
presentes um silncio estupefacto quando o advogado levantou os
olhos do documento. - E  tudo, minhas senhoras e meus senhores.

  Gabrielle sentia-se completamente atordoada. A Maison Roche
era sua! O seu sonho tornara-se realidade!
  Henri, entretanto, levantara-se da cadeira, berrando:
  - Amaldioado seja! Que arda no inferno! A Maison Roche 
minha por direito! Vou contestar o testamento. Vou provar que ele
estava senil quando o assinou!
  O advogado abanou a cabea.
  - Eu redigi-o dois dias depois de ter conhecimento da morte de
Jules e Dominique solicitou a presena de um mdico para atestar a
sua sanidade mental.
  - Ele alterou-o depois da morte de Jules? - Os olhos de Henri
faiscavam, os maxilares tremiam-lhe quando compreendeu. - O
velho demnio nunca pensou em mim para lhe suceder no negcio,
pois no? Deixava-o ao seu menino de ouro, at que esse sonho foi
desfeito por um canho inimigo! Depois, em alternativa, legou-o a

A rvore do Ouro 197

Gabrielle. Uma mulher! Sem experincia e intil! A filha que ele
odiava desde o dia em que nasceu!
  mile, que estivera sentado ao lado da sua esposa, levantou-se
de um salto.
  - No estou disposto a ouvir mais insultos, Henri. Gabrielle
teve direito a esta herana, por mrito prprio, atravs da sua determinao em aprender to bem como qualquer homem tudo o que se
relacionasse com o comrcio da seda. Tenho a certeza de que todos
desejaramos que Jules aqui estivesse para receber esta herana,
mas uma vez que ela coube a Gabrielle, ela merece o apoio total da
sua famlia.
  Gabrielle olhou-o com gratido.
  Henri voltou-se ento exasperado para a esposa, que soluava
ruidosamente.
  - Est calada, mulher. J tenho que me chegue, quanto mais
agora aturar a tua gritaria. Se calhar, se tivesse dado ouvidos ao meu
pai, que me aconselhou o divrcio devido aos teus hbitos esbanjadores, no me encontrava agora provavelmente nesta situao
humilhante.
  Yvonne, com o rosto congestionado, estava furiosa.
  - No tentes deitar as culpas para cima de mim! No devias ter
discutido tanto com ele. Mas  mesmo prprio do teu feitio! Ests
permanentemente convencido de que tens razo!
  Com uma exclamao de raiva, Henri puxou-a por um brao,
fazendo-a levantar-se, e empurrou-a para fora da sala  sua frente.
  Hlne, que continuava sentada num dos sofs, viu o advogado
beijar a mo a Gabrielle, pondo-se  sua disposio para o que fosse
preciso. De todos os presentes, Hlne era a que menos se surpreendera com o contedo do testamento. Recordava quanto Gabrielle
subira na considerao do seu sogro depois de este ter sabido a

forma como dirigira a sirgaria durante a doena de mile. Levantou-se e dirigiu-se  cunhada para lhe dar um abrao, desejando-lhe
as maiores felicidades.

  Durante a noite, mile acordou e constatou que Gabrielle no
se encontrava ali. Permaneceu quieto por um momento, pensando
na mudana que surgira nas suas vidas. Durante a conversa que tinham tido depois de se deitarem, Gabrielle mostrara que estava perfeitamente decidida a tomar as 
rdeas da Maison Roche. Achou
prudente no pr Gabrielle a par da conversa particular que tivera com Henri na biblioteca. Ele e o cunhado, na altura j calmo, acordaram que Gabrielle assumiria 
o controle durante algumas semanas, tempo suficiente para que se convencesse de que tudo decorria
conforme os seus desejos. A seguir, iriam pression-la para que
delegasse toda a responsabilidade, ficando apenas nominalmente 
frente da Maison Roche.
  mile franziu a testa com ar pensativo. Ouvira dizer que Devaux
reparara os danos provocados na sua propriedade em Lyon e pusera
de novo em funcionamento os velhos teares. Recordou o mal-estar
que sentira ao ver a sua mulher e Devaux, sozinhos, no seu escritrio. Contudo, Gabrielle no era do gnero das que se deixam desencaminhar por um pretenso sedutor 
qualquer. No, ele no precisava
de se preocupar com Devaux em relao a Gabrielle. No era outro
homem que alguma vez ia erguer uma barreira entre os dois, mas o
destino que lhe colocara nas mos uma to rica herana.
  - Maldio! - Bastante aborrecido, afastou os lenis e saiu
da cama. Ps o roupo sobre a camisa de dormir e desceu as escadas. Tal como suspeitara, uma rstia de luz espreitava sob a porta do
escritrio do seu falecido sogro, que Gabrielle j fizera seu. Abriu a
porta com um empurro.
  Gabrielle, sentada  secretria de seu pai, os ps nus aparecendo
por baixo da orla da camisa de noite, olhou-o por cima de uma pilha
de documentos que estava a folhear.
  - Isto  uma loucura! - disse, zangado. - No h necessidade
de estares a trabalhar a esta hora.
  Ela recostou-se calmamente na cadeira.
  - No conseguia dormir e h muita coisa a fazer. No posso
discutir com Henri sem estar a par dos nmeros e de tudo o resto.
  - Vem para a cama.
  - Agora no. Preciso de ler um pouco mais.
  mile perdeu a calma. A ameaa de que a seda Roche estava a
afast-la de si no lhe saa do pensamento. Nunca antes a tratara de
forma rude, mas naquele momento agarrou-a, obrigando-a a levantar-se. Ela debateu-se, tentando desesperadamente no gritar para
no acordar ningum. Forou-a a segui-lo atravs do hall, escada
acima at ao quarto, onde a atirou para cima da cama.
  Gabrielle suportou tudo em silncio. Agora resistia s tentativas

de mile, que a queria forar a olhar para ele, segurando com fora
o seu rosto. Depois, subitamente, ele deixou-se cair a seu lado e
comeou a soluar - soluos to profundos e violentos que abanavam a cama. Soerguendo-se, Gabrielle olhou para ele. Deitado de
bruos, com o rosto enterrado na almofada, os braos estendidos e
as mos crispadas, era a imagem do desespero. Homem terno e sensato, mile fora dominado por uma raiva incontrolvel, porque no
suportava ter de a partilhar, nem mesmo com a Maison Roche.
  Incapaz de resistir a tal sofrimento de outro ser humano, Gabrielle passou-lhe a mo pelos cabelos, o que o fez levantar o rosto
torturado para a olhar. Lendo compaixo nos seus olhos, hesitou por
breves segundos antes de a abraar e apenar contra si. Gabrielle
acalmou-o e ele acabou por adormecer.
  S nessa altura deixou que as lgrimas silenciosas transbordassem. Angustiada, desejou ardentemente poder regressar ao dia do
seu casamento. O destino concedera-lhe uma oportunidade de ltima hora para alterar o curso da sua vida, dirigindo-a para outro
homem. Para bem de mile e de si prpria, devia t-la agarrado.

  GABRIELLE transmitiu a Hlne o que Jules lhe pedira. Ela no
deveria permanecer naquela casa depois da morte do sogro. J fora
decidido que Henri e Yvonne l continuariam a viver.
  - Mas Jules no sabia que tu irias ser a dona da casa - replicou
Hlne - Precisas de algum que se encarregue dos afazeres domsticos.
  - Contrato uma governanta. Neste momento, precisas de te libertar para refazeres a tua vida com Juliette. Era esse o desejo de
Jules.
  - Mas eu gosto de viver aqui. - Hlne olhou  volta da sua
pequena sala circular, de paredes cobertas de damasco com motivos
de flores e frutos. - Foi nesta casa que Jules nasceu e cresceu. Aqui
sinto-me mais peno dele, agora mais do que nunca. - Os seus olhos
pareciam implorar. - No me obrigues a ir embora j. Daqui a
algum tempo, quando me sentir preparada.
  Gabrielle decidiu respeitar os desejos da cunhada, mas contratou rapidamente uma experiente governanta. Hlne ficou finalmente com tempo para dedicar a Juliette 
e sentiu um grande conforto em poder acompanh-la.
  A seguir, Gabrielle entrevistou vrios desenhadores, na tentativa de encontrar artistas com ideias novas e inteligentes. Por fim,
contratou um jovem chamado Marcel Donnet e que chegara h
pouco a Lyon, vindo de Paris. O seu trabalho era excelente. Gabrielle perguntou-lhe se conhecia o tear de Jacquard.
  - Sim, madame. - O seu rosto avivou-se de interesse. - J
pensou introduzir aqui essa mquina?
  Ela apoiou os cotovelos sobre o tampo da secretria.

  - Estou aberta s inovaes. Quero experiment-lo eu prpria
antes de me decidir. Acha que o produto final perde qualidade com
este novo tear?
  - No, antes pelo contrrio. Podem eliminar-se muitos erros
humanos.
  Quando ele saiu, Gabrielle sentiu-se animada, o que na altura s
lhe fazia bem. A sua relao com mile estava a ressentir-se por
causa da Maison Roche, visto que passava cada vez mais tempo em
Lyon. Quanto a Henri, ela tinha a sensao de que a vigiava como
um falco. Quando explicou isto a mile, ele limitou-se a encolher
os ombros, dizendo que seria muito melhor para os dois se ela consentisse que Henri se responsabilizasse pela administrao.
  Numa sexta-feira, j tarde, resolveu no trabalhar mais. Prometera a mile ir para casa e ficar l com ele at segunda-feira. Estava
um dia frio de Dezembro. O fato que levava era bastante quente e
tinha na carruagem um regalo para as mos. Pensara comprar uns
cavalos mais novos e mais rpidos. Precisava tambm de uma dessas novas caleches para encurtar o tempo de viagem entre Lyon e a
quinta. Talvez depois conseguisse ir passar uma ou duas noites por
semana a casa.
  Durante a viagem, o seu olhar pousou subitamente num pedinte
encostado a uma parede, como se no tivesse foras para se manter
de p. Foi a cor do dlman esfarrapado que lhe chamou a ateno.
Estava magro como um esqueleto e o seu rosto, por barbear, revelava fome. Gabrielle reconheceu-o.
  - Pare! - ordenou ao cocheiro. Saltando da carruagem com
rapidez, correu na direco do pedinte. - Gaston Garcin! Que  que
lhe aconteceu?
  - Madame Valmont! - Muito envergonhado, tentou endireitar-se. - Atravessei um perodo difcil, que espero que passe.
  - Mas eu ouvi dizer que estava a trabalhar na Cmara!
  - Adoeci, madame. Uma doena contrada no trabalho. Depois
de ficar bom, no consegui arranjar emprego.
  - Ficar bom? Quanto a mim, est longe de estar bem! - Recordou o seu porte militar garboso aquando do funeral de Jules, apesar
da perna ferida. - Voc vem comigo - disse-lhe. - Providenciarei para que seja tratado como deve ser para recuperar as foras.

A rvore do Ouro 201

  Gaston limpou os olhos, embaraado com as lgrimas que lhe
corriam pela cara abaixo.
  - Salvou-me a vida, madame.
  J na quinta, Gabrielle conversou com .mile acerca de Gaston.
mile concordou que lhe fosse arranjado um emprego, mas discordava veementemente da situao que Gabrielle lhe queria oferecer.
  - Uma nova caleche  uma extravagncia sem justificao, do
mesmo modo que o  contratar Gaston como teu cocheiro. Ele pode
trabalhar aqui na sirgaria.
  - J decidi - replicou ela com firmeza. - Vi uma caleche num

vendedor de carruagens na Place des Clestins que  exactamente a
que eu quero. Se me quisesses ajudar a escolher os cavalos, ficar-te-ia muito grata.
  - A minha opinio no te interessa? - perguntou mile amargamente.
  - Sabes que sim. A ideia surgiu-me exactamente porque desejo
chegar a casa o mais depressa possvel para estar contigo - protestou Gabrielle.
  Ele no pareceu ficar muito convencido e fechou-se num dos
seus prolongados silncios. Apesar de tudo, quando Gabrielle foi
comprar novos cavalos, ele acompanhou-a para assegurar que comprava os melhores. Gaston envergava uma farda nova e enquanto
durasse o tempo frio usaria um sobretudo azul. Com a chegada da
Primavera, mudaria para um colete de riscas pretas e brancas sob
um casaco azul com botes de metal. Um chapu preto de abas largas com o emblema do seu antigo regimento conferia-lhe uma aparncia vistosa.
  Logo nos primeiros dias em que assumiu o comando da Maison
Roche, Gabrielle percebeu que tinha havido demasiado trabalho de
rotina nos ltimos anos. Faziam-se sedas com os padres tradicionais tanto para as lojas que vendiam a retalho, como para vesturio
e oficinas de tapearia. No menosprezava este tipo de trabalho, que
mantinha os teares em funcionamento, mas, com o novo desenhador, Marcel Donnet, tencionava chamar a ateno da Mobilier
Imprial, que era uma comisso, sediada em Paris, que tinha por
  incumbncia restaurar e decorar os grandes palcios de Frana.
  Gabrielle tinha a certeza de que os maravilhosos motivos desenha  dos por Marcel eram dignos de ser encomendados pela Mobilier
  Imprial, e estavam a tecer-se amostras para serem apresentadas.
  Quando estivessem prontas, Henri lev-las-ia a Paris.
  Estavam ambos a examinar algumas dessas amostras, quando
Henri lhe deu a notcia que h muito esperava.
  - Devaux regressou a Lyon e desta vez ouvi dizer que  para
ficar. Est a contratar teceles para a sua fbrica de Croix-Rousse.
  Gabrielle sentiu o corao bater com mais fora. Como era possvel, depois de tanto tempo, ter esta reaco ao ouvir o nome de
Nicolas?
  - Pensei que os negcios dele eram em Paris - comentou em
tom neutro.
  - Vendeu tudo e muito bem, segundo me disseram. - Henri
apontou as amostras espalhadas sobre a mesa. - Se ele pensa que
pode competir connosco, deve preparar-se para uma surpresa.
Nunca vi nada melhor do que isto em toda a minha vida.
  Quando todas as amostras para a Mobilier Imprial ficaram
prontas, Gabrielle foi pessoalmente inspeccionar a sua embalagem.
Na manh em que Henri partiu para Paris, dirigiu-se  sala de desenho para informar Marcel de que o seu trabalho ia a caminho. Ele
pousou o pincel e levantou-se para lhe trazer um banco alto.
  - Esperemos que Monsieur Roche consiga as encomendas que
desejamos - disse, voltando a sentar-se.
  - Seria um ponto de viragem para a Maison Roche. Penso que,

com os seus desenhos, temos boas probabilidades de conseguir.
  - Por falar em ponto de viragem, ouvi umas coisas acerca da fbrica Devaux - disse ele, inclinando-se sobre o tampo do estirador.
  - Sim? - Gabrielle ficou imediatamente alerta.
  - Disseram-me que Monsieur Devaux instalou aqui os novos
teares de Jacquard.
  Ela sentiu uma estranha onda de excitao. Congratulava-se
com a oportunidade de poder competir com Nicolas na manufactura da seda de Lyon, de poder comparar os seus desenhos com os
dele, de se tomar sua rival na corrida para assegurar as encomendas.
Acreditava sinceramente que esta rivalidade era a nica forma de
dissipar o desejo que no podia ter lugar na sua vida.
  - Ele no receia ter problemas laborais, depois do que aconteceu na demonstrao de Joseph Jacquard? - indagou ela.
  - A demonstrao teve lugar h j alguns anos, e o ano passado
foi o pior de sempre para a indstria da seda. As pessoas procuram
trabalho desesperadamente, e por isso no iro desperdiar esta
oportunidade. Pode haver alguns distrbios, mas se Monsieur Devaux contratar trabalhadores da sua confiana, no ter problemas.

A rvore do Ouro 203

  - Como eu gostaria de poder ver a fbrica por dentro!
  - Monsieur Devaux tem provavelmente os seus segredos no que
respeita aos desenhos e guard-los- cuidadosamente. Penso que
no vai permitir a entrada a estranhos.
  Gabrielle sorriu interiormente. Marcel no podia adivinhar que
Nicolas nunca a consideraria uma estranha, mas negcios so negcios e presentemente eles eram concorrentes.
  Confirmaram-se as suspeitas de Gabrielle quanto  forte oposio que os teares Jacquard iriam provocar. Soube dias depois que
alguns teceles independentes tinham avanado sobre a Maison
Devaux armados de cacetes, forcados e pedras. Tinha sido necessria a interveno em massa da Polcia para os dispersar e haviam
sido feitas algumas prises. Soube tambm que a carruagem de
Nicolas fora apedrejada.
  Persistia em Gabrielle o desejo de ver a fbrica Devaux por
dentro. Um dia, ao fim da tarde, pediu  governanta para mandar
chamar Gaston. Logo que ele chegou, p-lo a par do plano que concebera, pedindo-lhe ajuda para o pr em prtica.
  Gaston olhou-a fixamente durante uns minutos. Por fim, disse:
  - Aquilo que deseja ser feito. Deixe tudo por minha conta.
  - Obrigada, Gaston - respondeu, agradecida. - Tinha a certeza de que podia confiar em si.
  Henri regressou de Paris uma semana depois. Mostrava-se cauteloso, mas optimista. A Mobilier Imprial informara-o de que a sua
deciso lhes seria comunicada a curto prazo.
  Gabrielle, durante os dias que se seguiram, aguardou com pacincia os acontecimento$. Gaston no fazia qualquer comentrio
sobre as diligncias que estava a efectuar para a consecuo do seu

plano secreto. Uma manh, quando Gabrielle o viu entrar no seu
escritrio, percebeu imediatamente que ele tinha finalmente conseguido o que pretendia.
  - Precisa agora de dinheiro para os subornos? - perguntou.
  - A quantia necessria  quase insignificante, madame. - Uma
expresso de prazer divertido passou pelo seu rosto. - Tomei a meu
cargo a responsabilidade de travar conhecimento com uma jovem
chamada Hortense que trabalha na fbrica Devaux. Quando lhe
disse que precisava de um favor, ela no recusou.

  - Ah, sim?
  Gaston fez uma careta divertida.
  -  apenas necessrio algum dinheiro para a irm de Hortense,
que trabalha com ela na fbrica. A senhora ir substitu-la durante
  um dia. A rapariga s pretende a compensao pela perda de um dia
  de trabalho.
  - Quanto  ?que  preciso? - Gabrielle pegou na bolsa.
  Era de facto uma quantia modesta, de modo que ela deu mais.
I
  Chegou o dia em que Gabizelle deveria substituir a rapariga.
j Trajando um vestido simples, sapatos grosseiros e uma boina de
  algodo, como convinha, saiu de casa com Gaston um pouco antes
  de amanhecer. Era ainda uma longa caminhada, mas uma carruagem Roche ou a sua caleche dariam nas vistas ao aproximarem-se
  de madrugada da fbrica Devaux.
J o cu se cobria de laivos dourados quando Gaston a conduziu
  atravs de uma lea hmida at junto de uma porta  qual bateu. A
; amiga de Gaston recebeu-os e f-los entrar. A sua irm dormia, toda
  enroscada numa cama junto  parede. Hortense era uma rapariga
  forte, com uns bonitos olhos escuros. Dirigiu-se a Gabrielle.
  - Bonjour, cidad. A minha irm e eu fazemos isto por ser Gaston a pedi-lo. Se for apanhada, diga que  de fora e que, tendo
  ouvido dizer que a minha irm estava doente, pediu para a substituir. Trouxe a merenda para a hora de almoo?
' Gabrielle apalpou o bolso onde metera po e queijo.
' - Sim trouxe.
  - Venha comigo ento.

  Quando chegaram ao fim da lea, Hortense atirou a Gaston um
  beijo na ponta dos dedos e continuou iua acima com Gabrielle.
  - Gosta de trabalhar na fbrica Devaux? - perguntou Gabrielle.
  - No princpio, quando a multido se juntava do lado de fora,
  era um bocado assustador, mas agora Monsieur Devaux formou um
  grupo de homens para manterem a ordem.
  - E das condies de trabalho?
  - So boas. O salrio  justo e podemos ter bnus. As horas
  custam a passar, mas isso acontece em todo o lado. Sabia que Monsieur Devaux  natural de Lyon? - Hortense no esperou pela resposta e continuou a tagarelar. - 
 um homem muito atraente, sem
  dvida. Presentemente, est em sua casa uma senhora que veio de

  Paris, Madame Marache.  bem bonita. - Tomou flego. - Aqui
  estamos. Baixe a cabea e siga-me.
  Homens e mulheres entravam pela mesma porta lateral.
  Enquanto penduravam os chapus e os casacos, conversavam uns

A rvore do Ouro 205

com os outros. Alguns estavam j nas oficinas e tinham os teares a
funcionar. O som que estes produziam era totalmente novo para Gabrielle. Ao lado de Hortense, dirigiu-se para a sala dos teares, que
dava para a entrada, tentando no chamar a ateno do matre ouvrier. Ainda com Hortense, foi buscar as meadas, de um maravilhoso tom de amarelo, e, sentando-se 
 dobadoura, comeou a
enrolar o fio, contnuo e brilhante, numa bobina. Aprendera a dobar
j h muitos anos, mas ainda no perdera a habilidade. Enquanto
trabalhava, ia observando o que a circundava.
  Constatou que a sala onde se encontrava fora adaptada de forma
a acomodar o alto tear de Jacquard. A seguir a esta sala havia uma
outra. Gabrielle calculou que, ao todo, estariam em funcionamento
cerca de setenta teares.
  - Ateno ao que est a fazer! - sussurrou Hortense, inclinando-se da dobadoura onde estava. - J tem fio a mais.
  Desanimada, Gabrielle viu que enrolara demasiada seda na bobina e teve, por isso, de voltar a enrol-la. Mais tarde, depois de ter
enrolado vrias bobinas, elas seriam recolhidas por uma das poucas
crianas que agora trabalhavam na fbrica Devaux em tarefas similares.
  A confiana de Gabrielle cresceu com o aumento de velocidade
com que accionava a roda da dobadoura, e  hora do almoo j estava perita.
  A meio da tarde, surgiu um problema num dos teares da outra
sala. Gabrielle viu o matre ouvrier em cima de um escadote, ao
lado do homem que reparava as mquinas, investigando a avaria.
Deparou-se-lhe ento a oportunidade de que estava  espera. J vira
que a oficina de desenho era ao lado do armazm onde se guardavam as meadas. Com o pretexto de ir buscar outra meada, parou em
frente  porta, bateu e entrou rapidamente, fechando a porta atrs de
si. O desenhador, um homem novo, estava sentado num banco 
frente do estirador. Fazendo uma pausa no seu trabalho, olhou por
cima do ombro.
  - Diga, marselle.
  - Desculpe interromp-lo, mas sou nova na casa e quero aprender tudo. Pode dizer-me exactamente o que est a fazer?
  Ele ficou surpreendido com a fluncia com que ela falava e com
  o seu rosto adorvel.
  - Chegue aqui e veja - convidou de bom grado. Explicou-lhe
  como transferia o esboo de um novo padro, que ia ser produzido em breve. Tinha por motivo abelhas, tecidas em dourado, sobre um

fundo azul-forte. - O cortador de cartes usar o meu esboo para
perfurar os cartes, que sero depois unidos, como pode ver ali. -- Apontou para alguns cartes j atados e suspensos de uma armao.
- Os furos transmitem o padro ao tear. De cada vez que os cartes
do uma volta, o padro repete-se ao longo de todo o comprimento
do tecido.
  Ela fez-lhe mais algumas perguntas, agradeceu-lhe e depois retirou-se. Tinha visto mais do que esperava ver do trabalho produzido pelo tear de Jacquard. O suficiente 
para perceber que nele residia o futuro da seda de Lyon; o trabalho que produzia era perfeito.
E como Bonaparte escolhera a abelha como emblema imperial,
concluiu que Nicolas conseguira a encomenda da Mobilier
Imprial. Ningum podia tecer abelhas, a no ser por pedido expresso do imperador. Nicolas estava bem mais avanado do que ela.
  Aproximava-se o fim do dia de trabalho quando os acontecimentos tomaram um rumo inesperado.
  - Monsieur Devaux acaba de entrar - disse Hortense, dando-lhe uma cotovelada. - Vem ver o tear avariado.
  Sem conseguir conter a curiosidade, Gabrielle levantou-se do
seu lugar e viu Nicolas junto do homem que reparava as mquinas.
De repente, avistou uma mulher elegante, alta e com um aspecto felino, que caminhava por entre os teares. Devia ser a convidada e actual companheira de Nicolas, 
Madame Marache.
  Bruscamente, Gabrielle voltou a sentar-se e inclinou a cabea
sobre o trabalho com um ar atarefado. Pelo canto do olho, viu a
mulher aproximar-se; o seu vestido de mangas compridas era de
veludo cor de cravo e condizia com os sapatos de cetim. Ao ver a
dobadoura, Madame Marache ergueu as sobrancelhas.
  - Que se passa aqui? - A sua voz era atraente e tinha um leve
tom divertido.
  Hortense respondeu, explicando-lhe o que fazia e para qu. Com
o dedo, onde brilhava um anel, Madame Marache bateu indulgentemente no ombro de Gabrielle.
  - Deixa-me sentar no teu lugar, rapariga. Gostava de tentar
dobar este fio amarelo cor de tulipa.
  Consternada, Gabrielle cedeu-lhe o lugar. A ltima coisa que
desejava era estar to em evidncia se Nicolas se dirigisse para ali.
Por sorte, Hortense levantou-se para ajudar Madame Marache e
Gabrielle tomou-lhe o lugar.

  A rvore do Ouro 207
  A mulher revelou-se surpreendentemente hbil, mas embora
  para ela aquilo no passasse de uma distraco, para Hortense, que
  a olhava carrancuda, era uma perda de rendimentos considervel.
  Gabrielle sentiu-se alarmada quando viu que Nicolas se aproximava
  da zona das dobadouras. Sentia o corao saltar-lhe do peito, e para
  que no houvesse qualquer hiptese de ele a reconhecer inclinou-se

  ainda mais sobre o trabalho. O pior de tudo era a sensao agridoce
  de estar de novo perto dele.
  - Ento ests aqui, Suzanne? - perguntou com uma risada, ao
  deparar com Madame Marache a trabalhar na dobadoura.
  - Anda c ver, Nicolas. Estou a sair-me bem, no estou?
  Gabrielle no se atreveu a levantar os olhos e, por isso, no conseguiu ver mais que os botes do casaco de seda creme dele. Nico  las deu a volta e, colocando-se 
por trs de Madame Marache, ps  -lhe as mos nos ombros.
  - Esplndido! Quem havia de dizer que hoje iria ter uma nova
  dobadeira na minha fbrica?
  - J consertaram o tear avariado? - perguntou ela.
  - Era apenas um simples ajuste. Vamos?
. Ela levantou-se e deu-lhe o brao, sem ter a menor conscincia
  do transtorno que tinha causado. Foi Nicolas quem agradeceu a
  Hortense o ter mostrado a Madame Marache como funcionava a
  dobadoura. Esta, mal os viu desaparecer ao fundo do corredor, desatou a praguejar amargamente por causa do tempo e do dinheiro que
  perdera. Gabrielle, ao voltar a sentar-se no seu lugar olhou por
  momentos para Nicolas e para a mulher que o acompanhava. Viu-o
  parar para dar uma palavra ao matre-ouvrier enquanto Suzanne
  Marache saa por uma das portas. O matre ouvrier olhou de relance
  para a zona das dobadouras e Gabrielle sentou-se rapidamente, fi  cando fora do alcance da sua vista.
  Quando s 6 horas tocou a sineta, os trabalhadores suspiraram de
  alvio, fazendo parar as suas rodas. Os teares silenciaram-se e os
  teceles pegaram em vassouras para varrerem os bocados de fios de
  tecido. Gabrielle tirou o xaile do seu cabide e p-lo  volta dos
  ombros. Sairia com Hortense, mas no regressaria a casa com ela.
  Gaston estaria  sua espera, no muito longe dali.
  As pessoas acotovelavam-se para sair. Quando Gabrielle chegou
   soleira da porta e o ar frio da noite lhe bateu na cara, sentiu uma
  mo pesada no ombro, que a agarrou com fora.
  - Tu, a! No vais sair ainda!
  Era o matre ouvrier. No ltimo minuto, reparara que ela era
uma estranha. Gabrielle reagiu prontamente, tentando soltar-se,
mas em vo. O ?homem continuava a agarr-la firmemente, impedindo-a de sair. Quando todos os trabalhadores se haviam retirado,
perguntou a Gabrielle:
  - Que  que ests aqui a fazer? Tens de explicar.
  - E simples - respondeu ela. - Precisava de trabalhar e soube
que uma das dobadeiras estava doente. Vim substitu-la.
  - Farei as minhas investigaes entre os trabalhadores amanh.
Para j, o assunto est fora do meu alcance. Monsieur Devaux quer
falar contigo no escritrio e  para l que tenho de te levar.
  Com a cor a fugir-lhe do rosto, Gabrielle no fez qualquer meno de o seguir. Ele comunicou-lhe com um ar impaciente:
  - Escusas de pensar que me convences a largar-te. Agora,

vamos!
  Atravessaram as salas dos teares at a um patiozinho interior que
separava a fbrica da residncia. Ao entrar em casa, encontrou Nicolas de p junto de uma porta aberta que dava para o corredor.
  - Por aqui, Gabrielle - disse num tom duro.
  Ela levantou o queixo, reunindo toda a sua coragem. Com passos
firmes, passou pela frente dele, entrou no escritrio e encaminhou-se para junto da lareira. Nicolas fechou a porta e ficaram sozinhos
outra vez.



CAPTULO CINCO

- Porqu? - perguntou Nicolas com aspereza. - Porque  que
tinha que ser exactamente voc a fazer aquilo a que s posso chamar
papel de espia?
  Voltou-se para o enfrentar. Ele estava apenas a alguns passos de
Gabrielle, e lia-se tal fria no seu olhar que ela quase vacilou.
  - No me considero uma espia. S quis ver que alteraes tinha
feito no edifcio para poder albergar a altura do tear de Jacquard.
  - Podia ter-me pedido para lhe mostrar.
  - No estava em posio de pedir favores. Agora, somos concorrentes. Reconheo que agi mal ao vir aqui, mas de certa forma
era uma aventura irresistvel.
  Nicolas avanou na sua direco como se quisesse aban-la furiosamente.

A rvore do Ouro 209

  - Aventura no  o termo mais exacto para classificar a forma
fraudulenta como convenceu o meu desenhador a mostrar-lhe o
nosso padro secreto. Nunca lhe passaria pela cabea a ele pensar
que uma vulgar trabalhadora da fbrica conseguisse perceber o significado da abelha imperial. - Suspirou e encostou-se ao canto da
secretria. - E agora, que j sabe como consegui introduzir o tear
de Jacquard, tenciona fazer o mesmo?
  - Sim, se no me mandar para a priso.
  - No vou fazer queixa - disse ainda em tom severo. - Estou
unicamente muito zangado consigo.
  Aliviada, Gabrielle dirigiu-se a uma cadeira e sentou-se.
  - Se o que disse  realmente verdade, agradeo-lhe muito.
  -  verdade, sim. Mais ainda, tenho muito gosto em t-la como
minha concorrente no negcio da seda. Ouvi dizer que veio dar 
Maison Roche uma nova imagem e que introduziu grandes alteraes.
  Gabrielle mostrou-se cautelosa.
  - Como  que soube?
  - Pelo que se diz por a. O seu nome anda nas bocas do mundo,
como sendo uma nova fora a ter em conta em Lyon.

  Ela sentiu que a atmosfera entre os dois se havia alterado rapidamente. At ali, o grau de hostilidade tinha conseguido sobrepor-se
a tudo o mais, mas o desejo que sentiam um pelo outro estava a
emergir de novo. Nicolas apertou fortemente as bordas da secretria, como que para evitar que as mos, que quase pareciam ter vida
prpria, tocassem em Gabrielle. Ela, por seu lado, sentia-se fraquejar com a simples ideia de ser envolvida nos seus braos. Era altura
de partir.
  - Tenho de me ir embora. - Ele conduziu-a at  porta da
frente. Abriu-a, mas impediu-lhe a passagem com o brao.
  - Somos feitos da mesma massa - disse Nicolas. - Estou
ansioso por competir consigo nas futuras encomendas feitas pela
Mobilier Imprial.
  - Aceito o desafio. - A seguir, sem conseguir resistir, perguntou-lhe: - Como  que soube que era eu que estava na seco das
dobadouras?
  Nicolas aproximou o rosto do dela.
  - T-la-ia reconhecido em qualquer stio.

  Preparava-se para a beijar, e Gabrielle, incapaz de se mover,
exultava de antecipao, baixando as plpebras, quando os seus
lbios se aproximaram mais. De repente, uns passos nas escadas
destruram o momento e a voz de Suzanne Marache chegou at eles.
  - Ento ests aqui, Nicolas. O jantar est a arrefecer!
  Nicolas deixou pender o brao e Gabrielle escapou-se rapidamente, sentindo quase como um choque fsico o regresso  normalidade. Naquela noite, no conseguiu dormir, 
incapaz de deixar de
pensar no que poderia ter sucedido entre os dois.
  Na manh seguinte, j de volta ao escritrio, trabalhou com
renovada energia, como nico escape para os seus sonhos sem esperana. Quando, pouco tempo depois, soube que Madame Marache
regressara a Paris, convenceu-se a si prpria de que o facto no tinha
qualquer significado. Mais cedo ou mais tarde, Nicolas arranjaria
outra companhia. De qualquer maneira, a distncia entre eles mantinha-se, visto que mile se interporia sempre entre os dois.

  HENRI recebeu com incredulidade e espanto a notcia de que a
sua irm pretendia instalar teares Jacquard para tecer a seda Roche.
  - No ests boa da cabea! Os teceles nunca os aceitariam,
como alis pudeste comprovar. Para alm disso, as casas deles no
comportam a altura desses teares.
  - Entrei em linha de conta com todas essas premissas e estou
decidida a ir em frente - disse ela. - Existe um antigo convento
que foi abandonado quando a Conveno Revolucionria ilegalizou
o cristianismo. Fiz uma oferta razovel e espero vir a compr-lo.
  - Vais transform-lo numa fbrica? - Henri quase no acreditava no que ouvia. Avanou para ela numa atitude agressiva. - No
permitirei que o faas! Vou consultar os meus advogados.
  - Acalma-te - aconselhou Gabrielle. - Os advogados esto
do meu lado e os teares j foram encomendados.
  - Ser a nossa runa. Opor-me-ei a todo o processo.
  Gabrielle adoptou um tom de voz duro.

  - Ento, sers vencido, Henri. Ests comigo ou contra mim?
Tens que escolher.
  Exasperado, esboou um relutante aceno de cabea.
  - J percebi que, para teu prprio bem, devo permanecer a teu
lado.
  Quando ficou sozinha, Gabrielle constatou que a sua vida se
tinha transformado numa srie de batalhas. Em Lyon, estava em luta
permanente com Henri e, sempre que voltava a casa, mile tentava
convenc-la a no ir a Lyon mais do que uma vez por semana.
  - Estou a ser bastante razovel - dissera ele pacientemente. -- Sinto muito a tua falta, minha querida. A casa fica vazia quando no
ests c.
  Desistira de argumentar que, se s passasse um dia em Lyon,
ficaria reduzida a uma figura simblica e Henri  que ficava no
comando, porque depressa percebera que era exactamente esse o
objectivo de Emile. Em vez disso, implorou.
  - Por favor, no te sintas posto de parte. - Sentara-se nos seus
joelhos, colocando as mos  volta do pescoo dele. Em casa demonstrava sempre uma afeio profunda por ele.
  - Amo-te, Gabrielle - disse mile suavemente. - Se no te
amasse, tudo seria diferente. Porque  que ...
  Ela interrompeu-o:
  - Porque  que no sou como as outras mulheres?
  mile riu-se.
  - No gostaria que fosses diferente do que s, embora o teu
crebro corresponda mais ao de um homem do que ao de uma mulher. - O seu olhar adoou-se. - O que eu ia perguntar-te era
porque no me deste ainda um filho?
  Ela virou a cabea. Claro que desejava um filho para lhe suceder
na Maison Roche.
  - D tempo ao tempo - disse em voz rouca.
  - Acho que tens razo. O teu corpo  demasiado perfeito para
ser estril.
  Mais tarde, deitada nos seus braos, Gabrielle reflectiu sobre a
sua dificuldade em engravidar. Sempre que fazia amor, sentia que
qualquer coisa de indefimvel lhe tinha escapado, como se alguma
centelha tivesse ficado por inflamar. Talvez se a sua afeio por ele
aumentasse um pouco, apenas raiando o amor, conseguisse conceber. Ento, a razo sobreps-se, o que lhe provocou uma grande
angstia. Como esperava ela vir algum dia a amar mile, quando
outro homem lhe roubara o corao?

  QuANDo Gabrielle informou os seus teceles acerca dos novos
teares que encomendara, eles ficaram desconfiados e duvidosos.
Chegou mesmo a receber avisos e ameaas, tais como pedras atiradas contra as janelas da nova fbrica. Mas quando os ltimos papis
foram assinados e o convento se tornou seu, Gabrielle conseguira
contratar j todos os teceles de que necessitava para os teares que
iam ser instalados.

  Ela prpria superintendeu a instalao dos teares, definindo os
locais onde deveriam ser colocados, de forma que houvesse o mximo de espao e os acessos fossem fceis. Logo que se iniciou a
laborao, foi destacado um polcia para o edifcio para o caso de
haver distrbios. Quando se constatou que nada iria perturbar a
ordem, o polcia foi dispensado.
  Gabrielle dava uma ltima vista de olhos ao expediente na tarde
de sbado que terminava a primeira semana de trabalho, esperando
por Gaston, que devia estar a chegar para a levar a casa para junto de
Emile. Para alm do guarda, no se encontrava mais ningum no
edifcio. Concentrada no seu trabalho, no se apercebeu do rumor
que se ouvia  distncia. De repente, a porta do seu escritrio abriu-se e o guarda apareceu tremendo e gritando:
  - Desordeiros, madame! Vm nesta direco! Fuja enquanto 
tempo!
  A seguir, saiu a correr. Contornando a secretria, Gabrielle correu para o hall de entrada, cujas portas tinham sido deixadas abertas
pelo guarda. Dali, podia observar a rua em toda a sua extenso.
Sentiu-se vacilar. A multido de desordeiros avanava de ambos os
lados. Vinham armados de ferros e bastes, empunhando cartazes
Onde Se lia ABAIXO JACQUARD! PROTEJAM O NOSSO SUSTENTO! PRESERVEM OS NOSSOS TEARES!
  Gabrielle no estava disposta a deixar que uma turba annima e
desenfreada destrusse tudo aquilo por que lutara. Entrando rapidamente, fechou as pesadas portas e correu todos os ferrolhos. A seguir, correu em direco  primeira 
sala de teares. Embora as janelas estivessem protegidas com grades, fechou as portadas interiores.
Os gritos da multido aumentavam de intensidade. Com receio de
que pudessem investir pela retaguarda do edifcio, apressou-se a
verificar se ali as portas estavam devidamente trancadas. Estavam
todas, excepto uma, que dava para o que em tempos fora uma horta.
Chegara mesmo a tempo. Na altura em que trancava a porta, viu,
atravs da grade, que o porto do jardim tinha cedido sob o peso da
multido.
  Quase sem flego, parou para pensar se no teria deixado nada
por fechar. De repente, estremeceu quando uma pedra foi atirada
contra uma das janelas, estilhaando o vidro. Depois, uma aps
outra, todas as janelas foram atingidas. Seguiu-se outro som ainda
mais assustador. A porta da entrada estava a ser forada a golpes
ritmados de arete. Parecia que a cada pancada todo o edifcio estremecia. Gabrielle receava que as velhas madeiras do convento no
resistissem por muito mais tempo.
  De sbito, teve ?uma ideia. Havia no seu escritrio uma amostra
de seda acabada de sair do tear com um dos mais recentes padres de
Marcel. Era um desenho espectacular de enormes girassis sobre
um fundo de cor clara. Correu a busc-la e enrolou-a  sua volta,

como se fosse uma estola gigante. A seguir, dirigiu-se para a arcada
que conduzia  primeira sala dos teares e, reunindo toda a sua coragem, aguardou em expectativa o que se seguiria.
  Com um estrondoso rudo, a porta cedeu finalmente e os desordeiros, empunhando o arete, espalharam-se pelo hall. Era a oportunidade que ela aguardava. Enfrentou-os 
de p, num deslumbramento de cores, em que sobressaam o laranja, o amarelo e o dourado. O efeito era realado pelos raios de sol que, penetrando atravs das portas 
arrombadas, a envolviam dos ps  cabea. Os seus
cabelos castanhos brilhavam como fogo.
  - Teceles - gritou num tom autoritrio. - No avancem
mais. Muitos de vocs sabem que aprendi a tecer nos vossos teares,
em vossas casas. Seria eu capaz de vos trair? Confiem em mim
como antigamente. Deixem que eu vos mostre tudo o que o tear de
Jacquard pode fazer por Lyon!
  Aqueles que se encontravam j dentro do edifcio olhavam-na,
boquiabertos. A sua inesperada presena, o esplendor da sua roupagem e sobretudo a coragem que demonstrara ao enfrent-los deixavam-nos colados ao cho.
  - Dem-me a oportunidade de salvar aquilo que conquistei -- acrescentou. - E posso arranjar emprego a quem queira trabalhar.
  Gabrielle teria sido bem sucedida se a deciso tivesse cabido aos
que encabeavam o motim. Mas levantou-se uma onda de protestos
por parte dos que se encontravam ainda do lado de fora, que comearam a entrar de roldo, empurrando os que j se achavam no interior do edifcio. Ningum soube 
quem atirou a pedra. Podia ter sido
intencional ou talvez tivesse feito ricochete numa das paredes. O
que  certo  que atingiu Gabrielle numa tmpora, o que a fez cambalear, atordoada pela dor. Quando caiu, numa massa confusa de
cores manchadas de sangue, sentiu que algum vindo da sala dos
teares a levantava. A multido que jorrava da rua gritava e berrava.
Ouviu um tiro. E a seguir soou a voz forte de Nicolas.
  - Saiam! Todos! Isto foi s um aviso. Atiro sobre o primeiro
que der um passo em frente!

A rvore do Ouro 215

  Ofegante, Gabrielle conseguiu olhar para cima e viu Nicolas, de
p sob a arcada, segurando uma pistola em cada mo. No estava
ningum na sala dos teares, o que significava que algum mais devia estar a enfrentar a multido que se comprimia no jardim. Baixou
novamente a cabea. A multido recuou assim que ouviu o clique
provocado pelo engatilhar da outra pistola.
  Gabrielle j no conseguia concentrar-se. Ouviram-se mais gritos, o bater de uma porta algures e o riso exuberante de Gaston.
Depois, Nicolas levantou Gabrielle e deitou-a no sof do escritrio.

  - Est muito magoada? - perguntou-lhe Gaston, preocupado.
  - Apenas atordoada.
  - Mas tem um golpe bastante profundo. - Nicolas tentava estancar o fluxo de sangue com um leno de linho. Despiu o casaco e
colocou-o sobre ela. - A rua j est desimpedida?
  Gaston dirigiu-se  janela.
  - J, os seus homens e a Polcia fizeram um bom trabalho.
  - Nesse caso, traga a carruagem at  porta de entrada. Temos
que levar Madame Valmont a casa e entreg-la  cunhada.
  Gabrielle queria agradecer-lhe toda a sua ajuda, mas no conseguia mexer-se, tal era a dor que sentia. Nicolas pegou-lhe de novo
ao colo com cuidado. A cabea dela repousava-lhe no ombro, e foi
assim que Gaston os conduziu at  Rue Clmont.
  Um criado abriu-lhes a porta assim que chegaram. Ouviu-se um
grito alarmado de Hlne, vindo do hall. Nicolas foi-a pondo a par
da situao enquanto a seguia escada acima. Henri apareceu quando
acabavam de chegar ao patamar.
  - Voc! - vociferou ele, vendo Nicolas. - Como  que se
atreve a entrar nesta casa! Que  que fez  minha irm? No lhe
toque!
  Gabrielle sentiu que os braos de Nicolas a apertavam com mais
fora. No entanto, foi Hlne quem assumiu o controle da situao.
  - Sai da frente, Henri! No  altura para discusses. Devias
estar grato a Monsieur Devaux, em vez de desatares aos gritos sem
razo! - Afastando-o com as mos, avanou em direco a um dos
quartos, seguida por Nicolas.
  Hlne abriu a cama e Gabrielle apercebeu-se de que a deitavam. Protestou vagamente quando Hlne lhe tirou de cima o casaco de Nicolas e lho devolveu. Era a nica 
forma de fazer entender
que queria que ele ficasse. Mas, por qualquer razo, ele percebeu.
Pegou-lhe na mo com ternura.
  - Tenho que me ir embora - disse baixinho. A seguir, saiu do
quarto.
  Gabrielle veio a saber dos pormenores atravs de Hlne. Gaston tinha tomado precaues para o caso de haver problemas. Decidira que, se houvesse uma emergncia, 
entraria na fbrica Roche
atravs de uma pequena janela existente no sto a que tinha acesso
por um telhado prximo. Foi dessa forma que ele e Nicolas - que
soubera do levantamento por um guarda - conseguiram entrar no
edifcio, ele para enfrentar a multido que se juntara na horta e
Nicolas para assegurar a proteco da entrada principal.
  Logo que se tornou possvel, Gabrielle foi levada para a quinta.
O mdico, que lhe cosera a ferida com quatro pontos, recomendara
repouso total durante trs semanas, perodo que mile estava decidido a alargar. Todas as suspeitas sobre Nicolas, adormecidas h
muito tempo, irromperam de novo.

  FOI Em 1808, numa exposio de sedas, que Gabrielle voltou a
encontrar Nicolas. Tinham-se passado alguns meses e a sua fbrica

prosperava. Esta exposio era uma oportunidade para demonstrar
que as suas sedas estavam entre as melhores.
  Cada membro da Grande Fabrique tinha um espao reservado no
recinto da exposio. Embora  Maison Roche, como membro prestigiado, tivesse sido atribuda uma zona no cobiado salo principal, esta situava-se num canto afastado, 
longe da entrada.
  Quando Gabrielle, indignada, protestou, Henri encolheu os
ombros.
  - Que  que esperavas? - disse ele. - A seda Roche est presentemente nas mos de uma mulher. D-te por muito feliz, porque,
apesar de tudo, conseguiste um lugar na exposio.
  - Providenciarei para que a nossa seda no seja negligenciada.
Prometo-te. - O seu rosto revelava uma atitude de desafio em relao a ele e aos organizadores.
  Henri tirou do bolso uma caixa de rap esmaltada, inalou uma
pitada e assoou-se ruidosamente.
  - Que padres decidiste expor finalmente?
  Ao ouvir a resposta, olhou-a, incrdulo.
  - No podes expor esses. Probo-te. Limita-te s flores, ramos
de videira e rosetas.  o gnero que os compradores procuram.
Tenho a certeza disso.
  - J passou o tempo em que algum tinha poder para me proibir. Marcel fez os desenhos h j muitos meses e os tecidos esto
prontos. O facto de me terem atribudo um espao to pouco em
evidncia no salo de exposio faz com que me sinta ainda mais
determinada a assegurar que a seda Roche no volte a ser relegada
para uma posio inferior.
  Na vspera da inaugurao, Gabrielle chegou ao recinto da exposio com Marcel e Henri. mile tambm a acompanhava. Havia
uma dependncia destinada aos comerciantes de seda crua e, por
isso, marido e mulher separaram-se na entrada. Gabrielle parou
para observar a planta da exposio e viu que a seda Devaux ocupava o lugar que ela gostaria de ter escolhido. Nicolas estava portanto
em vantagem bvia, facto que ela achou estimulante. A partir de
agora, qualquer pequena vitria sua teria muito mais importncia.
Na altura em que, imersa nos seus pensamentos, sorria, viu Nicolas
e o corao saltou-lhe no peito.
  Sentiu-se fraquejar. Como era possvel continuar a sentir-se
emocionalmente dividida, com quase vinte e cinco anos de idade e
quatro de casamento? Perversamente, ressentia-se pelo facto de
amar Nicolas e ao mesmo tempo rejubilava pelas sensaes vibrantes que esse amor lhe provocava. O amor era uma droga muito mais
potente do que qualquer outra que os mdicos pudessem receitar.
  Ela e Marcel conseguiram montar o expositor Roche sem atrair
muitas atenes. Em seguida, cobriram-no com tecidos de cambraia
de forma a proteg-lo do p e dos olhares. Existia um entendimento
tcito entre os participantes que os comprometia a no olharem para
os expositores dos concorrentes at ao dia da exposio e que fazia
parte de uma velha tradio de secretismo no negcio da seda.
  No dia seguinte de manh, Yvonne levantou-se cedo e, em vez

de esperar por Hlne, aprontou-se para acompanhar Henri, Gabrielle e mile  exposio. As trs mulheres tinham vestidos novos, da mais bela seda Roche. Gabrielle, 
que tinha escolhido a cor
do jade para o vestido, levava um vistoso chapu com uma pequena
aba enrolada, enfeitada com uma pluma colocada  frente e cujo
modelo se inspirava no estilo militar, muito em voga na altura. O
casaco de Yvonne, de veludo bordado, denotava a mesma influncia. Ao passar pelo hall, agitou-se um pouco em frente do
espelho antes de entrar na carruagem.
  - C estamos ns - disse mile, inclinando-se da janela logo
que avistou o recinto da exposio.
   entrada, encontraram Marcel, que, com Gabrielle e Henri, se
dirigiu para o espao que lhes estava reservado, enquanto mile
avanou para o local onde se encontravam os expositores de seda
crua. Yvonne passeou-se devagar pelo salo principal, examinando
tudo aquilo que as finas cobertas j tinham destapado.
  Numa mesa contgua ao expositor Roche, onde as encomendas
seriam feitas, Henri preparava o tinteiro, canetas e livros de encomendas to cuidadosamente como se estivesse a mover as peas de
um jogo de xadrez. Gabrielle foi dar uma volta pelo recinto da exposio. Agora que grande parte dos expositores estavam j destapados, todo o local se transformara 
com tecidos de todas as texturas e
cores. Cores de jias misturavam-se com o brilho metlico do lam
e havia uma gama completa de tons pastel, todos com padres maravilhosos em damasco, veludo lavrado, passamanes, cetim, moir e
em muitos outros produtos resultantes de tcnicas especiais da tecelagem da seda.
  Quando Gabrielle viu o expositor Devaux, apeteceu-lhe aplaudir, proclamar a sua admirao. Como se tivessem combinado previamente, Nicolas era o nico, para alm 
dela, a empregar uma
nica cor e a mostr-la em todas as suas tonalidades. E a dominar o
seu stand havia uma espectacular espiral de damasco cor de safira
sobre um fundo de cetim, com o padro de abelhas douradas. Era
uma obra-prima que demonstrava todo o potencial do tear Jacquard.
  Nicolas encontrava-se na sua mesa a escrever. Teria j tido alguma encomenda? De repente, levantou a cabea e olhou-a de
frente.
  - Prazer em v-la, Gabrielle! - disse ele com ar risonho. -- Como est? Ocupada de certeza.
  - Acertou. Os meus parabns pelo seu stand. Ser a sensao da
exposio.
  Ele encolheu os ombros.
  - J reparou que fomos os nicos a apresentar trabalho produzido com o tear Jacquard? Vamos enfrentar severas crticas.
  - Talvez o nosso trabalho consiga convencer outros a mudar.
  - Espero que sim. Monsieur Jacquard dever aparecer c hoje.
Quer encontrar-se com ele?
  O rosto dela iluminou-se.
  - Quero! Ser um prazer. Assisti  demonstrao do tear dele.
  - Ento, esteve l?
  - Sim, e apreciei a atitude que tomou em relao a Monsieur
Jacquard.

A rvore do Ouro 219

  Com um gesto, Nicolas dissipou o elogio.
  -  um velho amigo de meu pai e eu cumpri o servio militar
com o seu filho Charles, que foi morto em Cambrai. Tal como ns,
Jacquard teve de fugir de Lyon durante o cerco devido a falsas acusaes. A sua casa foi incendiada. Logo que ele chegar, vamos ter
consigo. A propsito, ainda no vi o seu stand.
  Para l se dirigiram. De acordo com as instrues recebidas,
Marcel esperara at ao ltimo minuto para retirar as proteces que
cobriam os expositores. Surgiram de imediato olhares de surpresa
vindos de todos os lados. Gabrielle observou ansiosamente a reaco de Nicolas e pelo brilho do seu olhar percebeu que tinha sido
aprovada.
  Escolhera gris-de-lin, um maravilhoso tom de violeta, com
guias douradas em voo e o tecido estava armado como se se tratasse da sala do trono. Em primeiro plano, havia uma profuso de
sedas em cores que iam do amor-perfeito mais carregado at  prpura-rosada e lils, como se as guias se encontrassem a voar sob
um cu turbulento manchado de ouro e prata. O efeito era vistoso e
empolgante.
  - E a minha vez de a congratular - disse Nicolas com um ar
divertido que a fez rir  socapa.
  Era uma graa que s eles percebiam. Como que ligados por uma
afinidade de pensamento e por estranha coincidncia, os seus expositores eram os nicos em que existia uma s cor dominante.
Nenhum deles reparou que estavam a ser observados por mile, que
atravessara o recinto principal com o propsito de desejar boa sorte
a Gabrielle. Observou-os com ar de suspeita. Conhecendo Gabrielle, parecia-lhe que cada pequeno gesto evidenciava um interesse especial por Devaux. Alguma coisa 
que este disse fez com que
se rissem os dois, o que s serviu para aumentar a desconfiana de
mile. Soou entretanto uma sineta para anunciar que a exposio
estava prestes a abrir. Ele viu que a sua mulher e Devaux se separavam, sorrindo ainda um para o outro, o rosto de Gabrielle carregado
de mistrios. mile deu meia volta e regressou ao seu expositor.
  Gabrielle, vendo Henri aproximar-se, perguntou:
  - Ento, que pensas dos nossos concorrentes?
  - Penso que o nosso mais srio rival  Devaux e s a ti te cabem
as culpas se ele conseguir roubar-nos as encomendas. Devias ter-me
dado ouvidos.
  Lanou um olhar desdenhoso sobre o expositor Roche. guias!
O que os clientes queriam eram pombas ou aves-do-paraso. A guia
imperial no tinha lugar nas casas do cidado comum.
  Contrariamente s sombrias expectativas de Henri, o dia correu

de forma excepcional. Foram rodeados pelas primeiras pessoas e o
pblico apareceu sem cessar. Os expositores Roche e Devaux atraram desde logo as atenes, visto que as suas sedas tinham sido
tecidas no tear Jacquard. Ao escolher a guia imperial, Gabrielle
conseguira captar o esprito pr-Bonaparte da Grande Fabrique. A
maior parte dos antigos smbolos polticos tinham sido substitudos, em homenagem ao imperador Bonaparte, que naquela altura,
merc das suas conquistas, controlava metade da Europa. Nos expositores Roche e Devaux encontravam-se ideias maravilhosas para
redecorar os sales imperiais.
   tarde, Hlne veio visitar o stand Roche.
  Ficou surpreendida, mas ao mesmo tempo orgulhosa.
  - Pelo que vejo, tu e Monsieur Devaux fizeram uma revoluo
na Grande Fabrique - disse a Gabrielle. - Acabei de falar com ele.
Apresentou-me Monsieur Jacquard. Daqui a pouco, vm ter contigo. - Gerou-se uma agitao entre a multido. - Penso que esto
a chegar.
  Ningum chegou a saber quem comeou a aplaudir. As palmas
surgiram de todo o lado, e as pessoas abriram alas para deixar passar o homem cujo nome tinha corrido de boca em boca desde que
chegara  exposio. Joseph Jacquard parecia surpreendido e envergonhado, mas,  medida que os aplausos e as pessoas  sua volta
aumentavam, sorria e inclinava a cabea num agradecimento.
Lyon, a sua terra natal, que o rejeitara de forma to agressiva, acolhia-o finalmente no seu seio.

  Nos DIAs que se seguiram e at ao encerramento da exposio,
Gabrielle viu Nicolas frequentes vezes, geralmente  distncia.
Sempre que tiveram oportunidade de falar, as palavras que trocaram no tinham qualquer relao com a comunicao silenciosa que
havia entre eles. Gabrielle sabia que ele a esperava, certo de que
chegaria o dia em que ela se esqueceria dos laos que a prendiam.
Este facto contribua para que aqueles encontros tivessem um sabor
a perigo e excitao, mas era sempre triste enfrentar novamente a
realidade.
  No ltimo dia da exposio, quando o fluxo das encomendas j
tinha diminudo, houve um sbito reaparecimento de compradores

A rvore do Ouro 221

espanhis em Lyon. Constava que o imperador tinha feito seu irmo
Jos rei de Espanha. Havia de novo uma procura da guia imperial,
desta vez para a sala do trono em Madrid.
  Uma manh, depois de a exposio ter encerrado e as primeiras
encomendas j estarem a ser produzidas, Gabrielle resolveu sair
para comprar bilhetes para o teatro. O dia estava seco e quente.
Atravessava a Place des Clestins quando inesperadamente algum
surgiu  sua frente segurando um ramo de rosas vermelhas. Parou

surpreendida, rindo ao ver Nicolas.
  - Aceite o meu agradecimento por ter iluminado o meu dia.
  Ela riu de novo, agarrando nas rosas.
  - So maravilhosas.  muito simptico e corts da sua parte.
Surpreendeu-me de facto.
  - Reparei que estava imersa em pensamentos profundos. Devo
ter a mesma expresso quando comeo a pensar na minha fbrica.
Onde  que vai?
  - Ao Thtre des Clestins. - Apontou para um edifcio que se
erguia a pouca distncia. - Vou comprar bilhetes para a representao desta noite. Trata-se de uma pea que Hlne deseja ver e eu
encorajo-a a sair o mais possvel.
  - Tem tempo para tomar um caf comigo primeiro?
  Como sempre lhe acontecia na presena dele, hesitou, cautelosa,
antes de responder.
  - Acho que sim. Vai saber-me bem!
  Escolheram um caf e sentaram-se a uma mesa sob um caramancho de folhagem mesclado de sol e sombra. Uma rapariguinha
sentada num vo de uma janela alta tocava flauta e as notas brotavam claras e doces como o canto de um pssaro. Pediram caf e,
como s havia um outro cliente, suficientemente longe para no os
ouvir, puderam conversar  vontade.
  - Tm companhia para o teatro desta noite? - perguntou Nicolas. - Eu podia ir convosco.
  Gabrielle baixou os olhos para o caf que ainda fumegava na
chvena.
  - Lamento, mas no pode. Henri e Yvonne tambm vo.
  - Ah! - suspirou de forma expressiva. - Fica para a prxima,
talvez.
  - Talvez - respondeu ela sem grande convico.
  - Gabrielle - chamou ele em voz meiga. - Olhe para mim,
por favor.
  Devagar, ela levantou o rosto e deparou com a sua expresso
apaixonada.
  - Voc  a?mulher mais maravilhosa do Mundo. Eu preciso de
v-la, de estar consigo. -  medida que falava, inclinou-se, estendeu a mo e agarrou na dela. - Amo-a.
  - Nunca devia dizer isso - protestou ela, trmula. O seu corao batia descontroladamente.
  - Ama mile Valmont?
  - Ele ama-me - respondeu com os olhos brilhantes dilatados
de dor.
  Nicolas aumentou a presso sobre os dedos dela.
  - Repito a pergunta.
  - J lhe dei a minha resposta. Ela envolve tudo.
  - Incluindo o divrcio?
  Foi para ela um choque ouvir a palavra dita em voz alta. No entanto, encontrou foras para responder:
  - Incluindo o divrcio.
  Nicolas acariciou-lhe a mo, os olhos repletos de amor.
  - Am-la-ei sempre, Gabrielle - disse, beijando-lhe os dedos.
  Gabrielle nunca chegou a saber se lhe teria falado do seu amor
por ele. Um casal sentou-se numa mesa prxima e o momento desvaneceu-se. Pegou no ramo de rosas e ele acompanhou-a at  porta

do teatro. Ali chegados, Gabrielle escolheu uma rosa e ofereceu-lha. O gesto simples e eloquente traduziu tudo o que no tinha conseguido dizer. Trocaram um sorriso 
e ele colocou a rosa na lapela.
Depois, Gabrielle entrou no teatro.



CAPTULO SEIS

GABRIELLE sofreu uma inesperada decepo. A encomenda para os
cortinados imperiais que ela esperara conseguir depois da exposio foi feita  fbrica Devaux. Ouviu a notcia em silncio, enquanto Henri declamava sobre o assunto 
de forma pomposa e colrica. Gabrielle, sentada  secretria com as mos enclavinhadas,
no conseguindo por fim aguentar mais os seus discursos, exclamou
com aspereza:
  - Cala-te, por amor de Deus, Henri! Ainda h mais oportunidades. No sabemos quem ir fazer a tenda de campanha para o
imperador.

A rvore do Ouro 223

  Bonaparte queria que a sua tenda fosse guarnecida com seda de
Lyon, e uma vez que esta era um objecto de uso pessoal tomou-se
rapidamente na mais ambicionada das encomendas. Todos os grandes fabricantes de Lyon tinham submetido os seus padres para
apreciao naquele ano de 1809. O de Marcel era constitudo por
um leo e um cordeiro, que certamente simbolizavam a meta futura
do imperador, uma Europa pacificada sob a bandeira francesa.
  - Temos um bom padro - respondeu-lhe Henri -, mas enquanto fores tu a ocupar esse lugar, no conseguiremos nenhuma
encomenda importante. No h lugar para mulheres na Grande Fabrique. Deves capacitar-te de que constituis um entrave ao negcio.
  - No cedo a preconceitos - respondeu de cabea erguida.
  Henri enfureceu-se.
  - Se conseguirmos a encomenda para a tenda, continuarei a
apoiar-te. Caso contrrio, exigirei a tua demisso. Aviso-te de que
no estou disposto a deixar que Devaux nos leve a dianteira para o
resto da vida. - Deu meia volta e saiu da sala.
  Gabrielle reparou que tremia. Henri no podia fazer nada para a
demitir, mas havia outros valores em jogo. Percebeu que cada vitria de Nicolas provocava uma brecha na sua segurana emocional.
S conseguiria continuar a controlar o seu amor por ele se pudesse
tornar-se sua igual no mundo da seda. O amor que sentiam um pelo
outro era como um tormento sem fim. Sentia-se  beira do pnico,
como se estivesse a caminhar sobre areias movedias. Resolveu
acabar o trabalho e ir para casa ter com mile mais cedo.

  Durante todo o caminho que separava Lyon da sirgaria, foi fazendo uma prece silenciosa ao seu marido. ??Ajuda-me, mile. Por
favor, apercebe-te do perigo que o nosso casamento corre e ajuda-me. Nicolas est a conseguir atrair-me. No sei quanto tempo mais
vou conseguir resistir ao amor por ele.??
  mile no se encontrava em casa; fora inesperadamente a Avignon em negcios. Tinha que esperar por ele. Presentemente, cada
vez mais os seus interesses individuais os separavam. Passou a
manh seguinte no jardim a apanhar flores para pr nos quartos. Por
fim, resolveu vaguear pelos bosques como se quisesse absorver a
tranquilidade que a envolvia.

  Algumas semanas mais tarde, quando Henri se preparava para
sair  noite com Yvonne, um criado veio ter com ele para lhe dizer
que tinha sido apanhado um vagabundo a rondar os estbulos.
  - Roubou alguma coisa? - perguntou Henri.
  - No, senhor. Ele jura que tinha um encontro marcado com
uma criada e q?e se enganou no local. Temo-lo sob vigilncia na
copa.
  - Bem, vou dar uma olhadela a esse malandro.
  Era raro Henri descer ao piso inferior. O pessoal da cozinha, que
ele no se lembrava de alguma vez ter visto, ficou de p, a v-lo
passar, junto das mesas bem esfregadas, sobre as quais brilhavam
tachos de cobre. Dirigiu-se  copa, deparando com o intruso, um
indivduo de meia-idade com cara de fuinha, sentado numa cadeira
com os braos amarrados.
  - Com que ento  Monsieur Brouchier - exclamou Henri,
reconhecendo-o. - Mas que surpresa. - Dirigindo-se ao criado
que o conduzira at ali, disse-lhe: - Solta-o e leva-o at ao meu
escritrio. Este  um assunto que pretendo investigar pessoalmente.
  No escritrio, Brouchier aceitou o convite para se sentar.
  - Passei um mau bocado - confessou. - Orgulhava-me de
nunca ter sido apanhado em flagrante.
  Henri serviu-se de um copo de vinho e sentou-se.
  - Pelo que vejo, ainda continuas no activo. Quero saber o que
andas a tramar. Ser que a minha mulher te pediu para me espiares?
- H uns anos, Henri contratara Brouchier para seguir uma amante
sua.
  Brouchier riu-se abanando a cabea.
  - Monsieur, sou um homem de honra e, como tal, no posso
trair a confiana dos meus clientes.
  Henri, levantando a mo que segurava o copo, apontou-lhe um
dedo e declarou:
  - Posso mandar-te prender por violao de propriedade alheia,
com o intuito de roubar. Conta-me tudo. Fala!
  Brouchier agitou-se desconfortavelmente na cadeira.
  - mile Valmont contratou-me para seguir a mulher.
  - O qu? - Henri sentou-se, pasmado. - Quem  o homem?
  A resposta surgiu-lhe no esprito ao mesmo tempo que a ouvia da
boca de Brouchier.
  - Nicolas Devaux.
  - Conseguiste arranjar provas?

  - At agora, nada de significativo. Encontraram-se h algumas
semanas na Place des Clestins. Desde ento, que eu saiba, no
houve mais encontros. Por coincidncia, Devaux foi convidado

A rvore do Ouro 225

para a festa onde vo tambm os Valmonts e a sua cunhada. Preparava-me para seguir a carruagem ?deles.
  Henri bebeu um gole de vinho e encarou o visitante com ar
ameaador.
  - Vou deixar-te sair, mas com uma condio. Vais pr-me a par
de tudo aquilo que contares a Monsieur Valmont.
  Brouchier levantou-se.
  - Penso que no haver problemas, uma vez que o senhor  um
cliente antigo que por sinal foi bastante generoso.
  Henri percebeu a insinuao.
  - Sers recompensado. - Bebeu o resto do vinho de um trago.
- E agora desaparece daqui.
  Henri permaneceu sozinho no escritrio por mais algum tempo a
pensar. Parecia que tinha em mile um aliado contra Devaux e pressentia que estavam a reunir foras para o ataque.

  GABRIELLE no sabia que Nicolas iria estar presente no jantar.
Tinha acabado de cumprimentar os anfitries quando o viu atravessar a sala na sua direco. O cabelo sedoso dela reflectia o brilho das
luzes, emoldurando o rosto adorvel. Levava um vestido de seda
branca com o decote debruado a ouro e a sua presena ofuscava todas as outras mulheres presentes. Nicolas aproximou-se e apertou-lhe a mo de forma apaixonada.
  - Os deuses foram bons para mim esta noite.
  Ela suspirou num doce encantamento, totalmente fascinada pela
sua presena.
  - Quem poderia pensar que aqui, em Lyon, uma Roche e um
Devaux seriam convidados para a mesma festa?
  - Acontece que a nossa anfitri no est a par das disputas locais.
  -  a nossa sorte - segredou ela em tom divertido. Partilhando
aquela brincadeira secreta, Nicolas conduziu-a at junto dos convidados.
  Estavam presentes escritores, artistas e msicos, bem como o
prefeito da cidade. A conversa decorria num tom intelectual, mas
uma notcia vinda de Paris pareceu perturbar a assistncia - o
imperador pretendia divorciar-se de Josphine. Queria um filho, um
herdeiro, que ela no conseguira dar-lhe.
  Durante o jantar, Gabrielle e Nicolas ficaram sentados longe um
do outro. Ele estava exactamente do lado oposto da mesa, separado
dela por candelabros e arranjos de cravos em taas de prata, que,
apesar de tudo, no interferiam com o seu campo de viso. De cada
vez que Gabrielle levantava os olhos na sua direco, encontrava o
olhar de Nicolas, que lhe enviava uma mensagem silenciosa.
Aquela insistente ateno comeou a fazer os seus efeitos. Sentiu-se

tomada pelo amor e pelo desejo. Hlne, que era melhor observadora do que conversadora, esperava que mais ningum reparasse no
que se estava a passar entre os dois. mile, num outro canto da
mesa, parecia no dar por nada.
  O caf foi servido num salo forrado de seda verde. As pessoas
foram convidadas a sentar-se para ouvirem um interldio musical.
Nicolas conseguiu um lugar ao lado de Gabrielle. A msica aumentou tanto nela a conscincia da sua proximidade que quase lhe sentia a respirao. Quando se levantaram 
para aplaudir, permaneceram juntos, olhando um para o outro.
  - Encontre-se comigo amanh - implorou ele em voz baixa.
- No caf da Place des Clestins. Temos tantas coisas para dizer.
  Gabrielle sentiu que no podia recusar. Tinha que voltar a v-lo
o mais depressa possvel.
  - L estarei - prometeu.

  AS Notcias que na manh seguinte circulavam em Lyon indicavam que a fbrica Devaux tinha conseguido a encomenda pessoal do
imperador para a sua nova tenda de campanha. Para Gabrielle foi
um duplo choque. Uma vez mais, Nicolas, em consequncia do seu
merecido sucesso, havia conseguido passar-lhe  frente e, simultaneamente, nada simbolizava mais o ascendente emocional que ele
tinha sobre ela do que o facto de ele ter conseguido to almejada
encomenda.
   hora marcada, chegou  Place des Clestins numa caleche
conduzida por Gaston. Nicolas, que j se encontrava sentado  mesa, levantou-se, apercebendo-se pela expresso do rosto de Gabrielle que de novo um abismo se cavara 
entre eles.
  - No posso ficar - disse ela. - Vim apenas para lhe dar os
meus mais sinceros parabns pela sua recente encomenda.
  - Obrigado. Por favor, sente-se um minuto.
  Se ela se sentasse, tornava a perder-se. Lia-se demasiado amor
nos olhos dele.
  - No, tenho que ir. No entanto, queria fazer-lhe uma pergunta.
Ontem j sabia que tinha conseguido a encomenda?

A rvore do Ouro 227


  - Soube h uma semana.
  - Porque no me disse ento?
  - Amo-a, Gabrielle. No quero perd-la. Ontem  noite senti-a
to perto que no quis que nada se interpusesse. Na minha opinio,
considero triste para a Frana que o imperador necessite presentemente de uma tenda de campanha. - Referia-se  recente declarao de guerra feita pela ustria  
Frana e ao desembarque de foras inglesas em Portugal com o fim de ajudar a expulsar os Franceses do territrio portugus. - Preferia tecer bandeiras de seda para
proclamar a paz por todo o imprio.
  - A sua tenda poder contribuir para assegurar essa paz. -- Gabrielle deu um passo para trs. - Adieu, Nicolas. Espero ver a
tenda quando estiver acabada. Tenho a certeza de que vai ficar
maravilhosa.

  Voltou apressada para a caleche, com o rosto plido de angstia.
  Durante todo o dia, Gabrielle esperou que Henri chegasse  fbrica furioso por causa da encomenda perdida, mas ele no apareceu. Em vez disso, encontrou-o no hall 
quando chegou a casa.
Estava calmo e senhor de si, embora os seus modos fossem arrogantes.
  - J sabes as novidades, calculo.
  Ela assentiu, dizendo:
  - Isto s serve para confirmar que a seda Devaux ainda tem
vantagem sobre os produtos Roche. A minha inteno  contrariar
essa tendncia.
  - Ai sim? Vem at ao salo. mile est c.
  O facto no a surpreendeu muito. Nas ltimas semanas, mile
costumava vir a Lyon sem avisar, umas vezes para passar algum
tempo com ela, outras para a acompanhar no regresso a casa. mile
afastou-se da janela quando a viu entrar no salo. Achava que
Gabrielle, onde quer que entrasse, trazia consigo o sol. No entanto,
naquele dia deu-lhe um beijo pouco caloroso na face.
  - Henri pediu-me para vir! - disse-lhe. - As notcias sobre a
perda da encomenda devem ter-te desapontado muito.
  - Henri chamou-te? - O seu olhar cauteloso passou de um para
o outro. - No mundo dos negcios h que saber enfrentar as contrariedades.
  - Mas, Gabrielle, no achas que elas esto a acontecer com
demasiada frequncia? - perguntou. - Chegou a altura de te perguntares se ests a cumprir a vontade expressa por teu pai. A Grande Fabrique virou-te as costas e 
no conseguirs nunca realizar os
sonhos que acalentaste.
  Ela no queria acreditar que o seu marido, que prescindira dos
seus prprios desejos e lhe oferecera apoio total depois da leitura do
testamento, resolvesse agora virar-se contra ela.
  - Acreditas no que ests a dizer, mile? - desafiou-o.
  - Acredito, minha querida. No apoiaria o teu irmo se no
pensasse que ele tem razo. Dominique no quereria que um Devaux levasse a melhor sobre uma Roche e  isso que est a acontecer e que continuar a acontecer, a menos 
que designes Henri como
teu representante legal e te retires da cena pblica.
  Gabrielle ficou sem palavras. Durante os bons e os maus momentos que tinham passado juntos, nunca mile lhe retirara o apoio.
  - No me conveno de que falhei. Ainda  muito cedo ...
  - Trs anos - interrompeu Henri. - Tiveste trs anos.
  - Isso no  nada. Tenho ainda toda a vida  minha frente. No
desisto a teu favor nem a favor de ningum.
  - Pode no te restar qualquer hiptese dentro de poucos meses.
Seria melhor comear agora a mudana - declarou mile calmamente.
  - No estou a perceber - disse ela, intrigada.
  Com um ligeiro movimento de cabea, mile indicou que Henri
iria esclarecer a afirmao. Gabrielle viu um sorriso malvolo estampar-se no rosto do irmo.
  - Yvonne est grvida - disse ele em tom spero. - Se for um
rapaz, tenho o direito legal de contestar o testamento do nosso pai e
reclamar aquilo a que tenho direito.
  Gabrielle deixou escapar um suspiro.

  - Ento  disso que se trata. Espero que nasa uma criana forte
e saudvel, Henri, seja rapaz ou rapariga. Quanto ao negcio, o pai
deixou-mo como prova de confiana e eu vou demonstrar que sou
merecedora dela. Entretanto, tudo se mantm como at aqui.Olhou para ambos e disse: - E agora vou mudar-me para o jantar.
  Saiu de cabea erguida. S quando j estava longe deles  que se
sentiu desfalecer, como se todas as suas foras se tivessem esvado.

  LoGo que estivesse terminada, a tenda para o imperador seria
exposta no htel de ville. Gabrielle recebeu um convite para a primeira mostra, destinada  elite da Grande Fabrique, e fez questo
de o comunicar a mile.

A rvore do Ouro 229

  - Estou muito interessada em ver esta tenda - disse ela uma
manh de domingo, enquanto tomava o pequeno-almoo. - Quero
saber por que razo o padro de Devaux venceu e o meu no.
  mile pousou a chvena de caf e olhou-a com ternura. Tinham
passado um ptimo fim-de-semana e na noite anterior haviam estado juntos como marido e mulher. Deix-la ir ver a tenda e Devaux,
pensou ele, no meio de uma multido de comerciantes de seda. No
havia qualquer perigo. Brouchier no tinha conseguido arranjar a
mais pequena prova contra ela. E, na sua opinio, o pequeno arrebatamento que ela sentira j passara completamente.
  - Queres que v contigo?
  - Sim, se te apetecer - respondeu ela prontamente.
  A resposta agradou-lhe. No houvera a mnima hesitao.
  - Para ser franco, tenho outros compromissos para esse dia.
Depois, contas-me o que se passou.
  Os dias que a separavam da mostra foram diminuindo e a atitude
desapaixonada que ela tentara manter at ali transformou-se num
anseio desesperado de voltar a ver Nicolas. Tanta coisa se tinha
passado desde a ltima vez que o vira! Pouco antes deste ano novo
de 1810, o imperador divorciara-se de Josphine e abundavam os
rumores acerca de uma nova noiva. Quanto  Grande Arme, tinha
sido dividida em duas partes - uma para demzbar, de uma vez por
todas, a ameaa austraca e outra para avanar sobre a Pennsula,
num conflito sangrento com os Ingleses, Espanhis e Portugueses.
O mau tempo que se fazia sentir na Pennsula, naquele ano, contribua para o estado miservel em que se encontravam as tropas de
ambos os lados.
  Gaston conduziu Gabrielle ao htel de ville numa noite de frio
penetrante. Ficaram ambos surpreendidos ao constatar que no havia qualquer aglomerao de carruagens  porta do edifcio.
  - Ser que chegmos cedo? - perguntou ela.
  - No, madame, chegmos mesmo a horas, tal como desejava.
  Foi um alvio entrar no edifcio aquecido. Um criado conduziu-a ao longo do corredor at a uma sala abobadada, tendo-se retirado
de seguida. Gabrielle apercebeu-se de que era o nico espectador
presente.

  A tenda, grande e de forma oval, estava presa com estacas a um
tapete verde, como se estivesse sobre a relva. Feita de tiras de lona
azul e branca, tinha o tecto enfeitado com bordados escarlates entrelaados com preto. Gabrielle tirou a capa e colocou-a sobre uma
cadeira, juntamente com o regalo para as mos. Em seguida, aproximou-se dos cordes que cercavam a tenda. As abas da entrada estavam afastadas e por isso ela entrou.
  O interior, espaoso e bem proporcionado, estava iluminado por
lanternas suspensas das estacas que sustentavam o tecto, em forma
de dossel. Abrigava uma cama de campanha, cadeiras e mesas, todas elas de abrir e fechar. Uma de duas arcas de campanha, forrada
de lona encarnada e branca, estava aberta. Continha mapas que
demonstravam uma das suas possveis utilizaes. Gabrielle ficou
encantada com o esplendor das sedas que forravam todo o interior.
O padro, pequenos ramos azuis e encarnados, era simples e contrastava com o fundo cinzento-plido, produzindo um efeito leve e
fresco que se assemelhava a uma manh de Primavera.
  L fora, na sala, a porta abriu-se e fechou-se, como se algum
tivesse entrado. Ouviram-se depois passos abafados pelo tapete
verde. Gabrielle, que se encontrava de costas para a entrada, no se
voltou. Chegou-lhe aos ouvidos a voz de Nicolas.
  - Qual  a sua opinio?
  A alegria quase insuportvel de o saber perto f-la fechar os
olhos por instantes.
  - E maravilhosa, como eu j calculava.
  Ele aproximou-se.
  - Tinha saudades suas, Gabrielle.
  Lgrimas incontrolveis marejaram-lhe os olhos e sentiu um n
apertar-lhe a garganta.
  - Eu tambm - admitiu em voz rouca.
  Segurando-a pelos ombros, f-la voltar-se lentamente. O que
leram nos olhos um do outro deixou-os sem palavras. Os braos de
Nicolas estreitaram-na com fora e Gabrielle uniu-se-lhe num beijo
apaixonado.
  Quando finalmente se separaram, e quase como num sonho, ela
apoiou a cabea no seu ombro.
  - Meu amor - disse Nicolas num murmrio. - Mal posso
acreditar que te tenho nos meus braos.
  A voz dela, muito terna, mal se ouvia.
  - No esperava que a esta hora no houvesse mais visitantes.
  - Precisava de ver-te a ss. No podia perder esta oportunidade.
- Pegou-lhe nas mos. - Falemos do nosso futuro e da forma
como poderemos iniciar uma vida em conjunto. J desperdimos
demasiado tempo.

A rvore do Ouro 231

  - Passaram quase seis anos - disse Gabrielle com voz fraca.
  - E, no entanto, nada mudou entre ns.
  Ela sabia que era verdade. Tinha ficado provado que o amor que
os unia era forte e duradouro. Como poderia continuar a resistir a

este homem que era dono do seu corao? Pegou nas mos de Nicolas e cobriu-as de pequenos beijos.
  - Amo-te - disse em voz baixa. - Sou tua. No consigo continuar a lutar contra os meus sentimentos.
  - Minha querida, adorvel, maravilhosa Gabrielle. A partir de
agora, no existem mais barreiras entre ns.
  O rosto de Gabrielle exprimia todo o desejo que sentia por ele.
  - Quem me dera que isso fosse verdade. Eu no sou livre para
vir ter contigo.
  - Ento, quando o sers? - Nicolas estava impaciente, desesperado. - J desperdimos tanto tempo. Precisamos um do outro.
Vou falar com mile ...
  - No! No podes ir ter com ele! - exclamou ela com determinao.
  - Nesse caso, como resolveremos este dilema?
  - No sei. Neste momento s posso ter esperana em que haja
uma soluo. Peo-te que me concedas mais um tempo. Depois,
virei ter contigo. No sei quando, mas virei ter contigo.
  Nicolas no duvidou dela. Contagiava-o a esperana que sentia
em Gabrielle. Sorriram como se estivessem j, de facto, livres um
para o outro. Rodeando-lhe a cintura com o brao, Nicolas conduziu-a para fora da tenda, at ao corredor. Ajudando-a a vestir a capa
de pele, perguntou-lhe:
  - Quando volto a ver-te?
  - No sei. No me acompanhes agora, nem tentes ver-me. Isso
s complicaria as coisas. Tenho que encontrar sozinha a soluo
para este problema. Boa noite, meu amor.
  Envolvendo-se mais na capa, Gabrielle afastou-se dele e entrou
na carruagem.

  HENRI tomava o pequeno-almoo no escritrio quando lhe entregaram uma carta de Brouchier. No tinha qualquer esperana de que
as notcias tivessem interesse. No entanto, apercebeu-se de que a
situao finalmente comeava a alterar-se quando se inteirou de que
Gabrielle e Devaux tinham estado sozinhos, de porta fechada, no
htel de ville. Precisava de manter esta informao secreta at ao nascimento do seu filho. Nessa altura, esta prova teria grande impacto nos tribunais. A carta 
foi cuidadosamente fechada numa das
gavetas da secretria que fora em tempos de seu pai.
  Brouchier foi' em pessoa apresentar o seu relatrio a mile de
manh bem cedo. Quando l chegou, disseram-lhe que Monsieur
Valmont se encontrava nos barraces. Caminhando na direco que
lhe indicaram, acabou por encontrar o seu cliente a sair de um dos
edifcios.
  mile empertigou-se quando viu Brouchier.
  - Tens alguma notcia para mim? - perguntou.
  - Sim, senhor, trago-lhe a notcia que esperava.
  Brouchier tirou do bolso um papel lacrado e entregou-o ao
cliente.
  - Espera aqui.

  mile dirigiu-se ao escritrio e leu o relatrio de uma ponta 
outra. A seguir, abriu uma gaveta onde guardava o dinheiro e separou uma certa quantia que meteu numa pequena bolsa. Depois, foi
ter com o espio, que o aguardava, e entregou-lhe a bolsa.
  - Aqui tens. A tua tarefa terminou. Desaparece. Que eu no
torne a pr-te a vista em cima.
  mile passou uma mo trmula sobre a testa. Tinha planeado a
atitude a tomar quando se confirmassem os seus receios. Agora,
precisava de pr o plano em aco.

  quando Gabrielle regressou a casa, no fim-de-semana, mile
estava em Paris. Decidira contar-lhe tudo o que se passava entre si e
Nicolas, esperando que ele mostrasse um pouco de compaixo e lhe
concedesse a liberdade. mile no tinha ainda voltado quando
Gabrielle regressou a Lyon, e s passadas duas semanas voltou a v-lo, visto que na sexta-feira seguinte Yvonne entrou em trabalho de
parto. Trinta e seis horas depois, deu  luz uma menina. A criana
era fraca e viveu apenas umas horas.
  Durante dois dias, Henri no se aproximou de Yvonne. Aquela
perda significava que precisava de encontrar outros meios para obter o controle da seda Roche. Recusava-se a admitir a derrota. Tinha
que manter o contacto com Brouchier, visto que havia sempre a
possibilidade de Gabrielle cometer um deslize com Devaux. Suspirou impacientemente.
  Quando Gabrielle, ainda em Lyon, recebeu uma carta de mile
dizendo que j estava em casa, sentiu-se completamente angustiada. O tom da missiva era afectuoso, exprimindo a sua tristeza por
no a ter visto. Precisava de falar com Nicolas antes que mile
chegasse a Lyon. Preparava-se para lhe escrever quando a porta do
escritrio se abriu de repente, sem aviso, e ali estava ele. A alegria
que sentia sempre que o via foi imediatamente sufocada pela ansiedade que leu no seu rosto.
  - Que aconteceu? - perguntou, ansiosa.
  Sem responder, Nicolas fechou a porta e apertou-a nos braos
durante um longo e silencioso momento. Depois, olhou-a nos olhos
e deu-lhe a notcia.
  - Tenho de partir, Gabrielle. Tenho de deixar Lyon.
  - Porqu?
  - Aconteceu algo que eu no esperava. Fui mobilizado de novo.
Recebi ordens para me juntar ao meu antigo regimento dos chasseurs  cheval.
  - Oh, no! - Gabrielle estava consternada. Os seus braos
rodearam-lhe o pescoo com fora. - Quando soubeste? Pode ser
engano.
  - No h engano. H menos de uma hora recebi os documentos
informando-me de que devo apresentar-me ao servio. Parto amanh de manh para a Pennsula Ibrica. Por isso, tive que vir ter contigo o mais depressa possvel. 
Podemos tirar partido desta colocao em Espanha, se concordares em acompanhar-me.

  - Acompanhar-te? - repetiu ela, insegura.
  - Poderemos casar em breve. No vs? mile nunca tentaria
prender-te se soubesse que tinhas partido comigo. - Beijou-lhe o
rosto angustiado e sorriu de forma encorajadora. - Casamos em
Espanha logo que estejas livre. Quando a guerra acabar, regressamos juntos a Lyon.
  A custo, Gabrielle afastou-se dele. No havia o mais leve vestgio de cor no seu rosto.
  -  demasiado tarde, meu amor ... meu nico amor. Tenho de
ficar aqui e continuar casada com mile. - A sua voz era hesitante. Tremia pelo que tinha de dizer a seguir. S recentemente se
haviam confirmado as suas suspeitas. - Vou ter um filho dele.
  Nicolas deu um passo para trs e olhou-a, atordoado.
  - Tens a certeza?
  - Tenho - confirmou, desalentada.
  Ele puxou-a de novo para si.
  - Mesmo assim, podes vir comigo para Espanha - insistiu. -- No h nada que possa interpor-se entre ns. Amo-te e hei-de amar
qualquer criana que venhas a ter.
  O corao de Gabrielle parecia querer rebentar, tal a angstia
que sentia.
  - Seguir-te-ia para todo o lado, se fosse livre - disse ela -,
mas, no meu estado, no posso empreender tal viagem.
  Ele segurou-lhe o queixo.
  - Ento, depois de o beb nascer ...
  - No! - Gabrielle afastou-se com violncia. - No vs? No
consegues perceber? Agora no h qualquer hiptese para ns!
  Era a rejeio total de toda a esperana. Ele ficou furioso.
  - Quero a promessa de que irs ver-me a Espanha ou a qualquer
outro stio para onde me mandarem. Desejei-te demasiado tempo
para que me negues partilhar um pouco da tua vida.
  - Depois tentavas obrigar-me a ficar. - A voz de Gabrielle
estava carregada de desespero.
  - Sempre te distanciaste de mim - acusou ele.
  - No foi por minha vontade!  a ti que desejo quando mile
me toma nos braos. Disse-te na tenda do imperador que havia de ir
ter contigo quando estivesse livre. A promessa ainda se mantm,
apesar de neste momento no saber se alguma vez isso ir acontecer.
  - ??Nunca?? parece ser a palavra mais apropriada! - O seu olhar
exprimia uma dilacerao interior. - Nem quero acreditar nisto.
Teria sido melhor para ambos nunca nos termos conhecido. Adeus,
Gabrielle.
  Virou-se, abriu a porta do escritrio e saiu. Gabrielle permaneceu imvel, como se no tivesse foras para se mexer. Sem ver nem
ouvir, apenas relembrando as ltimas palavras proferidas pelo
homem que amaria at ao fim dos seus dias.



CAPTULO SETE

MILE chegou a Lyon mais cedo do que o esperado. Henri foi receb-lo ao hall de entrada.

  - Gabrielle no regressou ainda da fbrica, mile. Posso oferecer-te uma bebida? Talvez um pouco de vinho.
  mile recusou.
  - No, obrigado, prefiro esperar por Gabrielle. Como est
Yvonne?

A rvore do Ouro 235

  - Ela ficou muito grata pela tua carta de condolncias. Foi para
ns uma grande tristeza a criana no ter sobrevivido. Mas vem, no
h necessidade de estarmos a conversar aqui no hall.
  Os dois homens dirigiram-se para o salo dourado, um dos mais
pequenos da casa.
  - Que  que se tem passado c por Lyon? - perguntou mile.
- J no vejo Gabrielle h quatro semanas e no vinha c h mais
tempo ainda.
  Os olhos de Henri luziram de satisfao.
  - Para comear, Devaux foi-se embora. Voltou a ser mobilizado. Que achas, h?
  mile julgou perceber um certo tom conspiratrio nas palavras
do cunhado.
  - De verdade? Ento, a fbrica Devaux fechou?
  - Longe disso. Deixou um administrador a dirigi-la, um parisiense chamado Michel Piat. Um homem bastante capaz, segundo
consta.
  - Onde  que Devaux foi colocado?
  - Na Pennsula Ibrica. De acordo com as informaes,  uma
campanha difcil. Os Portugueses recusam-se a obedecer s ordens
do imperador para fecharem os portos ao comrcio ingls. Tivemos
de tomar Lisboa e resolver o assunto. Os nossos soldados j teriam
aniquilado os Portugueses se os Ingleses no tivessem interferido.
  - Mas Portugal era um pas neutro - disse mile. - Tinha o
direito de decidir o que queria. Os Ingleses no sairo de l facilmente.
  Henri assumiu uma expresso maliciosa.
  -  uma situao que te convm, no ? Tens as tuas razes, tal
como eu tenho as minhas, para desejar que Devaux se mantenha ao
servio do imperador e fora daqui.
  mile respondeu num tom polido e frio:
  - Porqu? As divergncias so com a tua famlia e no tm nada
a ver comigo. Devaux no era meu cliente e por isso no vou ressentir-me com a ausncia dele.
  - No me referia ao negcio, mas sim ao interesse de Devaux
por Gabrielle, tua mulher e minha irm.
  - Deixas-me perplexo - mentiu mile secamente.
  Henri esboou um sorriso maldoso.
  - Ento, porque  que puseste Brouchier no encalo dela?
  mile olhou para o cunhado com ar severo.
  - Brouchier no conseguiu encontrar nada que a incriminasse.
Dispensei os seus servios h j algum tempo.
  - Ele disse-Jne. Brouchier  de confiana. Continuo a utilizar os
seus servios, sobretudo para ter Devaux debaixo de olho. E  por

isso que sei que Devaux foi  fbrica despedir-se de Gabrielle h uns
dias. Foi um encontro breve. No precisas de te preocupar. No
voltaro a encontrar-se.
  A carapaa de calma de mile desfez-se. Possudo de uma fria
incontrolvel, atingiu Henri com um soco, que o deixou prostrado
no cho. Passado um momento, Henri soergueu-se num cotovelo e
apalpou o maxilar.
  - Podias ter-me partido os dentes - articulou com voz abafada.
Depois de se certificar que os tinha todos inteiros, disse: - Acho
que ficaram a abanar!
  - Isso j passa. - mile, pasmado com a sua prpria atitude,
aproximou-se para o ajudar a pr-se em p. Mas Henri, furioso,
recusou a ajuda e levantou-se sozinho.
  - Gabrielle  que merecia uma sova. A tua mulher ...
  - Desaparece daqui! - mile, perdendo de novo a calma,
ameaou-o de punhos cerrados.
  Henri retirou-se sem olhar para trs.

  QuANDo Gabrielle chegou a casa, foi informada por uma criada
de que o marido a aguardava no salo dourado. Ao ouvi-la entrar,
mile levantou os olhos e encontrou os dela reflectidos no grande
espelho colocado sobre a lareira. Gabrielle achou que ele estava
com um ar tenso.
  - At que enfim chegaste, minha querida. Estava impaciente 
tua espera.
  - Como tens passado desde que chegaste de Paris? - perguntou ela, parando a alguma distncia.
  Ele voltou-se para a olhar.
  - Estou bem e tu?
  - No tenho dormido muito bem. - Sentiu o olhar atento do
marido, que seguia todos os seus movimentos. Sentou-se num sof.
- Por favor, senta-te ao p de mim. Tenho uma coisa para te dizer.
  mile fitou-a atentamente antes de se sentar ao seu lado.
  - Que ?
  Gabrielle rodava a aliana de casamento no dedo. Devagar, ergueu o rosto, o olhar franco e directo.
  - Vamos ter um filho, mile.
  Louco de alegria, mile olhou-a, atordoado com a notcia.
  - Minha querida mulherzinha. - Sufocado pela emoo, beijou-a demoradamente. No tinha qualquer dvida de que era o pai
do filho que ela tinha dentro de si. A expresso de Gabrielle era
transparente.
  - Para quando ser?
  - Ainda faltam seis meses.
  - Temos que voltar para casa o mais depressa possvel. - Estava entusiasmadssimo.
  - No, mile. O mdico aconselhou-me a no viajar.
  - Pensas que vou deixar-te longe de mim durante seis meses?
  - Tem de ser.
  A obstinao de Gabrielle fez com que o prazer que ele sentira
pela novidade se desvanecesse.
  - Calculo que por trs da tua resoluo de permanecer em Lyon
est como sempre a mesma velha razo. A seda Roche. No vais
desistir, pois no?
  Gabrielle reparou que sempre que ele se aborrecia se tornava
cada vez mais rgido, severo e frio. Desejou que ele demonstrasse

um pouco de gentileza.
  - Gostaria de ir todos os dias  fbrica, mas agora no vou poder
faz-lo. O escritrio aqui tem sido sempre o mais importante.
  - O trabalho continua a ser mais importante do que eu. Se pensas que ele ir dominar tambm o nosso filho, ests enganada. Depois de o beb nascer, podes continuar 
em Lyon se quiseres. A criana ficar comigo.
  - Nada ser mais importante para mim do que o beb - informou-o energicamente. - J tomei todas as providncias necessrias. Penso que te lembras de Madame Hoinville, 
uma cliente tua.
Entrei em contacto com ela durante a tua doena e ofereci-lhe recentemente o lugar de minha representante na fbrica.
  - Ela aceitou?
  - De bom grado. Na realidade, j se instalou e assumiu muitas
das responsabilidades que eram minhas e assim continuar. Estou
muito satisfeita com ela. Pretendo que o nosso filho cresa rodeado
pelo amor de ns dois e por isso vou para casa logo que recupere do
parto. Penso deslocar-me a Lyon apenas duas vezes por semana,
quando o beb deixar de mamar. Prometo que ns trs teremos uma
verdadeira vida de famlia.
  mile sentiu-se bastante apaziguado com a segurana que emanava dela. Mais calmo, levantou uma outra questo.
  - Ser-me- muito difcil vir a Lyon nestes tempos mais prximos. Sabes bem' que a partir de Maio estou sempre muito ocupado:
 a poca da apanha das folhas de amoreira e tambm a altura em
que as larvas comeam a incubar.
  - Sei muito bem. Escrevo-te informando-te de tudo o que se for
passando. Qual  a previso para a produo deste ano?
  - Ainda no sei. As minhas rvores esto em ptimas condies.
  - Ainda bem. Teria tentado chegar mais cedo a casa se soubesse
que estavas c. Estive a escolher os padres que iremos exibir na
Feira de Leipzig na Pscoa. Henri e Marcel iro representar-me.
  Por trs das costas, mile flectia a mo com que tinha atingido o
seu cunhado.
  - Quanto mais conheo Henri, menos gosto dele. Talvez tenhas
razo em continuar  frente da Maison Roche, apesar de tudo.
  Gabrielle ficou surpreendida pelo apoio expresso nas suas palavras.
  - No calculas o que significa para mim ouvir-te dizer isso.
  Ele levantou-se do sof e ajudou-a a erguer-se.
  - Minha querida, hoje fizeste de mim o homem mais feliz do
Mundo. - Passou os braos  sua volta. - Se necessitas de ficar em
Lyon at ao fim da gravidez, assim seja. Eu s desejo  que te sintas
bem e que o beb nasa com sade. s tudo para mim, minha querida. Tu e o beb que h-de vir. Rezo para que seja um rapaz.
  Gabrielle ficou emocionada com aquela demonstrao de carinho. Sentiu-se feliz porque o seu amor por Nicolas no causava
qualquer sofrimento a mile, visto que ele se mantivera na ignorncia. Era o seu nico consolo. Desde que se separara de Nicolas,

sentia-se permanentemente  beira das lgrimas, que pareciam querer brotar-lhe dos olhos nas alturas menos aconselhveis.
  Pousou a mo sobre o brao de mile.
  -  tambm esse o meu desejo - afirmou.

  No Ivts de Abril desse ano de 1810, houve um casamento real. O
imperador casou-se com a arquiduquesa Marie-Louise da ustria.
Pelo casamento, ficou firmemente implantado o domnio imperial
sobre aquele pas, que estabilizava por fim, depois da derrota final
na Batalha de Wagram. Em Frana  que os problemas se avizinhavam. O imperador tinha inimigos entre os seus compatriotas, e a
agitao poltica exercia um efeito negativo crescente sobre a situao financeira da nao. Todos os aspectos comerciais estavam a
ser afectados, e tanto Gabrielle como os outros comerciantes de
seda comearam a recear pelos seus mercados.
  mile chegou  casa da Rue Clmont para passar a Pscoa. Os
dias estavam invulgarmente quentes e ensolarados, o cu azul e
lmpido. Tratou de arranjar um passeio de barco pelo rio, seguido de
um piquenique, para Gabrielle. Hlne e a sua filha, Juliette, acompanharam-nos. A sada ajudou Gabrielle a deixar de pensar em
Henri e Marcel e na forma como estariam a decorrer as coisas na
Feira de Leipzig. O entusiasmo de Juliette era contagiante e o dia
decorreu sem preocupao.
  - Jogue s escondidas comigo - implorou a pequena, dirigindo-se a mile quando o piquenique terminou. Gostava muito de
mile, que, ao contrrio de Henri, era simptico para ela.
  - Muito bem - concordou ele. - Tu e a tua mam vo esconder-se primeiro enquanto eu conto at dez. A tia Gabrielle fica ali a
descansar debaixo das rvores.
  Hlne no conseguiu aguentar o jogo por muito tempo,
achando-o demasiado cansativo. Ao v-la aproximar-se com as
faces rosadas devido ao exerccio e o cabelo em desordem, Gabrielle reparou como ela era bonita e tinha um ar jovem. Mais do que
uma vez desejara que a sua cunhada deixasse de se vestir de preto e
esquecesse Jules. J era tempo de deixar sarar as feridas.
  - Ah! Assim  melhor - disse Hlne, deixando-se cair sobre
a manta onde Gabrielle estava sentada. - Quem diria que havia de
estar tanto calor nesta poca do ano.
  -  verdade, est anormalmente quente.
  Depois de conversarem um pouco, enquanto olhavam o rio que
corna brilhante, Gabrielle resolveu abordar com muito tacto o assunto do luto. Hlne escutou-a com ateno, brincando com uma
florzinha silvestre que arrancara da relva.
  - Quando sentir que chegou a altura prpria, deixarei de usar o
preto - disse por fim.
  Gabrielle compreendeu. O luto de Hlne era o nico elo que a
unia ao homem que ainda amava. Isto recordou a Gabrielle que a ela

no lhe restava nada que a unisse ao homem que desaparecera da sua
vida.
  Henri regressou de Leipzig extremamente ufano. Ao contrrio
do previsto, os clientes alemes no se sentiram intimidados com o
imposto que fora fixado sobre os produtos importados e disputaram
entre si os pedidos de encomendas. Gabrielle ficou muito aliviada.
Embora Henri reivindicasse para si todo o mrito, Marcel informou-a de que as suas maravilhosas sedas se tinham praticamente vendido por si.
  Depois, nos primeiros dias de Maio, como um aviso agoirento,
chegaram notcias de Npoles. Uma estranha geada tinha morto os
bichos-da-seda e destrudo quase todas as amoreiras. Ao mesmo
tempo, comeou a chover por todo o Sul e Centro de Frana.
  Em Lyon, devido s chuvadas contnuas, as valetas pareciam
rios. Chuvas torrenciais ensopavam as amoreiras e tornavam a apanha impossvel.
  Os bichos-da-seda estavam a incubar e no havia hiptese de
satisfazer o seu apetite devorador. Pouco tempo depois, o vale do
Rdano ficou inundado e continuava a chover.
  O rudo de uma carruagem apressada fez com que Gabrielle se
aproximasse da janela a tempo de ver mile saltar l de dentro e
entrar em casa a correr. Apressou-se a ir ter com ele. Pelo seu ar
transtornado, adivinhou que as notcias eram ms.
  - A colheita perdeu-se completamente! - exclamou ele. - As
amoreiras foram atacadas por uma doena.
  - Oh, no! - disse Gabrielle, angustiada. A doena era uma
catstrofe temida por todos os plantadores. O tempo excepcionalmente mau devia ter criado condies favorveis  sua proliferao. - Que vais fazer? Achas que podes 
mandar vir folhas de outros
stios?
  - No percebeste. A praga prolifera por todo o lado.
  Gabrielle deixou-se cair numa cadeira, completamente aturdida.
  - Tens a certeza?
  mile confirmou, desconsolado.
  - Observei ontem os primeiros sinais de aviso. Dentro de um ou
dois dias, correr a notcia de que este ano no haver colheita de
folhas de amoreira em Frana. Vim avisar-te. Tens de comprar toda
a seda crua que conseguires encontrar.
  Os pensamentos atropelavam-se na cabea de Gabrielle. Do crdito deixado por Dominique retiraria a quantia necessria. Precisava de convocar os seus advogados 
e um representante do banco. Tinha de enviar agentes para comprarem em seu nome e, no menos
importante, de pedir a Hlne que empreendesse uma misso vital.

A rvore do Ouro 241

  - Vou comear a actuar j! - Pondo-se de p de um salto,
vacilou e quase caiu.
  mile correu a ampar-la.
  - Devagar. Lembra-te do teu estado!

  Gabrielle respirou fundo.
  - No me esqueo. Estou a pensar nos nossos teceles, nas suas
famlias e nas crianas deles que esto para nascer. Ns no passaremos dificuldades, mas se eu no conseguir assegurar a quantidade
de seda necessria, eles podem morrer  fome.
  Comeou a enviar mensagens escritas atravs de empregados
seus, no que era ajudada por Henri, que, agora que a Maison Roche
enfrentava a ameaa de grandes perdas financeiras, actuava com
muito mais rapidez do que ultimamente era costume. As repercusses da praga que atingira a rvore do ouro seriam devastadoras para
toda a comunidade de teceles lioneses. Embora a Maison Roche
estivesse em condies de resistir  catstrofe, o mesmo no acontecia com a maior parte dos comerciantes de seda, e a bancarrota
seria inevitvel para muitos. Era como se o sangue que corria nas
veias de Lyon estivesse em riscos de secar.
  Na primeira oportunidade, Gabrielle saiu do escritrio e foi procurar Hlne. Encontrou-a na cozinha supervisionando os preparativos para o jantar.  porta da 
copa, sem perigo de ser ouvida, contou-lhe o que se passava e explicou-lhe o que queria que ela fizesse.
  Hlne, embora intrigada, respondeu de imediato:
  - Vou j e a p. Assim, atraio menos as atenes do que chegando ao meu destino numa carruagem Roche.
  - Fico-te muito grata. - Gabrielle abraou-a. - s a nica
pessoa a quem eu podia pedir uma coisa destas. Agora, tenho que
voltar ao trabalho!
  Regressou ao escritrio e pouco tempo depois foi anunciada a
chegada dos seus advogados e de um representante do banco. Trataram de tudo como ela queria. Foram enviadas cartas de crdito aos
seus agentes, que partiriam de Lyon assim que as tivessem na mo.
Henri tambm foi investido da autoridade necessria para comprar
seda crua. Assim que os advogados e o representante do banco
saram, ele desceu, pronto para partir para Gnova.
  - Boa sorte, Henri - desejou Gabrielle.
  - No te preocupes - respondeu ele, complacente. - O pai e
eu costumvamos comprar a este plantador e ele no deve ter-se
esquecido de que eu era um bom cliente.
  A carruagem ps-se a caminho e em pouco tempo ultrapassou
Hlne, que achou pouco provvel que o cunhado a tivesse visto.
Era estranha a tarefa de que fora incumbida e no podia negar que se
sentia um pouco' atemorizada. Se precisasse de uma prova acerca
dos sentimentos de Gabrielle em relao a Nicolas Devaux, tinha-a
agora.
  O rudo dos teares que se fazia ouvir nas imediaes da fbrica
Devaux significava que a ausncia de Nicolas no interferira no
ritmo de trabalho. Preferiu dirigir-se  porta da casa. Bateu com a
pesada aldraba e pouco depois apareceu uma criada.
  - Queria falar com o administrador de Monsieur Devaux, Monsieur Piat. Por favor, diga-lhe que  um assunto urgente.
  - Com certeza, madame. O seu nome, por favor?
  - Di-lo-ei a Monsieur Piat.
  No teve que esperar muito tempo, visto que o homem apareceu

vindo de um pequeno ptio interior. Era alto, de cabelos castanho-claros, e o seu rosto, embora magro e srio, no era antiptico.
Todo o seu porte demonstrava autoridade e determinao. Na opinio de Hlne, teria cerca de quarenta anos.
  - Sou Hlne Roche, cunhada de Madame Gabrielle Valmont.
Preciso de falar-lhe de um assunto extremamente confidencial.
  - Venha por aqui, madame. - Conduziu-a at a uma sala e,
depois de se sentarem, perguntou: - Ento, qual  o assunto sobre
o qual me quer falar?
  - Em primeiro lugar, quero que me d a sua palavra de que
Monsieur Devaux nunca vir a saber que eu estive aqui hoje, a pedido da minha cunhada.
  - O meu patro  presentemente o capito Devaux dos chasseurs  cheval. Enquanto ele estiver ausente, sou inteiramente responsvel pelos seus interesses. No posso 
dar-lhe tal garantia enquanto no souber do que se trata.
  Hlne comeou nervosamente:
  - A boa vontade da minha cunhada  a responsvel pela minha
presena aqui. Ela pediu-me que o avisasse de que este ano haver
muito pouca ou nenhuma colheita de folhas de amoreira. Uma ternvel praga espalhou-se por todo o lado. Madame Valmont no quer
que o senhor perca a oportunidade de comprar seda crua em nome
de Monsieur ... do capito Devaux enquanto  tempo. Por favor,
acredite e aja com rapidez.
  Ele olhou-a, surpreendido.

A rvore do Ouro 243

  - Acredito. Felizmente, o meu patro foi suficientemente previdente para cobrir qualquer imprevisto que ocorresse durante a sua
ausncia. Comprou toda a seda crua que conseguiu antes de deixar
Lyon. Tenho provises para um ano.
  Hlne deixou entrever um doce sorriso.
  - Fico muito contente com isso.
  Ele tambm sorriu.
  - Por favor, agradea a Madame Valmont a ateno.
  Ela inclinou-se, esboando um pedido.
  - No h razo para mencionar ao capito Devaux esta visita,
pois no? A minha cunhada insistiu tanto!
  Michel Piat respondeu sem hesitar:
  - Nada direi.
  Hlne ficou satisfeita por ter conseguido obter a promessa que
Gabrielle tanto desejava. Levantou-se.
  - No lhe tomo mais tempo.
  - Foi um prazer conhec-la. - Dirigiu-se para a porta, que
segurou para ela passar. - No conheo o seu marido, embora o
tenha visto na Feira de Leipzig.
  O olhar de Hlne endureceu-se.
  - Deve estar a falar do meu cunhado, Henri Roche. O meu
marido morreu em Austerlitz.
  S nessa altura ele reparou que, por baixo da capa negra, o vestido, sapatos e luvas indicavam a perda.
  - As minhas condolncias, madame - disse, olhando-a de
forma diferente, compassiva. - Perdi tambm a minha adorada

esposa, Elyanne, pouco antes de vir para Lyon. Receio ter-lhe causado agora a si alguma mgoa, embora involuntariamente.
  Hlne sentiu uma sbita empatia com este homem, que tinha
passado por uma dor semelhante  sua.
  - Por favor, no pense mais nisso. Tem filhos, Monsieur Piat?
  - No, no tenho. E a senhora?
  - Tenho uma filha, Juliette. Tem agora cinco anos.
  -  uma idade maravilhosa. Ela deve ser uma grande consolao para si.
  -  verdade. Passamos bons momentos juntas. - Quis saber
mais acerca da sua vida. - Instalou-se de vez em Lyon? Gosta da
nossa cidade?
  - Gosto imenso. Ainda no a conheo bem. Sente-se outra vez,
se tem tempo disponvel. Nasceu em Lyon?
  Hlne falou sobre si e ele por sua vez contou-lhe a sua vida em
Paris, onde trabalhara tambm com Nicolas Devaux. Falou acerca
da sua casa e inevitavelmente acerca da mulher, sobretudo da forma
corajosa como ela soubera enfrentar a doena.
  - Elyanne insistiu que eu no deveria usar luto por sua causa.
Queria que eu olhasse para o futuro e que no me refugiasse no
passado. Escusado ser dizer que no  por isso que me lembro
menos dela.
  Hlne franziu a testa numa expresso pensativa.
  - Penso que Jules no quereria que eu usasse luto durante muito
tempo. No entanto, sinto um certo conforto em us-lo.
  - Talvez seja uma defesa. - Ele percebeu que a tinha surpreendido.
  Hlne j pensara nisso, mas era a primeira vez que algum a
obrigava a confrontar-se com a verdade. Com o luto, mantinha-se
isolada num casulo, chorando o seu amor passado, a salvo de qualquer outro sofrimento.
  - No  estranho? - disse em tom sonhador. - Vim aqui hoje
para o ajudar e em vez disso acho que o senhor  que me ajudou.
  - Prefiro pensar que nos ajudmos mutuamente.
  O olhar que trocaram dir-se-ia vindo de muito longe. Hlne
levantou-se de novo e despediu-se, ainda espantada com o rumo que
aquele encontro tinha tomado.
  - Adieu, Monsieur Piat. Desejo-lhe as maiores felicidades.
  - Adieu, Madame Roche. Espero voltar a v-la brevemente.
  No regresso a casa, Hlne pensou bastante em tudo o que fora
dito. J na Rue Clmont, relatou a Gabrielle os pormenores da sua
ida  fbrica Devaux, tendo reparado na forma como a cunhada contraiu os maxilares quando soube que Nicolas tinha provises de seda
crua para um ano. Era obviamente um grande alvio para ela.
  Mais tarde, j no quarto, Gabrielle maravilhou-se com o esprito
previdente de Nicolas, que o levara a abastecer os seus armazns de
forma a poder enfrentar qualquer emergncia. O investimento devia
ter sido enorme, mas Nicolas tinha com certeza muita confiana em
Monsieur Piat e na sua capacidade para gerir o negcio. Gostaria de
conhec-lo. Hlne dissera muito bem dele.


  AS NOTCIAS correram de manh. Apenas as casas Roche e Devaux permaneciam afastadas da confuso que eclodiu por toda a
cidade. Os comerciantes de seda disputavam entre si de forma violenta a seda crua ainda disponvel. Muitos fabricantes previam o
encerramento das suas fbricas e a falncia. Os vinte e trs dias de
chuva ininterrupta foram para a indstria de seda de Lyon uma calamidade to grande como a provocada pela Revoluo dezassete
anos antes. Houve ainda mais consternao quando se soube que
uma grande quantidade de seda crua italiana desaparecera sem deixar rasto antes mesmo de sair do seu pas de origem. Parecia que no
tinham fim as desgraas que caam sobre Lyon.
  Henri, contudo, regressou de Gnova com trs vages de seda
crua para a fbrica Roche. Voltava novamente cheio de presuno.
Poderia ter explicado aos seus compatriotas lioneses para onde fora
a seda crua desaparecida. Com a colaborao dos seus contactos em
Gnova, a seda tinha sado ilegalmente do pas, e a transaco enchera-lhe secretamente os bolsos de dinheiro.
  Quanto a Gabrielle, a juntar ao que Henri e os seus agentes tinham conseguido comprar, ficara com um razovel fornecimento
de seda de mile. Estava grata a seu marido pelo facto de lha ter dispensado a si, quando a poderia ter vendido em qualquer parte a preos exorbitantes. Em resumo, 
Gabrielle confiava que iria conseguir
manter os postos de trabalho dos seus teceles, apesar dos tempos
difceis que viviam, e cumprir os prazos de entrega das encomendas
da Feira de Leipzig.

  NiCoLAs s no fim do Vero tomou conhecimento do que estava
a passar-se em Lyon. Era pouca a correspondncia de Paris que chegava  Pennsula Ibrica e considerou-se um homem de sorte por
receber finalmente uma carta de Michel Piat.
  Nicolas sentou-se debaixo de uma laranjeira, sob um sol escaldante, com o casaco do uniforme aberto e a camisa encharcada de
suor. Ansioso, quebrou o selo e comeou a ler a carta. Era a primeira
comunicao recebida do seu administrador. Nela, Piat fazia um
breve resumo dos assuntos com interesse.
   medida que lia, ia-se apercebendo de que as atribulaes da
Grande Fabrique no tinham qualquer importncia quando comparadas com os horrores da guerra na qual se encontrava envolvido.
De toda a carta apenas uma passagem lhe chamou a ateno.
??Madame Valmont arranjou seda suficiente para conseguir enfrentar a crise.?? Recordando o instante em que a tivera nos seus braos
na tenda de Napoleo, irrompeu nele o desejo por Gabrielle.
  Dobrou lentamente a carta. Sonhava por vezes com Gabrielle.
Amava-a. O pior de tudo  que provavelmente no voltaria a v-la.
  - Capito Devaux, a sua nova montada est pronta.
  Perdido nos seus pensamentos, no dera conta do barulho de um
cavalo que se aproximara. Apercebeu-se de imediato de que se tratava de um belo animal de pescoo arqueado, cabea inteligente e

flancos possantes. Estava arreado com a sua sela e manta e Nicolas
sorriu enquanto guardava a carta no bolso e apertava os botes prateados do casaco.
  Levantou-se. O novo cavalo iria chamar-se Guerreiro, tal como
o anterior, que fora atingido por um tiro quando ele o montava. Deu
umas palmadinhas no pescoo bem tratado de Guerreiro.
  - Bom trabalho, sargento - disse, satisfeito. Montou e dirigiu-se para a zona onde antes existira a via principal que atravessava a aldeia e onde a brigada acampava 
h j alguns dias. Era um
local pobre, tal como a maioria das aldeias rsticas, e nem uma
nica casota escapara ilesa. H muito que os habitantes tinham fugido.
  Nicolas olhou  sua volta enquanto avanava em passo vagaroso.
Erguia-se fumo das fogueiras do acampamento, onde galinhas roubadas, aves selvagens e pedaos de carne apodrecida assavam no
espeto. Pairava no ar um intenso cheiro a sabo vindo da rea das
lavagens, onde as mulheres dos soldados e outras acompanhantes
lavavam a roupa. O exrcito dependia da colaborao de um grupo
heterogneo de valentes mulheres que tratavam dos doentes e dos
feridos. Nicolas tinha grande considerao por elas. Vida totalmente diferente era a das mulheres dos oficiais, afastadas das zonas
de perigo, desfrutando de uma agradvel vida social em Madrid e
Sevilha e noutras cidades consideradas seguras.
  Nicolas sentiu um grande alvio ao deparar com a sombra de
umas quantas laranjeiras j nos arredores da aldeia. Tudo era calmo
e silencioso, longe do rebulio do acampamento. O terror e a beleza
coexistiam por toda a Pennsula. O brilho magnfico da paisagem
nunca deixava de o maravilhar, mas em contraste existiam as aldeias e vilas em runas e os despojos deixados nos campos de batalha. Sentia-se por todo o lado o cheiro 
da morte. Era raro conseguir-se respirar o aroma puro das flores sem estar envenenado por
aquele odor repugnante.
  Nicolas achava por vezes difcil acreditar ter sido em tempos um
jovem entusiasta que se juntara ao exrcito de Napoleo depois de
ter fugido de Lyon com os seus pais. Nessa altura, assumira uma atitude temerria e impulsiva em relao  vida militar, seguindo um
chefe que representava a promessa de uma Frana gloriosa e engrandecida. Presentemente, o amor pelo seu pas era to forte como
antigamente, mas a guerra tinha modificado a sua opinio em muitos aspectos. No se tratava de uma luta entre soldados. Neste conflito, eram apanhados homens, mulheres 
e crianas inocentes porque a Pennsula inteira se erguera contra aqueles que considerava
serem opressores estrangeiros.
  Nicolas no ficou convencido com o facto de Bonaparte afirmar

que fora necessrio invadir Portugal para fechar os ltimos portos
europeus ao comrcio ingls. Percebera que era um artifcio atravs
do qual o imperador tencionava anexar a Pennsula. Embora reconhecesse que o governo de Napoleo tinha devolvido  Frana a sua
grandeza, via nele agora um homem intoxicado pelo poder, pronto
para esmagar os desejos de naes inteiras a fim de aumentar o seu
imprio. Os princpios da liberdade e igualdade tinham sido esquecidos pelo prprio homem que outrora os defendera.
  Nicolas guardava estas opinies s para si. Se as divulgasse,
seria posta em dvida a sua lealdade para com a bandeira tricolor e
esta mantinha-se inalterada. Faria tudo o que estivesse ao seu alcance pelo pas. Se isso significasse a sua morte, que assim fosse.
Desiludido, regressou por entre as runas da aldeia.



CAPTULO OITO

EM LYoN, nessa manh, Gabrielle comeou a sentir dores de rins.
Por volta do meio da tarde, mile foi avisado por um mensageiro de
que ela tinha entrado em trabalho de parto. Partiu para a cidade de
imediato. Agora que chegara a hora, sentia-se cheio de receios.
  mile no estava preparado para enfrentar a expresso de dor
que se lia nos olhos de Gabrielle. Sentiu-se de sbito esmagado por
uma sensao de impotncia e inutilidade. No podia fazer nada
para aliviar o sofrimento de sua mulher. Apesar de tudo conseguiu
pronunciar umas palavras de encorajamento antes de Hlne lhe
tocar no brao.
  - Penso que agora  melhor sares - disse com muito tacto.
  mile sentiu-se aliviado, mas ao mesmo tempo perdido, sem
saber como passar o tempo. Durante um bocado, vagueou pela casa,
estremecendo de cada vez que ouvia os gritos que Gabrielle no
conseguia conter. Depois, saiu e foi passear at ao rio, indo por uma
ponte e regressando por outra. Bebeu um copo de vinho num caf e
mais tarde jantou num restaurante. Era quase meia-noite quando
voltou para casa. Quando entrou no hall, chegou-lhe aos ouvidos
um longo gemido agonizante vindo do quarto de Gabrielle.
  - Santo Deus! - Estava plido. - Ainda no acabou?
  - Ainda no, monsieur. - O criado segurou-lhe na bengala e no
chapu. - O mdico veio h cerca de duas horas.
  Cheio de apreenso, mile dirigiu-se ao salo azul, onde se sentou com a inteno de ficar  espera. Foi a noite mais longa da sua
vida. Chorou com o sofrimento de Gabrielle. No entanto, para sua
vergonha, adormeceu.
  Uma mo abanou-o. Era Hlne.

  - mile! Acorda! - Abriu os olhos e reparou que a sala se encontrava inundada pelo sol matinal. De um salto, ps-se em p e em
pnico perguntou:
  - Que  que sucedeu?
  Hlne, com os olhos encovados pelo cansao, sorria-lhe.
  - Tens um filho. Um belo rapaz com fortes pulmes. Gabrielle
est exausta, mas vai recuperar rapidamente.
  mile no cabia em si de alegria. Com a excitao, pegou em
Hlne ao colo e levantou-a no ar. Depois, correu para junto de
Gabrielle, galgando os degraus dois a dois. Gabrielle, plida, de
olhos fechados, estava deitada numa cama acabada de fazer, com os
cabelos escovados e brilhantes. Voltou a cabea quando mile entrou no quarto e, levantando a mo em sua direco, sorriu ao reparar na expresso enlevada de seu 
marido. mile agarrou-lhe a mo
e cobriu-a de beijos.
  - Minha adorada mulher. - A voz tremia-lhe e as lgrimas
corriam-lhe pela face. - Se alguma coisa te sucedesse ...
  - Chiu. - Gabrielle limpou-lhe as lgrimas com as pontas dos
dedos. - Estou aqui. Estarei sempre aqui. No queres ver o teu filho?
  mile voltou-se para o bero, dentro do qual dormia um beb de
rosto avermelhado.
  - O meu clice de felicidade est a transbordar, meu filho -- disse baixinho.
  Gabrielle, ao v-lo, sentiu-se contente por lhe ter dado tamanha
felicidade. Mais do que nunca se sentia grata pelo facto de mile
no ter a mais leve suspeita de que o amor por que ansiava tinha sido

A rvore do Ouro 249

dado a outro homem. Atravs do filho recm-nascido, encontrara
uma forma de compensar mile pela sua incapacidade de lhe entregar o corao.

  Ao sEs foi dado o nome de Andr, em homenagem ao pai de
mile. Para madrinha foi naturalmente escolhida Hlne, que a
todos surpreendeu no dia do baptizado ao aparecer pela primeira
vez vestida de cinzento-claro. Gabrielle, depositando o filho nos
braos da cunhada, sorriu de admirao.
  - Ests maravilhosa.
  -  em honra do teu filho.  altura de comear vida nova.
  Gabrielle e mile beijaram-na e, pegando na mo de Juliette,
dirigiram-se para a carruagem que os esperava. Hlne e o resto do
grupo seguiram-nos. Juliette no parava de olhar para trs, encantada com o novo aspecto de sua me. Era quase como se uma varinha de condo a tivesse transformado.
  Fiel  sua palavra, Gabrielle deixou a Rue Clmont logo que o
mdico a considerou apta a viajar. A sirgaria no estava completamente parada, visto que algumas amoreiras tinham escapado 
praga. Fizeram-se segundas colheitas noutros locais, sobretudo em

Itlia, mas raramente o produto era posto  venda. Corriam rumores
acerca do seu embarque para Inglaterra, em direco s fbricas de
tecelagem de Macclesfield. Temia-se que os Ingleses se apropriassem de mercados que os Lioneses dificilmente recuperariam.
  Como se no tivesse sofrido j o suficiente, Lyon foi confrontada com outro golpe. Pela necessidade urgente de preservar as reservas econmicas russas, o czar 
proibiu a importao de todos os
artigos de luxo. Por toda a cidade, os comerciantes de seda, incluindo Gabrielle, no seu retiro campestre, receberam o cancelamento das encomendas russas feitas 
em Leipzig. Aqueles que
haviam arriscado tudo para comprar seda crua, de modo a poderem
satisfazer essas encomendas, encontravam-se em maus lenis.
  Por essa altura, Madame Hoinville provara j que era uma excelente representante. Duas vezes por semana ia ao encontro de Gabrielle para lhe expor assuntos de 
trabalho, incluindo os novos desenhos de Marcel, que submetia  sua aprovao. De um modo geral,
Gabrielle controlava toda a situao; gostaria, no entanto, de estar
mais perto de Henri, que apenas se correspondia com ela.
  mile nunca se sentira to feliz. O seu filho, um beb saudvel e
bonacheiro, crescia a olhos vistos - e ao lado de Gabrielle levava uma vida calma, que nada podia ameaar de novo. Para lhe fazer
uma surpresa, montou um escritrio para ela ao lado do seu, o que a
encantou.
  Numa visita?espordica a Lyon, nos primeiros meses do novo
ano de 1811, Gabrielle viu a misria e o sofrimento em que viviam
os desempregados. H muitos anos que no havia tantos pedintes
nas ruas. Por toda a parte se viam fbricas encerradas e oficinas de
tecelagem silenciosas. A sua e as poucas que se encontravam ainda
em laborao eram diariamente cercadas por trabalhadores esfomeados e doentes.
  Ao longo de todo aquele perodo, Hlne distribuiu comida,
comprada com o seu prprio dinheiro, aos que tinham filhos e que se
encontravam em situao mais crtica. Uma vez, j na Primavera,
Michel Piat encontrou-a quando ela saa de uma casa em Croix-Rousse, no muito longe da fbrica Devaux.
  - Madame Roche! Que prazer inesperado. Como est?
  Hlne voltou-se com uma expresso surpresa.
  - Monsieur Piat! Estou ptima e extremamente feliz por este
terrvel Inverno estar a acabar. Deus queira que no volte a haver
tanto sofrimento!
  - Concordo inteiramente. H pelo menos indcios de que as
amoreiras recuperaram o suficiente para permitir uma colheita razovel.
  -  verdade, ainda bem. Continua muito ocupado na fbrica?
  - Sempre. A maioria das nossas encomendas eram alems, e
no russas. Ressentimo-nos menos com a deciso do czar do que a
maioria das fbricas. Como se tem sado a sua cunhada?

  - Perdeu uma grande quantidade de encomendas russas, mas
todos os seus teares continuam a funcionar em pleno.
  - Ainda bem. - Fez uma pausa. - Uma vez que est to perto,
gostaria de ir ver a fbrica Devaux?
  Hlne j fizera a ltima visita do dia.
  - Com todo o gosto.
  Percorreram juntos toda a fbrica, visto que ela demonstrava um
interesse natural e muito feminino pela beleza da seda. Hlne parou junto de um tear onde estava a ser tecido um delicado padro de
rosas selvagens em seda para vesturio - rosa-plido e verde sobre
um fundo creme.
  - H muito tempo que no via um tecido to maravilhoso -- disse, entusiasmada. - Tm um desenhador com muito talento.

A rvore do Ouro 251

  - Pensamos o mesmo.
  Depois da visita, tomaram caf numa encantadora sala coberta
de damasco verde e branco, cujo padro representava folhas de
acanto. Michel descreveu a Hlne a forma como Nicolas tinha restaurado a casa depois do seu regresso a Lyon, empregando algumas
das primeiras sedas tecidas nos seus teares Jacquard. Teria poupado
qualquer outra mulher  descrio dos efeitos nefastos da guerra,
mas a Hlne contou:
  - Recebi na semana passada uma carta do capito Devaux. Na
altura em que a escreveu, ainda se encontrava nos aquartelamentos
de Inverno. Neste momento, e de acordo com notcias recentes, o
combate desesperado recomeou de novo.
  Hlne empalideceu.
  - A guerra  obscena, Monsieur Piat. No vejo nela qualquer
glria. Aceitei a paixo que o meu querido marido nutria pelo Exrcito e partilhei com ele o seu amor ardente pela Frana, mas de cada
vez que o via partir sabia que, mesmo que eu tivesse a sorte de o
voltar a ter, haveria muitas outras mulheres menos afortunadas.
Rezo sempre pela paz. - Olhou de repente para a chvena vazia que
tinha no colo. - Estou a falar demais. Posso beber outro caf?
  Michel Piat sentia-se cada vez mais atrado por Hlne e o dilogo versou diversos temas.
  Duas semanas depois, enviou-lhe um convite para jantar. Ela
aceitou e a noite foi muito agradvel, visto que Michel era um excelente anfitrio. At que no primeiro dia ensolarado de Primavera,
Hlne ps finalmente de parte o luto aliviado. Conservava ao lado
da cama um retrato em miniatura de Jules, para o qual olhava todas
as manhs, mas a ferida tinha finalmente sarado.
  A modista havia-lhe entregue uma dzia de vestidos novos, trs
dos quais de seda Roche, um em vermelho Pompeia, um em ouro
velho e outro cor de safira. Decidiu vestir o dourado para o baile que

se iria realizar para festejar o nascimento do filho de Napoleo. A
onda de jbilo nacional foi um pouco ensombrada pelas notcias
recentes de que Massena, marechal de Napoleo, se vira obrigado a
retirar de Portugal. Mas o pressentimento geral era o de que a bonana voltaria. Sobretudo no devia permitir-se que alguma coisa
pudesse estragar o baile de Lyon, que era uma demonstrao de
lealdade para com o imperador.
  Estava planeado que o baile encerraria com um fogo-de-artifcio
muito elaborado. mile e Gabrielle vinham a Lyon expressamente
para a festa, deixando o seu vigoroso beb de nove meses entregue
aos cuidados de uma ama devotada. Henri, que ia  festa juntamente com Yvonne, fez os seus prprios planos. Combinara recentemente encontrar-se com Brouchier num 
caf e dera-lhe algumas
instrues em voz baixa. Uma bolsa com moedas de ouro foi sub-repticiamente passada por baixo da mesa onde se encontravam e
outro tanto foi prometido para quando a tarefa do espio terminasse.
  A partida de Nicolas Devaux para a Pennsula no fizera com
que Henri desistisse de varrer a seda Devaux da face de Lyon. O que
no esperava  que o nascimento de um herdeiro imperial pudesse
ser providencial para a consecuo deste acto final de vingana.
Parecia que tanto ele como o imperador tinham esperado o mesmo
nmero de anos para atingir um objectivo especial.
  A noite do baile estava calma e quente, perfumada pelo aroma
dos lilases.
  Ao entrarem no salo acompanhadas por mile, Gabrielle com
um vestido de seda cor de cobre e Hlne de dourado eram vises de
beleza e elegncia. Quando comeou a dana, Michel Piat dirigiu-se a Hlne com uma pequena vnia.
  - Penso que esta dana  minha, Hlne.
  Hlne prometera-lhe a primeira dana aquando do ltimo encontro, altura em que comearam a tratar-se pelo primeiro nome.
Havia muita segurana na forma como Michel lhe tomou a mo e a
guiou nos passos de dana. Hlne sentiu-se curiosamente leve,
quase como se estivesse a valsar no ar.
  Para Gabrielle, o momento alto da noite foi conhecer o administrador de Nicolas. Hlne apresentou-lho quando regressavam do
terrao. Hlne e o par de Gabrielle estavam comprometidos para a
dana seguinte, uma gavotte, e assim Gabrielle e Michel tiveram a
oportunidade de conversar a ss. Como era inevitvel, falaram da
seda e das dificuldades do ltimo Inverno. Ento, Gabrielle perguntou aquilo que desde o princpio desejava saber.
  - Espero que o capito Devaux no tenha sofrido nada durante
os combates. - Com a respirao suspensa, estava consciente de
que deveria conter-se caso ouvisse a notcia de que ele fora ferido.
  - Que eu saiba, no - respondeu Michel. Continuou a conversar, relatando-lhe o contedo da nica carta que tinha recebido,

embora no de forma to pormenorizada como o fizera a Hlne.
  A gavotte terminara no salo de baile. Quando Gabrielle foi
reclamada para nova dana, Michel encostou-se a um dos pilares da varanda e observou Hlne por entre a multido rodopiante de danarinos. Esperava, feliz, pela 
prxima dana, altura em que teria a
oportunidade de lhe segurar de novo a mo. No terrao, dera-lhe a
conhecer os seus sentimentos e contara-lhe os projectos que tinha
para o futuro. No fora sua inteno declarar-se-lhe to cedo, mas a
noite tinha criado uma ligao especial entre os dois. Nunca pensara encontrar outra mulher por quem voltasse a apaixonar-se.
  No fim da noite, quando todos se concentravam nos terraos para
verem o fogo-de-artifcio, Michel encontrava-se junto dos Valmonts. Apenas mile, sempre distante, fazia com que ele se sentisse
pouco  vontade.
  - Ohhh! Ahhh! - Os sons elevavam-se da multido  medida
que o fogo-de-artifcio subia no ar e explodia em minsculas estrelas multicores, iluminando os edifcios e os rostos de todos os presentes. As exibies mais espectaculares 
eram premiadas com
aplausos. O cu encontrava-se repleto de estrelas de prata que se
desvaneciam, quando subitamente um outro claro surgiu vindo da
direco de Croix-Rousse.
  - Fogo! Olhem, h fogo!
  Michel ficou logo preocupado. Dirigiu-se a Gabrielle.
  - Madame, eu vim a p. Seria possvel pedir-lhe emprestada a
sua carruagem para ir ver o que se passa? Pode nem ser perto da
nossa fbrica, mas tenho de me certificar.
  - Com certeza. Vou ver se encontro Gaston. Ele leva-o l num
instante. - Seguida por Michel e Hlne, abriu caminho por entre
a multido. Os trs deixaram apressadamente o terrao e percorreram o caminho que ia dar ao ptio.
  - Gaston! Gaston! - Gabrielle tentava fazer-se ouvir acima do
barulho das vozes e das exploses do fogo-de-artifcio.
  Gaston ouviu-a e separou-se do grupo junto do qual observava o
crescer das chamas.
  - Madame?
  - Leve Monsieur Piat  fbrica Devaux o mais rapidamente
possvel.
  - Sim, madame. Ento, j est confirmado?
  - Que  que quer dizer?
  - Passou aqui uma pessoa a dizer que o fogo parecia ser na
fbrica Devaux.
  Gabrielle nunca soube explicar como entrou na carruagem com
Michel. No foi uma deciso consciente, antes um acto instintivo,
que a levava a tentar o que fosse possvel para salvar o patrimnio
Devaux. Hlne conseguiu subir tambm e l foram aos safanes,
enquanto Gaston os conduzia a galope pelas ruas.
  Tinha-se juntado uma multido no princpio da rua e por isso
foram obrigados a descer a. Michel gemeu em voz alta com o espectculo que se lhes deparou. A fbrica Devaux totalmente em

chamas, o fumo negro elevando-se por cima dos telhados. Precipitou-se pelo meio dos espectadores, empurrando-os com os ombros
para abrir caminho. Como um urso, Gaston abriu os braos de modo
a envolver Gabrielle e Hlne, e assim, aos trambolhes, seguiram
Michel.
  Fazia-se um enorme esforo para salvar a residncia Devaux,
assim como as casas altas que se situavam do outro lado da fbrica.
Formaram-se vrias cadeias de pessoas que se estendiam ao longo
de toda a rua at  conduta de gua mais prxima e iam passando
baldes. Gabrielle correu a tomar lugar na cadeia que levava gua at
 casa de Nicolas, a qual se encontrava j em chamas, pois os andares superiores tinham sido atingidos por fagulhas provenientes do
telhado da fbrica. Gaston juntou-se aos que tentavam pr a moblia a salvo e Hlne ajudou a transportar os objectos mais leves.
Michel precipitou-se em direco  casa, na tentativa de salvar alguns dos seus bens, mas o fumo invadiu-lhe os pulmes, obrigando-o a recuar, sufocado. Gritavam-lhe 
que retrocedesse. Chegou ao
hall a tempo de ver, atravs das portas abertas, o incio da destruio do salo verde e branco, as chamas consumindo o seu interior,
do soalho at ao tecto.
  Teve apenas tempo de pegar num embrulho que ali deixara nessa
manh antes de ser agarrado pela grande mo de Gaston, que o
empurrou para a rua, atordoado e a tossir, pelo meio dos pedaos de
madeira em chamas que tombavam. Havia uma fagulha nos seus
cabelos que Hlne correu a apagar com as prprias mos. Michel
quase no a via por causa do ardor que sentia nos olhos, mas lanou-lhe os braos  volta do pescoo, com a certeza de que Hlne seria
dele para o resto da vida.
  mile no tinha reparado que Gabrielle abandonara o terrao
juntamente com Hlne e, imperturbvel, continuava a assistir ao
fogo-de-artifcio. S quando acabou a exibio  que soube da partida apressada de Gabrielle e de Hlne e qual a razo. Algo pareceu estalar na sua cabea, libertando 
todo o rancor que ele pensava
ter esquecido para sempre. Ao mesmo tempo, cresceu dentro de si
uma fria contra Gabrielle. Ento, ela tivera a ousadia de o abandonar para ir a correr para a fbrica Devaux?
  Tremia de raiva quando atravessou o ptio  procura de uma
carruagem de aluguer, que no tardou a aparecer.
  - Depressa! - ordenou ao condutor. - H um incndio na
Croix-Rousse. Deve ser na fbrica Devaux. V o mais depressa que
puder!
  Recostou-se nos bancos, que cheiravam a mofo, e tentou libertar-se do desespero que o assaltava. Todos estes meses alimentara a
iluso de que havia conquistado finalmente o amor de Gabrielle. A
sua prpria felicidade impedira-o de perceber que aquilo que mais
desejava nela pertencia a outro homem.
  Arremessando-se para a frente, bateu com o punho na divisria
que o separava do condutor.

  - Mais depressa! Est a ouvir? Eu disse mais depressa!
  A carruagem levou-o at onde era possvel. Quando chegaram,
mile saltou, atirou o dinheiro ao condutor e correu em direco 
multido. Encontrava-se na extremidade sul da zona sinistrada,
perto das casas altas, que estavam em chamas que se haviam propagado atravs da fbrica, a qual se achava totalmente destruda.
Conseguiu aperceber-se de que a residncia Devaux tambm estava
toda a arder. De repente, por entre o fumo, avistou Gabrielle.
  Em p, ao lado de Gaston, parecia exausta. Encontrava-se 
frente da multido, no outro extremo da rua, e olhava tristemente
para a casa Devaux, que o fogo consumia. Tinha o vestido rasgado e
o rosto coberto de fuligem, o brilho da gargantilha de ouro parecia
uma incongruncia.
  mile lanou-se sobre o cordo de polcia, empurrando furiosamente todos quantos lhe barravam o caminho.
  - Mais devagar, monsieur. No pode ir para a frente daqueles
edifcios.
  mile olhou para o polcia com ar desesperado.
  - Deixe-me passar! A minha mulher est daquele lado! -- Apontou para Gabrielle, que, pelo canto do olho, se tinha apercebido do tumulto. - Ela est  minha espera, 
no v? - Dizendo
isto, precipitou-se para a frente e desatou a correr pela zona desimpedida da rua, possudo de uma raiva cinzinenta.
  Ao v-lo aproximar-se correndo sobre o pavimento enlameado,
uma silhueta escura iluminada pelo claro das chamas, Gabrielle
deu um passo em frente. mile viu, embora incrdulo, que o olhar
dela era de alvio e alegria por v-lo. Sorria-lhe e acenava de modo
que ele no a perdesse de vista no meio da confuso.
  Aquele sorriso foi-lhe direito ao corao e a raiva esmoreceu.
Talvez se tivesse enganado. Talvez no se tivesse passado nada.
Ento, de repente, a expresso de Gabrielle alterou-se, o terror estampou-se-lhe no rosto. Esboou um movimento como se pretendesse correr na direco dele, de braos 
estendidos, mas Gaston
agarrou-a e puxou-a para trs. Instintivamente, ele apercebeu-se do
que iria acontecer. Os que lutavam contra as chamas dispersavam-se, correndo, em pnico total. Ouviam-se gritos misturados com
um rudo ensurdecedor quando toda a fachada da fbrica comeou a
ceder e a desintegrar-se em tijolos quentes, madeiras incandescentes e cinzas. As centelhas em cascata eram mais brilhantes do que
qualquer fogo-de-artifcio.
  Gabrielle gritou como se ela prpria estivesse a morrer. Gaston
comprimiu o rosto dela contra o seu ombro, poupando-lhe a viso da
morte de mile, instantnea, mas terrvel.

  GABRIELLE suportou a perda com grande dignidade. O funeral

teve lugar no pequeno cemitrio da vila prxima da sirgaria. Durante a missa, foram feitas oraes especiais pelas outras duas vtimas do incndio. Em seguida, a 
famlia e os amigos dirigiram-se 
residncia Valmont para uma refeio ligeira.
  Depois de todos sarem, Gabrielle foi sentar-se junto do seu filho, que dormia no bero. Todos os seus pensamentos se concentravam em mile.
  Quanto a Henri, depressa esqueceu o desgosto e rapidamente
voltou a agir como se nada tivesse acontecido. Tudo estava finalmente a passar-se de acordo com os seus desejos. Depois do incndio, no existia um nico tear Devaux 
em Lyon.
  Henri tinha ainda outra razo para se sentir aliviado. Brouchier
no aparecera a reclamar o resto do pagamento pelo trabalho bem
feito e decidira prudentemente sair de Lyon at que todas as investigaes sobre o incndio terminassem.
  Por causa do incndio, a situao de Michel e Hlne atingiu um
impasse. Os planos que ele lhe expusera no dia do baile, no terrao,
tinham desaparecido nas chamas. At que o seu futuro estivesse de
novo garantido, no se sentia em posio de propor casamento a
Hlne. Esta suportou a desiluso em silncio.
  Michel parecia ser o nico a no acreditar que o incndio tivesse sido provocado pelo fogo-de-artifcio. De manh, percorrera as runas ainda fumegantes. Constatou 
que o fogo havia comeado no
andar superior, mas que as chamas se tinham propagado, em segundos, at s salas dos teares. Continuou desconfiado, mesmo depois
de ter sido encontrado um foguete queimado entre as pedras da calada numa rua prxima. Michel escreveu a Nicolas pondo-o ao corrente do incndio, e o prefeito de 
Lyon acedeu a usar a sua influncia no sentido de a carta ser enviada pelo correio militar, de modo a
assegurar a sua chegada.
  Visto que Gabrielle no vinha a Lyon, Madame Hoinville retomou as suas visitas  quinta. De cada vez que se encontravam,
Gabrielle parecia-lhe mais magra e plida, e Madame Hoinville
reparou que ela apenas se interessava pelos assuntos da sirgaria.
  Gabrielle contratou Michel para a ajudar na sirgaria e em breve
o considerou insubstituvel. A colheita era a nica coisa com que se
podia contar, em resultado do desastre do ano anterior, e no foi
encontrada qualquer doena nas larvas dos casulos substitudos que
mile havia comprado por um preo elevado. As suas finanas tinham ficado num estado lastimoso, o que a levou a imaginar todas
as preocupaes que o seu marido tivera.
  Hlne sentia-se cada vez mais preocupada com Gabrielle. Parecia que mile a dominava mais depois de morrer do que enquanto
vivera. A causa residia na confisso que Gabrielle deixara escapar
por entre as lgrimas do seu desgosto na noite do incndio. Hlne,
rodeando-a com os braos na tentativa de a confortar, confirmou

aquilo que j tinha adivinhado.
  - Ele estava l por minha causa! - As lgrimas brotavam dos
seus belos olhos. - Vi a expresso do seu olhar naqueles ltimos
segundos. Li-lhe alegria nos olhos ao ver-me.
  De novo os soluos a invadiram.
  - Lembra-te sempre disto. - Hlne embalava-a como se de
um beb se tratasse. - Que te sirva de consolo. mile nunca te
culparia pelo que aconteceu.
  O conselho no foi no entanto escutado. Gabrielle s se descontraa quando embalava Andr nos seus braos e tratava dele, por
vezes cantando-lhe lindas canes de embalar. S assim se libertava da tenso em que vivia.
  Dois meses depois da morte de mile, Gabrielle desmaiou. Encontrava-se num dos barraces quando, de repente, se dobrou sobre
si prpria e caiu sem emitir um som. O primeiro a encontr-la foi

A Arvore do Ouro 259

Michel, que a carregou nos braos at casa. Chamaram Hlne, e
quando esta chegou o Dr. Jaunet j l estava.
  - Porque  que Madame Valmont no tem comido?
  - Sabia que ela andava com pouco apetite, mas pensei que, com
o tempo, voltaria ao normal.
  - Com o tempo! Valha-me Deus, madame. A subnutrio 
mais do que falta de apetite. Agora tem de a obrigar a comer, mesmo
que tenha de lhe enfiar a comida na boca, como se faz aos bebs.
  Hlne, j experiente a tratar de doentes, desempenhou com
grande eficcia as funes de enfermeira e em breve Gabrielle
comeou a recuperar. Mas, contrariamente quilo que Hlne esperava, quando se sentiu com foras para recomear a trabalhar, Gabrielle continuou apenas preocupada 
com a sirgaria. No foi uma
nica vez a Lyon visitar a fbrica ou a sala de desenho. Todos os
seus esforos se concentravam na seda crua.
  Hlne teve de regressar  Rua Clmont devido a uma srie de
compromissos.
  - Porque  que no vens passar uns dias comigo a Lyon? -- sugeriu a Gabrielle. - Podias inteirar-te dos negcios.
  Estavam sentadas no terrao na tarde perfumada enquanto
Andr e Juliette dormiam.
  Gabrielle afastou uma madeixa de cabelo que lhe cara para a
testa.
  - Gostaria muito de ir, mas tenho aqui muito que fazer.
  - J pensaste em vender a sirgaria?
  Gabrielle suspirou ao de leve.
  - No momento, no h compradores para sirgarias em dificuldades.
  Hlne leu-lhe os pensamentos.
  - Ento, iro passar-se ainda muitos anos antes de voltares a
fazer aquilo de que mais gostas?
  Gabrielle manteve uma expresso vaga.
  - Sim,  isso mesmo.
  Ento, de sbito, todas as suas defesas se desmoronaram. Levantou-se, deu uns passos rpidos at  ponta do terrao e de p, olhando o jardim j escuro, disse:

  - Para que hei-de fingir contigo? s para mim mais do que uma
irm. Eu detesto isto!
  - Ento, porque  que ficas? - indagou Hlne, espantada.
  - Tenho de ficar. - Gabrielle continuava a olhar para longe, as mos cerradas com fora. - No podes imaginar o que foi para mim
ter de rejeitar o amor de Nicolas. Foi como se tivesse negado a
prpria vida. O regresso a Lyon iria fazer-me reviver todos os
momentos que ali passmos juntos. Aqui, sou a viva de mile e
Nicolas est longe de mim, na Pennsula. - A voz tremia-lhe de
desespero. - Em Lyon, ele voltaria a instalar-se no meu corao.
- Baixou a cabea, cobrindo o rosto com as mos.
  Hlne aproximou-se.
  - Perdoa-me. No quis ser indiscreta. Agi de forma impensada
e desagradvel.
  Gabrielle levantou a cabea e deu o brao a Hlne.
  - Nunca digas isso. Tu s incapaz de ser desagradvel. Tinha
que te explicar porque no posso voltar a Lyon. Sinto-me aliviada
por te ter contado.
  Na manh seguinte, Hlne e Juliette partiram acompanhadas
por Michel, que tinha afazeres na cidade. Hlne, depois de acomodar Juliette no banco a seu lado, perguntou a Michel:
  - Quando escreveu a Nicolas, na altura do incndio, p-lo ao
corrente do falecimento de mile?
  - No. Disse-lhe que tinha havido trs acidentes mortais, mas a
maior parte da carta foi para o informar sobre problemas respeitantes a seguros, etc. Enviei posteriormente outra carta com o nome dos
falecidos.
  - Queira Deus que ele a receba - disse Hlne quase em surdina.
  Quando chegou  Rua Clmont, Hlne constatou que Henri e
Yvonne tinham renovado, de forma extravagante, as moblias dos
seus aposentos; alm disso, haviam-se apropriado do grande salo,
onde os clientes importantes eram recebidos. Ali, as paredes tinham
sido redecoradas com brocado brilhante, vermelho-alaranjado, com
malmequeres.
  - Que achas da mudana? - perguntou Henri com um movimento expansivo do brao enquanto a conduzia at ao salo.
  Cansada e coberta de p da viagem, Hlne franziu o sobrolho de
forma inquiridora.
  - Pensava que Gabrielle tinha adiado este tipo de despesas at
a situao do negcio melhorar.
  - Agora quem manda sou eu. A partir do momento em que a
minha irm decidiu enterrar-se no campo, sou eu que tomo todas as
decises. - Depois, vendo que Hlne se preparava para se retirar,

A rvore do Ouro 261

acrescentou: -  verdade, tenho ainda mais uma coisa para te dizer. De futuro, v se no deixas que a tua filha corra pela casa toda.
Yvonne fica incomodada.
  Hlne parou e olhou para ele atnita.

  - Juliette nunca invadiu a privacidade dos vossos aposentos.
  - No, mas agradecia-te que a conservasses nos teus aposentos
sempre que estiver em casa. Vais reparar que na tua ausncia foram
feitas algumas alteraes, para alm das efectuadas neste salo.
Pensmos que era disparatado no usufruirmos de toda a casa, agora
que parece pouco provvel que Gabrielle volte a viver aqui. Yvonne
contratou uma nova governanta com quem combinar os menus
dirios, por isso no precisas de te sentir obrigada a tomar parte no
governo da casa.
  - Nunca considerei essa tarefa como uma obrigao. Sempre
considerei esta casa como minha desde o dia em que aqui entrei
recm-casada.
  - Calculo que sim, mas vers que as coisas se modificaram.
  Furiosa, Hlne entrou nos seus aposentos, onde veio a descobrir que Yvonne havia retirado vrias peas do mobilirio. Fechou
a porta, pensativa. H algum tempo, dissera a Gabrielle que deixaria
a Rua Clmont quando achasse oportuno, e agora Henri e Yvonne
tinham-lhe demonstrado que j no a queriam debaixo do mesmo
tecto.
  Infelizmente, no momento presente, a sua sada no era conveniente. Os planos de Michel no eram ainda seguros. Ele concorrera
a lugares que estavam mais de acordo com as suas capacidades do
que a sirgaria. Quando arranjasse colocao, casariam e teriam a
sua prpria casa. Entretanto, tinha que aguentar aquela situao.

  J HAVIAM comeado os dias mais frios do Outono quando Hlne recebeu uma mensagem de Madame Hoinville informando-a
de que desejava v-la na fbrica Roche. Juliette ficou com uma das
dobadeiras enquanto Hlne foi ao escritrio de Madame Hoinville.
  - Obrigada por ter vindo, Madame Roche. Tinha muita urgncia em v-la.
  - Deve saber que no tenho qualquer ligao com o negcio.

  - Claro que sei, mas  amiga de Madame Valmont. Tenho que
pedir-lhe que faa tudo o que estiver ao seu alcance para persuadi-la a regressar a Lyon. Estou convencida de que esto a tra-la pelas
costas.
  Hlne ficou espantada.
  - Explique-se, por favor.
  - Tm sido desviadas para parte incerta encomendas de grande
valor que deveriam ser encaminhadas para esta fbrica. Um cliente
estrangeiro devolveu-nos uma pea de brocado com defeito. Era
apenas uma imperfeio minscula, mas que se repetia ao longo de
toda a pea, que havia sido muito dispendiosa. Fui compar-la com
um padro que tinha sido executado com o mesmo fio tingido e
supostamente com o mesmo tear. Percebi imediatamente que ela
no provinha daqui, embora o padro fosse exclusivo da Maison
Roche.

  - Porque no conta tudo isso a Madame Valmont? A nica
coisa que tem a fazer  mostrar-lhe a pea e o padro. Tem a uma
prova concreta.
  Madame Hoinville suspirou.
  - Isso  impossvel. A pea defeituosa desapareceu da prateleira sem que eu desse por isso.
  - Sabe quem a tirou de l?
  - Disseram-me. No fizeram qualquer segredo.  muito vulgar
venderem-se as peas rejeitadas. Se se fizesse um inqurito, no me
surpreenderia se me dissessem que o comprador era um estrangeiro
que passou por Lyon e que desapareceu sem deixar rasto.
  - Trata-se de um assunto de extrema gravidade. Insisto que
conte a minha cunhada tudo aquilo que acabou de me dizer.
  - No posso, madame! - Madame Hoinville respirou fundo. -- No posso acusar o irmo de Madame Valmont sem ter uma prova
palpvel. Sim, foi Monsieur Roche quem levou a pea de brocado.
  Hlne deixou Lyon no dia seguinte para ir ter com Gabrielle.
Logo que chegou, contou-lhe tudo o que soubera por intermdio de
Madame Hoinville. Embora Gabrielle estivesse sentada a ouvi-la
com as mos pousadas no colo, os seus olhos tristes fitavam o jardim
para l da janela. Finalmente, voltou-se para Hlne.
  -  de facto impossvel escapar ao destino. Afinal, parece que
tenho de regressar a Lyon. No vou permitir que o patrimnio do
meu filho seja alienado por causa das trapaas de Henri. Partirei
hoje mesmo.
  Hlne ajudou-a a fazer as malas. Tornou-se claro que Gabrielle
no ia levar vesturio de luto. Ao fim da tarde, todos os mveis se
encontravam cobertos com lenis, os objectos de valor estavam
embalados para serem levados para a Rua Clmont e as persianas fechadas. Fora chamado um agente para tratar da venda da sirgaria,
que ficaria sob a administrao de Michel at mudar de mos.
  No momento da partida, Gabrielle foi a ltima a deixar a casa
onde entrara recm-casada. Demorou-se uns instantes no hall, agora silencioso.
  - Adeus, querido mile - disse baixinho. Depois, voltou-se e
saiu de casa, fechando a porta atrs de si.
  Quando chegou  Rua Clmont, acompanhada por Hlne e
Andr, constatou que Henri e Yvonne tinham organizado uma
soire musical no salo.
  - No interrompas a festa - disse ao criado que lhes abriu a
porta. - Quero apenas que te certifiques de que toda a bagagem 
descarregada rapidamente e informa a governanta da nossa chegada. Podes levar um tabuleiro com o jantar ao meu escritrio. Vou
para l trabalhar.
  - Hum ... um momento, madame. Monsieur Roche mudou-se
para o escritrio da senhora j h vrias semanas.
  - Ai, sim? - Gabrielle ergueu as sobrancelhas. - No faz mal.
Agora  meu outra vez e  l que me encontras.
  Quando passou pelo antigo escritrio de Henri, viu as suas coisas amontoadas como se estivessem prontas para ser guardadas. Ao
entrar nos seus domnios, reparou que o irmo se tinha instalado ali

como se fosse dono e senhor de tudo aquilo, a enorme secretria que
fora em tempos do pai, o conjunto de tinteiro de prata e mata-borro e a cadeira de couro. Estavam ali tambm todos os ficheiros.

  Calculando que Henri no daria pela sua chegada seno dali a
duas horas, comeou a passar em revista os ficheiros. Trouxeram  -lhe o jantar num tabuleiro. Mordiscou qualquer coisa sem dar sequer conta do que estava a comer. 
As fichas teimavam em no revelar qualquer prova incriminatria. Tudo estava na mais perfeita
  ordem.
  Era meia-noite quando os convidados partiram. Ento, tal como
  esperava, ouviu uns passos pesados que se encaminhavam na sua
direco e Henri irrompeu no escritrio.
  - Que ests aqui a fazer?
  Ela olhou-o de frente.
  - Voltei para ficar, Henri.
  - Ento e a sirgaria?
  - est  venda. Tudo o que ela render ser bem-vindo na presente altura. Os cofres da Maison Roche esto quase vazios.
  Henri olhou em redor do escritrio.
  - Os ficheiros estavam todos fechados. No tinhas o direito de
mexer em papis nenhuns sem minha autorizao.
  - Ento, foi" imprudente da tua parte teres deixado as chaves no
meu escritrio. No tenhas medo, porque no mexi em nada que no
se relacionasse com a seda Roche e para isso no preciso de pedir
licena.
  - Ests satisfeita com o que viste? - Toda a sua atitude revelava agressividade, dando a impresso de que lhe bateria se a sua
resposta no fosse afirmativa.
  Ela apontou para o que tinha estado a ler.
  - Est tudo meticulosamente registado nestes livros. No h
qualquer falha.
  - Uma vez que ests decidida a trabalhar aqui - disse ele -,
gostaria de levar a minha secretria e outras coisas para o meu antigo escritrio imediatamente. Os ficheiros podem aqui ficar.
  Gabrielle arrumou os papis que tinha na sua frente.
  - Acho que vou para a cama. A mudana da moblia pode esperar at amanh.
  - No, no pode. - Afastou uma cadeira como se estivesse
preparado para levantar a secretria sem ajuda, se necessrio. -- Amanh pretendo comear a trabalhar sem obstculos.
  Quando Gabrielle se retirou, Henri chamou alguns criados para
efectuarem a mudana.
  Naquela noite, enquanto se arranjava para se deitar, Gabrielle
reflectiu sobre o que se passara com Henri. Os seus modos fanfarres, a falsa bonomia demonstrada em situaes difceis, os ares
pomposos a que se dava, sempre a tinham levado a pensar que ele
seria incapaz de provocar danos fsicos a ela ou a qualquer outra
pessoa. Mas nessa noite alguma coisa o tinha desesperado. O pnico
que demonstrara ao encontr-la no escritrio era um indcio de que

ali se encontravam provas que o poderiam incriminar.
  De sbito, algo surgiu na sua memria. Recordou o seu pai, sentado  secretria que era agora de Henri. Uma vez, em criana, tinha
entrado no escritrio na altura em que o pai procurava um papel que
no estava no lugar. Ele no a vira entrar e ficou muito zangado
quando levantou os olhos e a viu ali de p. Deu um salto da cadeira
para a pr  pressa dali para fora e voltou a fechar a porta. Tinha
finalmente uma pista sobre o local onde procurar aquilo que a fizera
regressar  Rua Clmont.

A rvore do Ouro 265

  Desceu rapidamente ao escritrio de Henri. A porta no estava
fechada  chave. Pondo o candeeiro em cima da secretria, sentou-se e retirou a pequena gaveta do meio. A seguir deparou com outra
abertura. Depois de tactear alguns minutos, encontrou a lngueta de
uma gaveta secreta e soltou-a. A gaveta deslizou e,  luz da lanterna,
constatou que se encontrava atulhada de papis.
  Com as mos a tremer, comeou a examin-los. No tardou a
descobrir que Henri tinha, nas imediaes de Lyon, a sua prpria
fbrica, com o mesmo nome, fundada pouco tempo depois de a
Maison Roche ter passado para as mos dela. Desde essa altura,
Henri desviara encomendas inteiras, registando-as nos seus ficheiros, e no nos da Maison Roche. Era impossvel estimar, ainda que
por alto, quantos milhares de francos haviam sido desviados da
Maison Roche pelo seu irmo.
  Subitamente, a porta abriu-se de par em par. Era Henri, em
roupo, de p, o rosto congestionado de fria.
  - Sua bisbilhoteira miservel!
  Lanou-se sobre Gabrielle, apertando-lhe o pescoo e sacudindo-a. Sob a presso dos seus dedos, ela no conseguia gritar, mas
apenas emitir sons guturais. A raiva de Henri era incontrolvel.
Gabrielle conseguiu aflorar com os dedos o pesado tinteiro de prata.
Agarrou-o e tentou desferir uma pancada com ele; tinta e areia escorreram pelo seu brao e por cima de seu irmo. Agarrados um ao
outro, cambalearam pela sala.
  - Henri! - O grito de Yvonne chegou vindo da porta.
  Henri libertou Gabrielle, que caiu no cho. A seguir, atirou-se
para cima de uma cadeira e comeou a soluar. Gabrielle teve conscincia da tentativa de Yvonne para ampar-la e ajud-la a retomar
o flego. Depois, apareceu Hlne, acordada pelos berros de Henri.
Correu, ajoelhou-se junto de Gabrielle e, amparando-a com o brao,

limpou-lhe o rosto com um leno. Toda ela estava coberta de tinta,
desde os cabelos at  camisa de noite, e o soalho encontrava-se
coberto de areia. A seguir, Hlne deu-lhe a beber um pouco de
conhaque.
  - D tambm um copo a Henri - ordenou Hlne a Yvonne.
  - Que  que aconteceu? - perguntou Yvonne com voz aguda.
  Henri fitou-a com um ar velhaco e depois desviou o olhar.
  - Gabrielle descobriu que eu tinha um negociozinho paralelo.
  - s um tolo! Podias ter-te desligado da Maison Roche e montado uma fbrica tua se tivesses querido.
  Ele deu um salto da cadeira.
  - Com os teus hbitos extravagantes que outra hiptese podia
eu ter? As tuas dvidas h anos que so uma corda  volta do meu
pescoo.
  - Ento, a culpada sou eu? - Abanou a cabea com ar trocista.
- E o teu jogo? Nunca ganhaste nada. Foi por isso mesmo que o teu
pai no te deixou a Maison Roche.
  Henri atingiu-a com um soco e continuou a bater-lhe como se de
repente tivesse sido dominado por um novo acesso de loucura.
Yvonne, estendida no cho, gritava. Hlne largou Gabrielle na
tentativa de intervir, mas Henri sacudiu-a com violncia, gritando:
  - No te metas nisto!
  Nessa altura, Gabrielle conseguiu pr-se de p e tentou chegar
aos cordes da campainha para chamar ajuda, mas antes de ela o
conseguir Henri parou o ataque to abruptamente como tinha comeado. Ficou de p junto de Yvonne, que continuava estendida no
cho, gemendo.
  - No quero saber mais de ti! - vociferou. - Desaparece da
minha vista e desta casa, hoje mesmo!
  Dito isto, deu meia volta e investiu como um touro em direco
 porta. Gabrielle postou-se  sua frente, de braos abertos, impedindo-lhe a sada.
  - s tu quem vai sair esta noite, Henri. Sempre soube que eras
um rufio e um cobarde, mas nunca pensei que chegasses to longe.
  Henri no fez qualquer tentativa para afast-la do seu caminho.
  - No podes pr-me fora de minha casa - vociferou. - Eu
nasci aqui.
  - Esta casa era tua e s-lo-ia at ao fim dos teus dias se no
tivesses feito o que fizeste. Agora, ela pertence a Andr. Sou somente tutora dele e ningum neste mundo vai prejudicar os seus
interesses, nem mesmo o meu irmo. - Gabrielle sentia-se agoniada com a presena dele. - Agora vai, Henri. Desapaream os
dois e no voltem mais  Rua Clmont. - Deixou cair os braos e
encostou-se  parede para deix-lo passar.
  Henri olhou-a fixamente com os lbios repuxados sobre os dentes num esgar de vingana.
  - Amaldioada sejas tu e as tuas manias de grandeza. Sempre
tive pena de mile por te ter como mulher. Houve sempre um espio
a seguir os teus encontros secretos com Devaux. Tenho quase a certeza de que mile morreu sem saber se era ou no o pai do teu filho!

A rvore do Ouro 267

  Gabrielle, que j no se sentia bem com tudo o que se passara,
teve que se agarrar com fora  parede para no cair.

  - Vai-te embora, Henri! - repetiu com os lbios descorados.

- Vai!
  Bufando de satisfao pelo que tinha acabado de fazer, Henri
saiu em passos largos. Gabrielle, sem conseguir pronunciar uma
nica palavra, olhou para Hlne, que estava de p, imvel como
uma esttua, chocada pelas palavras cruis que Henri dirigira  sua
prpria irm. Gabrielle tentou falar por duas vezes, mas a voz parecia ter-lhe desaparecido com o choque sofrido pela ? revelao.



CAPTULO NOVE

GABRIELLE, elegante no seu vestido de seda cor de tangerina, com
um alfinete de ouro no pescoo, recebeu uma visita muito importante no grande salo. Monsieur Morard, da Mobilier Imprial, um
distinto cavalheiro de cabelos grisalhos, que atravessou a sala para
lhe beijar a mo.
  - Sinto-me muito honrado, Madame Valmont. Desde que vi o
seu stand na exposio de Lyon que sou um grande admirador das
sedas Roche.
  - Sinto-me encantada por sab-lo. Por favor, sente-se, Monsieur Morard, e permita-me que lhe oferea uma bebida.
  Ele explicou-lhe ento o motivo da sua visita.
  - O imperador decidiu que o Palcio de Versalhes, que tem sido
pouco usado desde a Revoluo, altura em que os seus belos sales
foram destrudos, vai ser completamente restaurado. A Mobilier
Imprial est interessada em encomendar-lhe seda para vrios dos
sales.
  Gabrielle corou de excitao com o que finalmente estava a
acontecer. Mas de sbito a alegria ensombrou-se.
  - Ser que recebo esta encomenda pelo facto de a Maison Devaux j no se encontrar em laborao?
  - Nem pensar nisso - apressou-se o homem a afianar-lhe. -- Como h muitas divises em Versalhes, estamos a fazer encomendas a outras fbricas de renome em Lyon. 
Se a Maison Devaux no
tivesse ardido, tambm seria certamente contactada. O imperador
pretende que este palcio seja o mais grandioso do Mundo.
  - Terei muito orgulho em contribuir para tal empreendimento.
  Gabrielle mostrou-lhe depois uma vasta coleco de padres
requintados, muitos dos quais incluam a abelha imperial. Monsieur
Morard escolheu alguns para apresentar  comisso encarregada de
fazer a seleco final.
  - No demoraremos muito a contact-la - disse ao sair.
  Quando a carruagem se afastou, Gabrielle riu de alegria e foi 
procura de Hlne. As boas notcias condiziam com a atmosfera que
se respirava na casa, agora que Henri e Yvonne tinham sado.
  Henri partira s primeiras horas da manh que se seguira quela
noite terrvel. Yvonne teve licena para ficar at que os ferimentos
sarassem, mas, mal recebeu uma carta de Henri, dez dias depois,

levantou-se da cama, fez a mala, chamou uma carruagem e foi-se
embora.
  Juliette brincava de novo por toda a casa e Andr, que dava os
seus primeiros passos, seguia-a sempre que podia. Era como uma
irm para ele e Hlne, que tratava de Andr at Gabrielle chegar a
casa, era como uma segunda me. Foi Hlne quem conseguiu tornar suportvel a vida de Gabrielle depois da terrvel revelao feita
por Henri.
  - No deixes que as palavras malvadas proferidas pelo teu irmo manchem a memria de mile - dissera-lhe no dia seguinte.
- Recordo mile quando Andr nasceu. Nunca vi um homem to
feliz. E quanto  paternidade, no havia a mais pequena dvida no
seu esprito. Disse-me mais do que uma vez: ??No meu filho revejo
o meu pai.??
  Gabrielle sentiu-se muito grata por Hlne lhe restabelecer a
confiana. Abriu com um gesto largo a porta da sala da sua cunhada, encontrando-a sentada  escrivaninha a escrever.
  -1'r-l-l! Aconteceu! A seda Roche vai para Versalhes!
  Hlne pousou a caneta e bateu palmas.
  - Parabns! Que maravilha!
  Gabrielle atirou-se para cima de um sof e contou, em pormenor,
tudo o que se passara, dizendo que os seus receios de vencer  custa
de Nicolas no tinham qualquer fundamento.
  - Isso era para mim o mais importante - confessou com ar
srio.
  - Acredito que sim.
  Gabrielle, com olhar sonhador, deixou pender a cabea sobre as
costas do sof.
  - Vivo para o dia do seu regresso, Hlne. Voltar a Lyon provocou em mim tudo aquilo que eu previa. Embora guarde ainda
comigo o passado, vivo para o futuro, no s o meu, com as minhas
saudades de Nicolas, mas o do meu filho e o da Maison Roche.
  - J escreveste a Nicolas?
  - No. No tenho coragem. Se lhe escrevo e no recebo resposta, no tenho hiptese de saber se ele me escreveu ou no, o que
para mim seria um tormento pior ainda. Quando nos voltarmos a
ver, tudo ficar bem, tenho a certeza. - A expresso do seu rosto
irradiava esperana e confiana. - Tenho a certeza de que Nicolas
vai sair ileso da Guerra Peninsular. Sinto-o no mais profundo do
meu ser.
  - Rezo para que isso acontea - disse Hlne com sinceridade.
  Nessa mesma semana, a sirgaria foi vendida por um preo muito
superior quele que Gabrielle esperava. Parecia que, finalmente, a
bonana sucedia  tempestade. Michel regressara a Lyon e aceitou
o cargo de administrador da Maison Roche, em substituio de
Henri.
  - Sinto-me honrado - disse, entusiasmado. - Trabalhei para
uma grande fbrica de Lyon e agora vou trabalhar para outra.
  Sem perda de tempo, procurou Hlne a fim de a pr a par da sua
nova situao. De mos estendidas, Hlne correu ao seu encontro,
excitada.
  - Que notcia maravilhosa - exclamou ela.

  - Significa que agora podemos planear o nosso futuro. -- Michel beijou-a com ternura. - Podemos marcar a data do casamento assim que conseguirmos arranjar uma 
casa.
  - Gostava de continuar aqui por mais algum tempo - disse ela.
-  uma grande ajuda para Gabrielle saber que Andr est devidamente acompanhado quando ela est ocupada. Alm disso, quando
chegarem as encomendas da Mobilier Imprial, tu e ela no vo ter
um minuto livre. - Sorrindo ternamente, passou-lhe os braos 
volta do pescoo. - De qualquer das maneiras, no quero esperar
pela compra de uma casa para casar. Que seja o mais rapidamente
possvel.
  - Amanh? - perguntou ele, brincalho.
  - Depois de amanh - respondeu Hlne muito sria.
   cerimnia civil, seguiu-se o casamento religioso na Igreja de
  St.-Nizier. S estiveram presentes alguns amigos ntimos. A noiva
  levava um vestido de seda Devaux confeccionado com a seda creme
  com rosas de um tom muito suave que ela admirara aquando da visita efectuada  fbrica Devaux. Michel conseguira retirar das chamas uma pea intacta. Para Gabrielle, 
o maravilhoso vestido era
como que uma ba?deira hasteada em honra de uma casa que se ergueria de novo.
  Os noivos partiram em lua-de-mel para a vila piscatria de Antibes, na costa mediterrnica. Gabrielle teve, entretanto, excelentes
notcias da Mobilier Imprial. Foram-lhe encomendados os tecidos
para oito divises de Versalhes, incluindo um escritrio para o prprio imperador. Esta encomenda maravilhosa compreendia cortinados, reposteiros e tapearias. Sozinha 
no seu escritrio, Gabrielle
danava, agarrada  carta, como uma criana. Os seus teares
reluziriam com tramas e urdiduras nas cores imperiais e brilhariam
com os fil e fris dourados que iriam tornar a Maison Roche conhecida em todo o Mundo.
  Quando Michel e Hlne regressaram, j ela estava a receber
amostras de combinaes de tintas. Michel tomou conta das suas
novas tarefas sem esforo, como se sempre tivesse estado ao servio
da Maison Roche. Uma manh, quando se encontrava na fbrica,
recebeu uma carta. Depois de a ler, regressou  Rua Clmont para ir
ter com a sua mulher.
  - Pensei que era melhor seres tu a dar a notcia a Gabrielle.
  Ela acedeu tristemente.
  - Vou imediatamente.
  Hlne dirigiu-se  sala de desenho, onde encontrou Gabrielle
empoleirada num banco alto ao lado de Marcel. Esperou at Gabrielle, reparando na carta e adivinhando pela sua expresso grave
que se tratava de um assunto srio, vir ter com ela.
  - Vamos para o salo azul - disse Hlne, dando meia volta.
  - Espera! - Gabrielle agarrou-a por um brao, a voz rouca de
ansiedade. - Nicolas morreu?
  Hlne sentiu-se angustiada.
  - No! Nem sequer foi ferido. - Passou um brao  volta da
cintura de Gabrielle.

  - Mas so ms notcias, no so?
  - Temo que sim. - O rosto de Hlne transbordava de compaixo. - Michel teve notcias de Nicolas. Uma coisa  certa. Embora tenha recebido a carta que Michel lhe 
enviou informando-o do
incndio, a outra, que dizia que eras viva, nunca l chegou.
  - Como sabes isso?
  - Por duas razes. Em primeiro lugar, porque, no ltimo pargrafo, Nicolas manda cumprimentos a Monsieur e Madame Valmont.
  A expresso de Gabrielle no se alterou.
  - E a segunda razo?
  - Ps  venda o terreno da Maison Devaux e esclareceu que no
tenciona regressar a Lyon.
  - Impossvel. No posso acreditar nisso! - Gabrielle levou as
mos  cabea. - Se a paz for restabelecida amanh, nada o impede
de ir para qualquer stio distante, e eu posso nunca mais o encontrar.
  Hlne tentou anim-la.
  - A guerra na Pennsula est longe do fim, o que nos d o tempo
de que necessitamos. Temos de arranjar maneira de lhe fazer chegar
uma mensagem.
  - O tempo para as cartas, mensagens e esperas terminou. Se eu
partir, tomas conta de Andr? No o deixo a mais ningum.

  - Nem precisas de pedir. Adoro tomar conta dele. Tu bem sabes. - Hlne franziu a testa. - Mas onde vais?
  Na expresso de Gabrielle transparecia uma determinao impaciente.
  - Vou ter com Nicolas! Prometi-lhe um dia que, se alguma vez
voltasse a ser livre, iria ter com ele. Esse dia chegou.
  - No podes! Nenhuma mulher pode viajar sozinha para uma
zona de guerra!
  - No irei sozinha. Gaston ir comigo, tenho a certeza. Ele  um
velho cavalo de batalha e estou certa de que ficar encantado com a
oportunidade. - Comeou a delinear um plano. - Acho que consigo chegar a Ciudad Rodrigo por volta do Natal. No haver combates nessa altura. As tropas de ambos 
os lados estaro recolhidas
nos acampamentos de Inverno. Poderei passar pelo menos uma ou
duas semanas com Nicolas antes de regressar. - De sbito, os seus
olhos marejaram-se de lgrimas. - O mais difcil de suportar ser
ter de me separar de Andr. Vou ter imensas saudades dele e ele
minhas.
  - Ento, no vs, por favor. - A voz de Hlne vacilou. -- Peo-te.
  - Tenho de ir. S agora percebo porque  que o destino me fez
regressar a Lyon. Est a ser-me dada a ltima oportunidade de partilhar a minha vida com o homem que amo.
  Depois disto, Hlne no conseguiu encontrar mais nenhum
argumento para a dissuadir.
  CONto GABRIELLE calculara, Gaston no hesitou quando lhe fez o
pedido. Sem perguntar porqu, quis apenas saber quando tencionava ela partir.
  - O mais de?ressa possvel - respondeu.
  - D-me apenas dois dias, madame, para que possa escolher os

cavalos e arranjar mantimentos.
  O seu primeiro passo foi informar-se acerca da prxima partida
de reforos locais. Apurou que um comboio de mercadorias sairia,
sob escolta militar, na madrugada do dia seguinte. O seu destino era
Salamanca, que ficava no percurso para Ciudad Rodrigo. Assim,
teriam de percorrer apenas alguns quilmetros sem a proteco das
foras francesas.
  Depois de comunicar a Gabrielle que deveria estar preparada
mais cedo do que o previsto, Gaston passou o resto do dia e uma
grande parte da noite a trabalhar.
  Gabrielle dera-lhe dinheiro para todas as despesas necessrias.
Rapidamente fez uma lista de tudo quanto precisavam: um culo pequeno, cantis para gua, ferraduras, martelo e pregos, chaleiras, panelas, acendalhas, faca e machadinho, 
comida que pudesse ser conservada. Havia tambm raes para os cavalos, o seu mosquete,
uma clava, pistolas e munies, cobertores e vesturio suplementar.
  Deixaram a Rua Clmont um pouco antes de amanhecer, levando atrs um cavalo de carga. O ltimo gesto de Gabrielle, depois
de se despedir da cunhada, foi beijar o filho, que dormia.
  Para a viagem, Gabrielle resolvera vestir um fato de montar
quente e confortvel, com a bainha cortada a direito, j bastante fora
de moda, e com perneiras por baixo. Levava um chapu preto liso de
abas e uma capa impermevel. Gaston, por seu lado, ia tambm
vestido de forma prtica: um casaco de couro, calas grossas, um
capote e um velho chapu de feltro vermelho enterrado at s orelhas. Passavam facilmente por um casal de agricultores.
  Quando chegaram  caserna, Gaston fez parar os cavalos e ficaram  espera. Em breve, comearam a surgir os oficiais a cavalo,
soldados a p e carroas carregadas de munies e outro material,
avanando com um rudo de cascos e de rodas sobre o pavimento.
Gabrielle e Gaston juntaram-se s mulheres e outros acompanhantes que seguiam na retaguarda. J o cu clareava quando o comboio
atravessou a grande e espaosa Place Bellecour. Os primeiros raios
de sol de Inverno tocavam os topos dos campanrios mais altos nas
encostas da cidade que ficava para trs.

A rvore do Ouro 273

  Contrariamente ao que esperava, Gabrielle no chegaria a Ciudad Rodrigo no Natal. A medida que os dias iam passando, interrogava-se se a sua vida no teria sido 
apenas aquela. Ser sacudida de
um lado para outro, atrs de rodas que rangiam e do matraquear de
ps no cho. Chegaram aos subrbios de Salamanca na primeira
semana do novo ano de 1812.
  Gabrielle e Gaston continuaram sozinhos, enquanto o comboio
de mercadorias se dirigiu para o centro da cidade.
  Avistaram Ciudad Rodrigo na tarde do dia 12 de Janeiro. Gabrielle pretendia continuar em direco  cidade fortificada, mas

caa a noite e Gaston no quis correr o risco de viajar na escurido.
A meio da noite, Gabrielle ouviu um tinido metlico. Gaston tambm o ouviu. Afastando o cobertor, apoiou-se num joelho e apurou
o ouvido. Tornou a escutar o mesmo rudo. Armas. Atirou para as
mos de Gabrielle uma das pistolas que trazia sempre consigo.
  - Vou averiguar o que se passa.
  Esgueirou-se por entre as rvores. O cu estava coberto de estrelas, embora no houvesse luar. Chegando a um local onde havia um
declive, viu que uma quantidade enorme de homens avanava sobre
uma colina onde brilhavam algumas luzes. Calculou que as luzes
provinham de um reduto que fazia parte das defesas de Ciudad
Rodrigo e no eram guerrilheiros que estava a ver. Eram soldados
britnicos! Estavam a quebrar todas as tradies de guerra ao sarem
dos acampamentos de Inverno no princpio de Janeiro para fazerem
um ataque de surpresa aos franceses desprevenidos. No havia qualquer hiptese de avisar o reduto, mas Gaston tinha de arranjar forma
de levar Gabrielle dali para fora, para longe do perigo.
  Quando se encontraram de novo, ela recusou a hiptese de voltar para casa.
  - No vim de to longe para agora voltar para trs! Ciudad
Rodrigo fica apenas a alguns quilmetros daqui. No quero saber de
Wellington nem dos Ingleses! Acontea o que acontecer vou ter
com Nicolas.
  - J esperava que dissesse isso - comentou Gaston, fleumtico. - Agora,  melhor deitar-se. O inimigo no vem para este
lado. Tem outras coisas para fazer.
  Vencidos pelo cansao, acabaram ambos por adormecer profundamente. Acordaram de madrugada e preparavam-se para iniciar o
seu dia quando o ataque ao reduto comeou. Gabrielle parou quando
o tiroteio comeou a ouvir-se ao longe.
  - Deus permita que resistam - disse Gabrielle, ansiosa.
  S cerca de vinte minutos mais tarde se fez de novo silncio.
Encaminharam ento as montadas para um local onde, a coberto da
densa vegetao,` puderam observar atravs dos binculos de Gaston a colina, que se recortava contra a luz do dia que comeava. O
ataque fora bem sucedido. Como formigas, os casacas vermelhas
afluam.
  - O prximo alvo ser Ciudad Rodrigo - afirmou Gaston com
ar sombrio. - A minha experincia aconselha-me a mant-la afastada de l.
  - Nem pensar nisso! - Deu uma chicotada leve na garupa do
cavalo e, com a capa esvoaando  sua volta, galopou encosta
abaixo. Gaston seguiu-a com o cavalo de carga. O problema consistia em conseguirem chegar  cidade antes dos Ingleses.
  Mantendo uma distncia considervel do inimigo, contornaram
os portes da cidade-fortaleza, fortemente cercados. Existiam algumas brechas no cerco montado por homens e cavalos. Uma delas
situava-se na zona onde o rio gueda formava uma barreira natural.
Com o culo, Gaston constatou que existia ali um posto avanado

francs colocado de modo a defender uma ponte que ele e Gabrielle
teriam de alcanar. Amarrando um leno branco ao seu mosquete,
ergueu-o bem alto e avanou, incitando os cavalos cansados a um
trote largo para cobrirem a distncia o mais rapidamente possvel.
Quando se encontraram ao alcance da voz, foram obrigados a parar
e a identificar-se.
  - Gaston Garcin e Madame Valmont, que vm numa importante misso para falar com o capito Devaux, dos chasseurs 
cheval.
  - Passem, amigos.
  Gaston piscou o olho a Gabrielle enquanto atravessavam a ponte
em direco  cidade. Viam-se por todo o lado postos de defesa franceses com a boca dos canhes a brilhar por cima de pocilgas abandonadas ou junto de tabernas encerradas. 
Tinham avanado apenas
uns metros quando o fogo da artilharia inglesa se fez ouvir com um
rudo ensurdecedor. Os canhes franceses ripostaram. Gaston dirigiu-se a galope para os portes abertos da cidade e Gabrielle seguiu-o de peno.
  Quando l chegaram, uma sentinela gritou-lhes:
  - Afastem-se! A cavalaria aproxima-se!
  Gaston, apercebendo-se do que se ia passar, agarrou nas rdeas
da montada de Gabrielle e puxou-a para a berma da estrada. Vindo
do porto, de sabres em riste, um esquadro de duzentos e cinquenta
homens avanou numa exploso de cor e de tinidos de arreios.
  Usavam os chapus de pele, de hussardo, com as plumas verdes
e vermelhas flutuando ao vento e as jaquetas guarnecidas de pele,
presas no ombro esquerdo, esvoaando atrs. Gabrielle, que desde o
primeiro momento os fitava de olhos esbugalhados, avistou Nicolas
e gritou-lhe:
  - Nicolas! Estou aqui!
  Ele no a viu nem ouviu o seu grito e, passando a poucos metros
dela, desapareceu a galope. Ao v-lo, Gabrielle teve a sensao de
que a sua alma tinha partido com ele. Quando o ltimo cavaleiro
passou, ela obrigou o seu cavalo a dar meia volta para o seguir, mas
uma vez mais Gaston agarrou-lhe as rdeas.
  - No, no pode ir. No  lugar para si.
  O rosto de Gabrielle estava plido e tenso.
  - Nesse caso, esperarei aqui por ele.
  - No, isso tambm no. Vamos para a cidade, onde poder
comer, descansar e refrescar-se enquanto espera. Ele volta. -- Gabrielle permaneceu no mesmo stio, olhando ainda para os cavaleiros que desapareciam. Gaston puxou-lhe 
pela manga. - Lembra-se do que me disse uma vez? Disse-me que tinha a certeza de que o
capito Devaux regressaria desta campanha.
  Gabrielle encarou-o com um olhar pasmado e a boca trmula.
  - Ento, porque  que agora receio tanto por ele? Parece que
tudo escapa ao meu controle.
  -  s porque viu pela primeira vez um campo de batalha e isso
transtornou-a. Nada mudou e ambos so o que eram antes. Agora,
vamos. - Gabrielle obedeceu-lhe por fim.

  Dirigiram-se a uma estalagem prxima, onde Gaston conseguiu
arranjar um quarto e guardar os cavalos. O quarto era pequeno e
sobre a cama, sem lenis, encontrava-se um colcho de palha
muito sujo. Gaston tirou o colcho, lavou o estrado da cama e depois
deixou-o a secar antes de lhe pr um cobertor em cima.
  - Fica melhor assim, embora as ripas de madeira sejam duras.
  Desviando o olhar da janela, Gabrielle disse, como se estivesse
muito longe dali:
  - Est a escurecer.
  - Mandei uma criada trazer-lhe um jarro de gua quente para o
lavatrio. Lamento, mas foi o melhor que consegui.
  Arrancando-se aos seus pensamentos, Gabrielle sorriu-lhe com
gratido.
  - Desculpa? a minha distraco. Estou muito grata por tudo o
que fizeste para me trazeres at aqui s e salva. - A sua voz vacilou. - Ser que Nicolas j regressou?
  - Vou at aos portes tentar saber o que se passa.
  Uma vez na rua, Gaston dirigiu-se aos portes. O bombardeamento continuava com violncia, o que era muito mau sinal.
  - Ainda no h notcias - foi a resposta, que, alis, no o surpreendeu.
  Enquanto aguardava, entrou numa loja onde comprou um par de
cales de homem, que Gabrielle poderia usar em caso de emergncia. Com o casaco extra que ele trouxera e o chapu dela enterrado
na cabea, passaria facilmente por um rapaz. Acabara de pagar
quando se ouviu um grito vindo do porto. Os soldados desimpediam as ruas, empurrando as pessoas com alguma brutalidade.
  - Abram alas! O exrcito vai entrar! Toda a linha defensiva est
a recuar! Afastem-se!
  Gaston encostou-se  ombreira de uma porta para observar o
xodo macio do campo de batalha. Uma torrente de homens transps os portes, com cavalos e carroas transportando armas. Alguns
soldados feridos permaneciam ainda sobre as suas montadas. Gaston no avistou Devaux no meio deles. Aproximou-se para saber o
que se passara.
  Para Gabrielle, as horas de espera no tinham fim. De cada vez
que ouvia passos na escada, corria a ver quem era e ficava desapontada. Finalmente, Gaston apareceu.
  - Nicolas j voltou? - gritou ela.
  Ele parou a olh-la. Estava to linda e fresca como uma manh
de Primavera, com o cabelo acabado de lavar preso com um pequeno lao cor-de-rosa. Tinha-se preparado para o encontro com o
seu amor e Gaston tinha de lhe desfazer as esperanas.
  Aclarou a voz.
  - O capito Devaux foi feito prisioneiro. Vai ser embarcado
para Inglaterra e l ficar at que o imperador faa um tratado com
o governo do rei Jorge III. A guerra terminou para ele.
  Gabrielle deu um grito, invadida pelo desespero.

  Durante dois dias, a artilharia da fortificao continuou a
bombardear os Ingleses, o fumo acre flutuando sobre a cidade. Mas

A rvore do Ouro 277


na manh do terceiro dia os Ingleses entrincheiraram-se perigosamente perto e a sua artilharia comeou a provocar grandes estragos.
Vrios edifcios ficaram seriamente danificados e comearam a lavrar os incndios.
  No quarto dia, o inimigo abriu duas brechas nos muros da fortaleza. Na tarde seguinte, centenas de ingleses irromperam, gritando
a sua vingana, lutando como doidos, impossveis de deter. A golpes de baioneta, disparando mosquetes ao acaso e arremessando
granadas para dentro dos edifcios, os soldados ingleses comearam
a invadir as ruas, qual rio escarlate.
  No espao de duas horas tomaram a cidade, prosseguindo no
entanto com o massacre. Os vencedores, inebriados com a vitria,
aniquilavam todos quantos lhes apareciam pela frente. Gaston, que
de tempos a tempos deixava Gabrielle para, de um posto defensivo,
disparar o seu mosquete, regressava agora para junto dela. Caminhou por vielas escuras que rodeavam e passavam entre os edifcios
e retirou os uniformes a dois soldados franceses mortos.
  Foi dar com Gabrielle colada  parede do quarto, a olhar pela
janela para o que se passava na rua. Quando o viu, correu para ele
com o rosto transtornado pelo medo.
  - Voltaste! Tive tanto medo! As mulheres esto a ser arrastadas
 fora! At mesmo as mais idosas e as crianas.
  Comprimiu as mos contra os lbios trmulos. Gaston no parou
para lhe responder. Em vez disso, atirou-lhe um dos uniformes.
  - Vista-o, por favor! - Do saco, tirou os cales que lhe tinha
comprado. - Isto tambm! E apresse-se!
  Voltando-se de costas, arrancou o casaco de couro e enfiou o
brao na manga do outro uniforme. Estava empapado. Dando meia
volta, viu que Gabrielle segurava na roupa, olhando para a palma da
sua mo esquerda, que se encontrava coberta de sangue. Precisava
de a obrigar a reagir.
  - Vista isso! Se no o fizer, o prximo sangue a ser derramado
ser o seu e o meu. Os casacas vermelhas esto numa onda de violncia. Esta noite a cidade ser submersa num banho de sangue!
  Gabrielle recomps-se.
  - Vou vestir-me.
  Gaston voltou-se de costas outra vez e continuou a falar.
  - A nica hiptese de sairmos vivos desta confuso  com os
uniformes. Vai levar ainda um certo tempo at que os Ingleses consigam repor a ordem. Entretanto, iro fazer os possveis por salvar vidas fazendo prisioneiros e 
tentaro encaminh-los para um stio
onde possam assegurar-lhes proteco. Acho que deve ser nos
acampamentos principais. Est pronta?
  - Estou.
  Gaston olhou para ela. Gabrielle tinha abotoado os cales nos
joelhos, enfiando-os por dentro das botas. A jaqueta era suficientemente larga para disfarar a sua figura feminina e o casaco azul
servia-lhe, embora estivesse quase completamente coberto de sangue do lado direito.

  - Ponha esse chapu - ordenou ele. - Acontea o que acontecer deixe tudo por minha conta. Se algum oficial ingls lhe fizer
perguntas, faa de conta que no percebe e no responda.  normal
isso acontecer com os midos dos tambores e a senhora passa facilmente por um deles. Agora, vamos!
  Saram do edifcio cautelosamente. Nos locais onde a passagem
se tornava mais estreita e escura, Gabrielle tinha de se agarrar s
abas do casaco de Gaston. Para onde quer que olhasse via corpos
espalhados por toda a parte. Gritos de mulheres ecoavam nas paredes de pedra. Gaston conduziu-a at  zona leste dos aquartelamentos, onde a deixou para fazer um 
breve reconhecimento do local.
Minutos depois regressou.
  - O ptio da caserna est cheio de soldados franceses prisioneiros. Vamos esperar que cheguem mais e nessa altura misturamo-nos
com eles. No deixe que os Ingleses percebam que  mulher, pelo
menos at que se estabelea uma certa ordem. Nessa altura, j ser
seguro deixar a cidade e regressar a casa. Basta que eles vejam a
minha perna aleijada para perceberem que j no sou soldado no
activo, e por isso no vo manter-me prisioneiro.
  Nesse preciso instante, Gabrielle tomou uma deciso. Permaneceria prisioneira de guerra e seria embarcada para Inglaterra. Ento,
revelaria a sua identidade e seria posta em liberdade, o que lhe permitiria encontrar Nicolas. De sbito, sentiu renascer a esperana.
Estava prestes a comear uma nova fase da sua vida.



CAPTULO DEZ

No ERA inteno de Gabrielle arrastar Gaston consigo para o cativeiro.
  Quando ele se convenceu de que no ia conseguir demov-la do
seu plano, declarou que a acompanhava. Gabrielle ficou consternada.
  - No, por favor, no venhas comigo! Pega nos cavalos e volta
para Frana. Eu no teria um minuto de paz se, por minha causa,
te arriscasses a apanhar priso perptua. - J lhe chegava ter de
suportar uma separao mais prolongada do seu filho.
  - Prometi que a levaria de volta a Lyon s e salva - disse
Gaston. - No pode pedir-me que quebre essa promessa. Posso no
ser um cavalheiro, mas, como soldado, tenho muito orgulho em
cumprir a minha palavra.
  Nessa tarde, foram conduzidos para fora da cidade. Uma longa
fila de soldados franceses de casaco azul, entre os quais uma mulher
disfarada, com uma escolta de soldados ingleses. Pouco tempo
depois, atingiram a zona rural, deixando para trs o campo de batalha. Gaston marchava com dificuldade por causa da perna aleijada,
de tal maneira que, quando chegaram  cidade do Porto, local de
embarque, mal conseguia arrastar-se, pelo que se viu forado a

apoiar-se em Gabrielle.
  A bordo, os homens mal se podiam mexer e no havia espao
para se deitarem. Como se encontravam abaixo da linha de gua,
apenas tinham a luz proveniente das lanternas que baloiavam sobre
as suas cabeas. Para Gaston, a situao tornou-se particularmente
difcil porque tinha de ir sentado com a perna estendida e levava
muitas vezes pisadelas acidentais.
  Gabrielle decidira esperar vinte e quatro horas antes de revelar a
sua identidade s autoridades, visto que no queria arriscar que a
mandassem de novo para terra se, por qualquer razo, o navio tivesse de l regressar. Depois de uma noite povoada de gemidos,
roncos e vmitos, apareceram marinheiros trazendo po, queijo e
vrias gamelas de gua potvel. s 11 horas, chegou, para tratar dos
feridos e doentes, o cirurgio de bordo, o Dr. Rogers, um homem
com cara de falco que vestia um imaculado uniforme azul e branco
da Marinha.
  - Aproveite agora - disse Gaston. - Boa sorte.
  Depois de apertarem as mos num gesto encorajante, Gabrielle
saiu do seu lugar e foi at  escotilha  espera do cirurgio. Quando
ele chegou, dirigiu-se-lhe.
  - Doutor! Sou uma mulher e portanto no devia estar aqui.
  Ele semicerrou os olhos.
  - Siga-me - disse em francs.
  No camarote do mdico, Gabrielle identificou-se enquanto tirava o chapu que usara dia e noite. Ele convidou-a a sentar-se e
perguntou-lhe se era mulher de algum soldado.
  - No e to-pouco sou acompanhante.
  - No me passaria isso pela cabea, Madame Valmont. Passei
algum tempo em Frana e a sua pronncia diz-me que  uma pessoa
de posio social elevada. Na minha opinio, a senhora veio no
encalo de um amante. Estou certo?
  - Est - admitiu Gabrielle.
  - Qual o nome do prisioneiro de guerra que persegue?
  -  o capito Nicolas Devaux, dos chasseurs  cheval. Poder
ele estar a bordo deste navio? Foi feito prisioneiro antes de mim.
  - No est a bordo ningum que pertena a esse regimento.
Ouvi dizer que alguns deles embarcaram num navio de guerra com
destino a Portsmouth. A senhora veio de muito longe?
  - Vim de Lyon. - Contou-lhe toda a histria da viagem, ocultando apenas os motivos pessoais que a tinham feito empreend-la.
Por fim, fez referncia  perna magoada de Gaston.
  - Se o seu companheiro est nessas condies, porque no fui
informado logo que ele chegou?
  - Gaston no deixou, porque nessa altura iriam perguntar-lhe
porque se encontrava aqui um homem invlido. Foi por minha causa
que ele no quis arriscar.
  O mdico recostou-se na cadeira, uniu as pontas dos dedos e
assumiu uma atitude grave.
  - O seu amigo est numa posio extremamente delicada. Marchou com o exrcito francs usando um uniforme e  prisioneiro de

guerra. Pode ser acusado de espionagem e condenado  morte.
  - Gaston no  espio! - Vacilou ao levantar-se. - Deixe-me
descer ao poro para lhe contar o que est a acontecer.
  O cirurgio manteve-se inflexvel.
  - Parece-me que est a esquecer-se de que  um inimigo no
combatente e que, como tal, ter de submeter-se s leis. Vou providenciar para que lhe tragam gua quente para se lavar dos ps 
cabea. No podemos arriscar-nos a que traga para as cobertas superiores qualquer tipo de infeco. Viajam connosco as esposas de
dois oficiais, uma inglesa e outra portuguesa. Penso que no se
importaro de lhe emprestar alguma roupa. Livre-se desse uniforme e assim que estiver pronta apresente-se no gabinete do comandante para se registar.
  Dito isto, saiu. Gabrielle, sozinha na cabina, sentia-se frustrada
com a ideia de que Gaston poderia ter de suportar vrios anos de
priso ou ser acusado de espionagem, dependendo do diagnstico
do cirurgio. St ao menos ela tivesse tido hiptese de o preparar
para o que o esperava.
  Dois marinheiros trouxeram-lhe gua quente. Gabrielle esfregou-se muito bem para assegurar que todos os sinais da viagem e do
encarceramento desapareceriam do seu corpo. A seguir, vestiu a
roupa que lhe haviam arranjado. As doadoras tinham sido generosas. Roupa interior delicada, um vestido de l verde e ainda um xaile
grosso tambm de l.
  Logo que acabou de se registar, foi conduzida a um pequeno
camarote onde as mulheres dos dois oficiais se encontravam deitadas em estreitos beliches, tentando recuperar do enjoo que lhes provocava a viagem. Um marinheiro 
explicou-lhe como deveria montar uma rede quase ao nvel do cho. Depois, Gabrielle apresentou-se e agradeceu as roupas emprestadas.
  A inglesa olhou-a de soslaio.
  - No falo francs! - disse em ingls, voltando-lhe as costas
com rudeza.
  A portuguesa, ainda jovem, acolheu-a de forma diferente.
Tinha uns olhos pestanudos magnficos e o cabelo preto descia-lhe
at aos ombros. No parecia ter mais de dezasseis anos.
  - Chamo-me Isabel Harding e a senhora aqui no beliche de
baixo  Mrs. Moncrieffe. Fui eu quem lhe emprestou as roupas. -- Falava francs com fluncia e estendeu a mo a Gabrielle. - Por
favor, ajude-me a descer a escada. Tenho pavor de cair - a voz
tornou-se num sussurro - e esta criatura no far nada para me
ajudar. Sabe, o marido dela  coronel enquanto o meu  apenas tenente. Acha que o camarote devia ser s para ela.
  Uma vez no cho, a jovem sentou-se numa arca de madeira e
Gabrielle reparou que estava grvida.
  - Porque  que decidiu ter o beb em Inglaterra? - perguntou-lhe, sentando-se ao lado dela.
  - O meu querido Edward vai com o duque de Wellington a
caminho de Badajoz e quer que o beb nasa em sua casa, no condado de Berkshire. A minha casa foi destruda e toda a minha famlia foi morta aquando da invaso de 
Portugal pelos Franceses. Eu
escapei porque me encontrava de visita a uns amigos em Lisboa,

onde conheci o meu marido, que  ingls.

A rvore do Ouro 283

  Emocionada com o que ouvia, Gabrielle abanou a cabea.
  - O meu pas causou-lhe grande sofrimento, mas apesar disso a
senhora mandou-me estas roupas.
  - So os homens que fazem a guerra. Nunca as mulheres. Estamos inocentes dos crimes deles. - Inesperadamente, um soluo f-la estremecer e as lgrimas escorreram-lhe 
pela cara abaixo. Desajeitadamente, procurou um leno. - Desculpe. Por vezes, o desgosto ainda se apodera de mim. Sinto agora, mais do que nunca, a
falta da minha me.
  - Tenho a certeza de que a famlia do seu marido a vai receber
com todo o carinho.
  - Quem me dera que isso fosse verdade. - Isabel fez um
grande esforo para conter as lgrimas. - Como tenciona aguentar-se em Inglaterra?
  - No sei. Nunca me passou pela cabea que iria ser considerada uma prisioneira de guerra no combatente.
  Contou a Isabel que seguia Nicolas e quo perto estivera de se
lhe reunir para finalmente o perder de novo. Isabel escutou-a atentamente.
  Naquela noite, o navio enfrentou um grande temporal no golfo
da Biscaia. Gabrielle estava mais bem instalada na sua rede do que
as duas mulheres nos beliches, que abanavam constantemente. Isabel vrias vezes chorou de medo. Gabrielle, que tinha dobrado e
entalado cobertores de ambos os lados do beliche de Isabel para
evitar que ela batesse nas grades de proteco, de tempos a tempos
pegava na mo da rapariga e tentava confort-la. De manh, o Dr.
Rogers veio informar-se sobre o estado de Isabel. Depois, fez sinal
a Gabrielle para o seguir para fora do camarote.
  - Ela est de mais tempo do que supunha e pode entrar em trabalho de parto a qualquer momento. Sabe o que fazer para ajudar
num parto?
  - J assisti ao nascimento das minhas duas sobrinhas e tenho
um filho.
  - Nesse caso, quando chegar a altura, contarei consigo.
  - Com certeza. E Gaston? - perguntou, ansiosa.
  - J o vi. O meu diagnstico  que se trata de um ferimento
antigo agravado por servio activo recente.  considerado prisioneiro de guerra.
  Gabrielle ficou a observ-lo enquanto se afastava. Ele acreditara no que lhe dissera e decidira poupar a Gaston a acusao de espionagem; apesar de tudo, condenara-o 
a um futuro terrvel. Tinha
de arranjar maneira de o libertar e de se libertar a si prpria.
  O temporal p?rolongou-se por mais dois dias. Quando o vento
comeou a amainar, Isabel gritou de forma diferente da habitual.
Gabrielle correu ao camarote do cirurgio para lhe dizer que o trabalho de parto comeara. Isabel foi levada numa maca por dois

marinheiros para o camarote do mdico, onde foi deitada no beliche
deste. O Dr. Rogers entregou a Gabrielle um avental, que ela atou 
volta da cintura antes de arregaar as mangas.
  - Ainda vai demorar vrias horas - disse-lhe o mdico. -- Faa os possveis para confortar Mrs. Harding. Ela est assustada e
nervosa. Virei c de vez em quando at chegar a altura.
  Gabrielle sentou-se perto do beliche e fez tudo para ajudar Isabel; humedeceu-lhe a testa, pegou-lhe nas mos, falou-lhe docemente.
  De madrugada, quando o mar se tingia de amarelo e dourado,
Isabel deu  luz uma rapariga. Quando lhe puseram a beb nos braos, suspirou de felicidade.
  - Vai chamar-se Lusa, como a minha me. - Foi com uma
mistura de dor e prazer que Gabrielle pegou na beb e lhe deu banho, porque sentia cada vez mais saudades de Andr.
  Isabel s voltou a preocupar-se com o encontro com a famlia do
seu marido quando o navio entrou no Tamisa. Assim que o barco
atracou em Londres, entrou em pnico absoluto. Nessa altura, bateram  porta e um marinheiro informou.
  - Mrs. Harding. Uma senhora e um cavalheiro aguardam-na no
cais. Posso levar j a bagagem?
  Isabel agarrou-se a Gabrielle num abrao.
  - No esquecerei nunca o que fez por mim.
  - Agora no se preocupe. Todos vo gostar de si e da Lusa.
  - E a Gabrielle vai encontrar Nicolas, tenho a certeza.
  Gabrielle, com a beb ao colo, acompanhou Isabel at onde lhe
era permitido. Quando um guarda levantou a mo em sinal de aviso,
Isabel, plida de ansiedade, tomou Lusa nos seus braos e a seguir
afastou-se.
  Na altura em que Gabrielle regressava  cabina, saa Mrs. Moncrieffe, que passou por ela sem lhe dirigir uma nica palavra de
despedida.
  Um funcionrio da alfndega encarregou-se de Gabrielle. Disse
chamar-se Woodbury e que, juntamente com a sua mulher, iriam ser

A rvore do Ouro 285

os seus guardas at que lhe fosse concedida liberdade condicional.
Gabrielle agarrou na trouxa, que continha mais dois vestidos oferecidos por Isabel, e seguiu o homem. Depois da escurido do camarote, sentiu-se estonteada com o 
ar fresco e a luz brilhante do Sol. O
Tamisa fervilhava de actividade, assemelhando-se a uma floresta
de mastros que se estendia a perder de vista. Tivera esperanas de
avistar Gaston, mas o funcionrio levou-a antes de ter comeado o
desembarque dos prisioneiros.
  Um pouco mais longe, avistou uma srie de navios de guerra que
encarceravam muitos milhares de prisioneiros. Estremeceu com um
arrepio mais agudo do que o provocado pelo frio daquele dia de

Fevereiro. Desde os cabos at s figuras de proa, tudo fora desmantelado e os navios encontravam-se pintados de uma lgubre cor
negra.  volta de cada um deles fora construda uma galeria para os
guardas de patrulha.
  A casa de Woodbury, pequena, clara e limpa, ficava perto da alfndega. Mrs. Woodbury, uma mulher pequena, simples e bem-intencionada, parecia um pouco nervosa 
pelo facto de ter debaixo do
seu tecto uma francesa de elevada posio social. Mas quando Gabrielle a cumprimentou em ingls como Isabel lhe ensinara, com um
grande sorriso, o gelo quebrou-se. At mesmo o semblante austero
de Mr. Woodbury deixou transparecer satisfao quando Gabrielle
lhe deu uma moeda de ouro para as despesas da sua manuteno.
Gabrielle suspeitava de que as autoridades lhes concederiam um
subsdio miservel pelo facto de lhe darem cama e mesa.
  Todas as tardes, um jovem aprendiz de empregado de armazm,
Oliver Bums, dava lies de ingls a Gabrielle, como ela pedira.
Durante o dia, estudava. No lhe era permitido ultrapassar o porto
do jardim, sobre o qual se debruava para olhar a rua empedrada
para alm da qual ficava o rio. Soube, atravs de Oliver, que os prisioneiros do seu navio se encontravam em barcos ao longo do cais.
Pediu-lhe para tentar saber em qual deles se encontrava Gaston.
  Todas as cartas que escreveu a solicitar liberdade condicional
foram ignoradas. Quando a Primavera chegou e os narcisos deram
lugar aos lilases, Gabrielle dominava j bastante bem a lngua inglesa. J sabia em que barco se encontrava Gaston e Oliver tinha
conseguido levar-lhe um bilhete. A resposta chegou rabiscada num
pedao de papel. ??Estou bem, embora a minha perna me incomode
bastante. Encontrar-nos-emos quando conseguir a sua liberdade condicional. Gaston.??

  Uma tarde, nos fins do ms de Junho, um agente governamental
apresentou-se a Gabrielle. Trazia as notcias pelas quais esperava
h muito tempo. ,
  - Foi-lhe concedida liberdade condicional, Mrs. Valmont.
  - At que enfim! - Suspirou de alvio. - Escrevi imensas peties.
  -  possvel que tenham ido para o departamento errado. S
reparei no seu nome depois de um cavalheiro ter perguntado por si.
  Gabrielle ficou intrigada.
  - Como se chamava ele?
  - No me recordo. Foi j h algumas semanas. Tanto quanto
sei, a senhora no estava sob a minha jurisdio, seno ter-lhe-ia
dado a sua morada.
  - Ele deixou alguma direco?
  - No. Agora, vamos ao que interessa. Em primeiro lugar, vou
ler-lhe os termos em que lhe foi concedida a liberdade condicional.
  Gabrielle ouviu, concordou e assinou a declarao, aceitando
todas as condies ali impostas. A seguir, o agente entregou-lhe a

primeira mesada, explicando-lhe que os no-combatentes em Inglaterra eram pagos pela mesma tabela dos tenentes do Exrcito e da
Marinha. O dinheiro fez muito jeito a Gabrielle, visto que, do que
trouxera consigo de Lyon, tinha j muito pouco.
  - Gostaria de requerer uma alterao de morada - disse ela. -- Pretendo ir para Portsmouth. Tenho razes para acreditar que algum que eu conheo foi mandado para 
esse porto. Gostaria de o
voltar a encontrar.
  O agente concordou.
  - No tenho qualquer objeco. Vou passar-lhe uma autorizao por escrito, mas no se esquea de, no dia da sua chegada,
comunicar a sua presena e o novo endereo ao agente do Governo
em Portsmouth. E agora desejo-lhe um bom dia. - Quando se encontrava j de sada, parou e voltou-se para trs. - Acho que j me
recordo do nome do cavalheiro. Harding. Sim,  isso mesmo.
  Ao fechar a porta, Gabrielle sorriu. Devia ter sido o sogro de Isabel. Querida Isabel! Era reconfortante saber que tinha uma amiga em
Inglaterra. E mais reconfortante ainda era a certeza de que o momento do seu encontro com Nicolas estava cada vez mais prximo.

  DEPoIs de, chorosa, se ter despedido de Gaston e apanhado a
diligncia para Portsmouth, Gabrielle iniciou uma autntica busca
pela cidade, que durou semanas e se estendeu por muitos meses. Em
Dezembro, estava to longe de encontrar Nicolas como quando
chegara. No havia mais nenhum local onde procurar. Era como se
tivesse entrado num poo sem fundo. As saudades do filho, que no
a abandonavam, aumentavam ainda mais o seu profundo desespero.
  J prximo do Natal, num fim de tarde, Gabrielle regressou ao
Dolphin Tavern, sua morada actual, vinda de um passeio. Esperava-a uma visita. Era um homem bem-parecido, com cabelos castanhos
ondulados, grisalhos nas tmporas, rosto comprido e olhos azuis
atentos e perspicazes. O sorriso transformava as suas feies graves. Dirigiu-se-lhe no hall de entrada.
  - Bom dia, Madame Valmont. Reconheo-a pela descrio que
Isabel me fez de si. Chamo-me Andrew Harding, s suas ordens.
  - Mr. Harding! - A tristeza que se apossara dela desvaneceu-se com este aparecimento de surpresa do sogro da sua amiga. -- Mal posso acreditar no que est a acontecer. 
Como est Isabel? Oh!
Tenho tantas coisas para lhe perguntar!
  - Pedi que nos servissem o jantar numa sala privada para conversarmos em sossego.
   mesa, Mr. Harding contou-lhe que Isabel estava cada dia mais
preocupada por no ter notcias dela, convencida de que teria acontecido alguma desgraa. Muito embora Isabel pudesse estar bastante feliz, visto que fora recebida 
pelos Hardings com muito carinho, a ansiedade em que se encontrava por causa de Gabrielle s
ajudava a que sentisse cada vez mais saudades de casa.
  - Tinha a certeza de que mais cedo ou mais tarde havia de a

encontrar - afirmou Mr. Harding -, e quando iniciei nova investigao h pouco tempo, deram-me o seu endereo em Portsmouth.
  - Fala como se tivesse acesso aos arquivos governamentais.
  - E tenho. Sou membro do Parlamento pela circunscrio de
Twyford aqui no Berkshire.
  - No fazia ideia. Mas  natural - acrescentou Gabrielle, sorrindo - porque durante toda a viagem Isabel em pouco mais falou
do que na filha.
  - Isso faz-me lembrar outra razo pela qual queria encontr-la.
Minha mulher e eu gostaramos de fazer o que fosse possvel por si,
em agradecimento por tudo o que fez por Isabel quando a nossa neta
nasceu. Devo dizer-lhe que conheo toda a sua histria, relatada
pela prpria Isabel. Ao encontr-la aqui sozinha, parto do princpio
de que ainda no conseguiu localizar o capito Devaux.
  - Sim,  verdade. - Gabrielle sentiu de repente um aperto no
corao.
  - Vou ser eu a encontr-lo - disse Mr. Harding com segurana.
  Gabrielle, de olhos muito abertos, ficou por momentos sem fala.
Escondeu o rosto nas mos at conseguir recuperar. Depois, ergueu
a cabea.
  - Nunca conseguirei agradecer-lhe o suficiente por tudo, Mr.
Harding.
  - No precisa de agradecer. Lamento mas tenho de pedir-lhe
que tenha mais um pouco de pacincia. A lista de prisioneiros 
enorme, ronda os cento e vinte mil homens.
  - Mr. Harding, disse-me que Isabel lhe havia contado toda a
minha histria. Ento, est tambm a par do que se passa com o meu
criado Gaston, que prescindiu da sua liberdade para me proteger.
Ele est num daqueles barcos no Tamisa. Haver alguma hiptese
de ele ser transferido para outro local melhor? E, mais importante
ainda, ser possvel obter, a ttulo excepcional, a liberdade condicional?
  - Tem havido repatriaes em circunstncias especiais. O caso
do seu criado interessa-me. A minha hiptese de soluo depende
do convite que minha mulher e eu esperamos que aceite para ficar
connosco na nossa casa em Twyford at que possa ir, numa das
minhas carruagens, ter com o capito Devaux. A sua companhia
ser para Isabel a maior das alegrias e ns queremos fazer por si tudo
aquilo que estiver ao nosso alcance. Quanto ao seu criado, posso
fazer com que o libertem se me garantir que ele  de confiana e que
no tentar fugir.
  Gabrielle rejubilava.
  - Isso eu posso garantir.
  - Nesse caso, tratarei de tudo. Partiremos para Londres logo de
manh. - Mr. Harding ergueu o seu copo de vinho. - Agora, brindemos aos reencontros.
  - Aos reencontros - repetiu Gabrielle, o rosto irradiando felicidade.


  A VIAGEM at Londres levou-os ao Parlamento, onde os funcionrios de Mr. Harding trataram dos papis de Gabrielle e de Gaston.
A seguir, no cais, Mr. Harding dirigiu-se a um dos barcos, pedindo
a Gabrielle que esperasse na carruagem. Ela aguardou ansiosa, at

A rvore do Ouro 289

que, depois de muito tempo, viu, consternada, que Gaston saa do
navio em padiola de lona, carregado por dois soldados. Mr. Harding
vinha atrs. Gabrielle saltou da carruagem e atravessou a correr o
passadio. Gaston, ao v-la, sorriu, mas Gabrielle olhou, horrorizada, para as ligaduras ensanguentadas que lhe envolviam o coto. A
perna tinha sido amputada logo acima do joelho.
  - Que  que te fizeram? - perguntou, desvairada.
  - J no tinha circulao no p, o meu estado piorava de dia
para dia. J encontrou o capito Devaux?
  - Ainda no, mas Mr. Harding diz que j no falta muito.
  - Ainda bem. Vamos finalmente ter um pouco de sorte, no 
verdade? - Voltou a sorrir. - Vou ficar como novo e sem dores
assim que tiver a perna de pau que o cavalheiro me prometeu.
  - Oh, Gaston! - Gabrielle no sabia se havia de rir ou de
chorar. - Tu s indestrutvel!
  Gaston foi levado para a residncia dos Woodbury, antigos guardas de Gabrielle. Gabrielle e Mrs. Woodbury dividiram entre si a
tarefa de o lavar, fazendo desaparecer todos os indcios provocados
pelo tempo que passara encarcerado. A seguir, vestiram-no com
uma das camisas de dormir de Mr. Woodbury e recostaram-no confortavelmente em vrias almofadas. Mr. Harding combinou com
Mrs. Woodbury o pagamento pelos cuidados a ter com o doente e
deixou uma bolsa de dinheiro para a compra de roupas novas para
Gaston. Quando Gabrielle se despediu de Gaston, beijando-o na
face, ele segurou-a por um brao.
  - Sair daquele poro fez com que este dia fosse o mais feliz da
minha vida. O seu chegar em breve.

  A cAsA de campo dos Hardings, de tijolo cor de ameixa, estava
coberta de hera e tinha umas janelas encantadoras emolduradas de
pedra de cor clara. O rosto de Isabel espreitou por uma delas, enquanto Mrs. Harding saa de casa para saudar Gabrielle. Momentos
depois, Isabel desceu as escadas e o abrao que deu a Gabrielle foi
tal que quase a fez cair ao cho. Lanou de seguida os braos  volta
do pescoo de Mr. Harding.
  - Obrigada por t-la encontrado, querido sogro!
  Gabrielle reparou, divertida, no encantamento que este pacato
casal ingls sentia com a vivacidade da sua nora. At ao regresso de
seu filho nico, Edward, era Isabel e a beb que preenchiam o vazio

por ele deixado. Lusa, agora com dez meses, era uma criana
saudvel e encantadora, com olhos grandes e pestanudos como os de
sua me.
  H muitos anos que Gabrielle no passava um Natal to feliz.
Houve cnticos, 'bebeu-se ponche quente e Gabrielle provou pela
primeira vez, mince pie e plum pudding. Animada pela esperana de
o encontro com Nicolas estar cada vez mais prximo, conseguiu
descontrair-se e divertir-se.
  Dois dias depois de as festas terem terminado, Mr. Harding abriu
uma carta, leu-a e em seguida sorriu para Gabrielle.
  - Conseguimos finalmente aquilo por que h tanto tempo espervamos. O capito Devaux est alojado em Holly House, Paradise
Lane, em Macclesfield, e est empregado como gerente da fbrica
de sedas Bamett.
  Foi Isabel quem deu um grito de alegria. Gabrielle ficou num
silncio agradecido. O grande dia estava prestes a chegar.
  Fez a viagem at Macclesfield numa carruagem dos Hardings,
tendo pernoitado pelo caminho. No princpio da tarde do dia seguinte, a carruagem parou no trio da Holly House. Gabrielle puxou
o cordo de uma reluzente sineta de bronze e uma criada abriu-lhe a
porta.
  - O capito Devaux est? - perguntou.
  - No, minha senhora. A esta hora est sempre na fbrica.
  - Obrigada. Irei at l.
  A criada fechou a porta e encaminhou-se para a cozinha. Nesse
momento, uma jovem frgil, de nome Jessica, descia as escadas.
Olhou por sobre a balaustrada para a criada que passava em baixo.
  - Quem era?
  - Uma senhora estrangeira a perguntar por Mr. Devaux - respondeu a criada. - Disse-lhe que ele estava na fbrica. - A porta
verde que dava para a cozinha fechou-se atrs dela.
  Nas escadas, Jessica levou a mo ao peito, como que tentando
acalmar o sbito bater assustado do seu corao.
  Em pouco tempo, Gabrielle chegou  fbrica. Parecia que, com
a excitao, os seus ps no tocavam no cho. Quando entrou no
hall, o som dos teares fez com que o ambiente se tomasse quente e
familiar. Era como se tivesse regressado ao dia em que estivera com
Nicolas pela ltima vez.
  Dirigiu-se  porta onde se lia o seu nome. Deitando para trs o
capuz da capa, abriu rapidamente a porta e fechou-a logo atrs de si,
encostando-se depois a ela. Nicolas estava sentado a uma grande

A rvore do Ouro 291

secretria, olhando para alguns padres, e, sem levantar os olhos,
estendeu uma mo na sua direco, como se pensasse que era algum

empregado para lhe entregar qualquer coisa.
  - Voc trabalhou depressa, Briggs - comentou.
  Naquele lapso de tempo, Gabrielle ficou feliz por poder observar Nicolas e gravar dentro de si a sua imagem. Ele, estranhando
no ter obtido resposta, levantou os olhos e viu-a. Gabrielle nunca
pensara que o amor pudesse alterar to instantaneamente a expresso do rosto de um homem, transbordando dos seus olhos e de todo
o seu ser.
  - Gabrielle! - Antes que ela pudesse respirar, Nicolas saltou
da cadeira e tomou-a nos seus braos. Beijaram-se num longo e
ardente abrao, famintos um do outro. - Que ests a fazer em Inglaterra? - perguntou Nicolas, ofegante, beijando-a de novo antes
de ela conseguir responder. Lbios e mos fundiam-se numa expresso do amor mtuo e da paixo h tanto tempo negada.
  Mas, nesse momento, a porta abriu-se e, como o silvo da lmina
de uma espada, um grito horrorizado cortou o ar.
  - Est aqui uma pessoa que precisas de conhecer, Gabrielle -- disse Nicolas em voz baixa e triste.
  Gabrielle olhou-o com ar inquiridor e a seguir, ainda envolvida
nos seus braos, deu meia volta. Viu uma mulher, jovem e plida,
com os louros e delicados cabelos desgrenhados pelo vento, apoiada
na porta aberta como que para no cair. Gabrielle olhou de novo
para Nicolas.
  - Sim?
  Os seus braos apertaram-na com mais fora.
  - Esta  Jessica, a minha mulher. Casmo-nos na vspera de
Natal.
  Gabrielle fixou os olhos naquela mulher durante um longo
momento, todo o seu ser gritando com uma angstia to profunda
que se tomava difcil de suportar. Perdendo os sentidos, tombou
para a frente, mas Nicolas agarrou-a nos braos antes de cair. Jessica, tremendo com o choque recebido, colou-se ainda mais  ombreira da porta.
  - Ela que volte para o stio de onde veio! - implorou a Nicolas
num tom de voz agudo.
  Em seguida, precipitou-se de regresso a casa. A respirao
ofegante dilacerava-lhe os pulmes, obrigando-a a um esforo que
lhe fora proibido desde uma doena que tivera em criana. Mas
Jessica no parou seno quando pde desfazer-se em lgrimas, na
intimidade do seu quarto.
  Na fbrica, C?abrielle, deitada sobre um banco almofadado de
couro, em breve recuperava a conscincia, enquanto Nicolas lhe
massajava os pulsos.
  - Como te sentes? - perguntou, perscrutando-lhe ansiosamente o rosto.
  Gabrielle evitou encar-lo.
  - Depressa ficarei bem.
  - Como conseguiste atravessar o Canal?
  -  uma histria demasiado longa. Vim porque te prometi que,
se alguma vez ficasse livre, viria ter contigo.
  - Ests a dizer-me que mile morreu? - perguntou ele, incrdulo.
  - Na noite em que a Maison Devaux ardeu, ele foi uma das trs

vtimas.
  - H tanto tempo! Nunca cheguei a saber!
  Gabrielle olhou ento para o seu rosto atormentado.
  - S agora percebi isso.
  - Oh, Gabrielle. - Nicolas pegou-lhe na mo e levou-a aos
lbios. - Nunca deixei de te amar.
  Gabrielle apreciou o facto de ele no se ter desculpado por ter
casado. Percebeu que Jessica se tornara sua mulher pela simples
razo de que Nicolas no esperava voltar a v-la. Tinha que pensar
desta forma para no ceder  tentao de acariciar o seu rosto e tocar nos seus lbios de novo.
  - Tenho que me ir embora. - Levantou-se, constatando que
conseguia raciocinar com lucidez, embora o corao estivesse
ainda entorpecido. - Acabou tudo o que houve entre ns. Do fundo
do meu corao, desejo-te as maiores felicidades. Para nosso bem,
no devemos prolongar mais este encontro. Adeus, Nicolas!
  Nicolas agarrou-a pelo pulso, obrigando-a a parar. Gabrielle no
olhou para ele, toda a sua postura revelando rejeio a qualquer
tentativa de persuaso, o que o obrigou a solt-la. As ltimas palavras de Nicolas acompanharam-na.
  - s e sers a minha vida para sempre.

  GABRieLLE regressou a Twyford ainda entorpecida. Ali chegada,
concluiu que deveria voltar para Frana e retomar a sua vida. No
entanto, devido s condies impostas pela guerra, foi obrigada a

A rvore do Ouro 293

aceitar, por mais tempo ainda, a hospitalidade amiga dos Hardings.
Logo que Gaston se recomps o suficiente, foi tambm convidado a
permanecer com eles, e quando lhe deram permisso para tratar dos
cavalos puros-sangues, sentiu-se nas suas sete quintas.
  Os planos de Gabrielle comearam a tornar-se possveis de novo
devido ao desenrolar dos acontecimentos do outro lado da Mancha.
O imprio de Bonaparte comeava a desintegrar-se. O czar tinha
feito uma aliana com a Inglaterra, a Prssia, a Sucia e a ustria.
Como resultado, o que restava da Grande Arme fora forado no s
a retirar da Rssia, como tambm estava a ser rechaado por toda a
Europa. Na Pennsula, Wellington avanava em direco aos Pirenus, ltima barreira antes de atingir solo francs.
  Em Outubro de 1813, Napoleo foi estrondosamente derrotado
pelas foras aliadas na Batalha das Naes, perto de Leipzig. Algumas semanas depois, Mr. Harding conseguiu que Gabrielle, Gaston e sete outros no-combatentes fossem 
escoltados, sob proteco armada, at Dover e a entraram num barco de pesca.
  As velas agitavam-se e enfunavam com o vento frio. Gabrielle,
ao olhar para os penhascos brancos, dizia adeus a Nicolas e ao amor.
No voltaria a gostar de mais ningum. Quando por fim os rochedos
desapareceram no horizonte, voltou-se para Frana. Regressava a

casa, a Lyon e ao seu filho. Voltava para a Maison Roche e para os
seus teares. Depois de muito tempo, o sangue voltou a pulsar-lhe nas
veias.


c?zvLo orrzE

GABRIELLE tirou o retrato de seda de Napoleo que se encontrava
pendurado na parede do seu escritrio, na Rue Clmont, e observou-o com sentimentos contraditrios.
  Deveria ter sido retirado na altura em que o imperador abdicara,
no passado ms de Abril, ou quando fora exilado para a ilha de Elba.
No entanto, apesar de tudo, todos os acontecimentos importantes da
sua vida tinham estreita ligao com as aces deste homem extraordinrio. Por causa do ataque  ustria, perdera o irmo e Gaston
viera para Lyon. Com a invaso de Portugal e Espanha, perdera
Nicolas para sempre.
  Mas o imperador fizera o que acreditava ser melhor para a Frana
e dotara-a de leis e reformas que iriam perdurar. Mais do que isso, ajudara Lyon a tornar-se de novo o maior centro de seda do Mundo.
Pessoalmente, Gabrielle lamentava que as suas maravilhosas sedas
Roche, encomendadas para Versalhes, tivessem sido guardadas e
talvez no viessem nunca a ser expostas naquele grande palcio.
Tinha acabado uma era imperial e com ela todo o seu esplendor.
  Com tristeza, envolveu o retrato em papel de seda e colocou-o
numa gaveta juntamente com outros exemplares raros que faziam
pane da histria da Maison Roche. A deciso de remover o retrato
naquele dia relacionava-se com as notcias que circulavam, segundo as quais o imperador fugira de Elba e havia desembarcado no
Sul de Frana, h cinco dias atrs, no dia 1 de Maro de 1815. Estava
a formar um novo exrcito para avanar sobre Paris a fim de expulsar do trono o rei Lus XVIII.
  Depois de ter visto com os seus prprios olhos a guerra na Pennsula, Gabrielle no queria que ela voltasse a assolar a Frana. Tinham sido reatadas as boas relaes 
com a Inglaterra e o resto da
Europa. Wellington dissera mesmo que a Frana no teria inimigos
se Bonaparte fosse deposto. J chegava de sangue derramado. O seu
pas precisava agora de paz. Uma vez que no podia concordar com
o regresso do imperador, fechava a gaveta sobre um rosto que pertencia ao passado.
  - Mam!
  Voltou-se quando Andr, um pequeno furaco de quatro anos,
entrou a correr no escritrio. Acabava de chegar de um passeio com

a ama e fora imediatamente procur-la. Gabrielle sorriu e, inclinando-se, pegou-lhe ao colo e rodopiou com ele. Depois, abraou-o, encostando o rosto contra a gorda 
bochecha, gelada devido ao
vento frio de Maro.
  - Ento, divertiste-te? Estiveste com a tia Hlne? Ser que ela
te ofereceu um doce? Vs, s um rapazinho cheio de sorte!
  Gabrielle deixava Andr passar grande pane do tempo com
Hlne e Michel na casa que ambos haviam comprado poucos meses antes do nascimento dos gmeos, um rapaz e uma rapariga. Tinha-se ressentido bastante com o retraimento 
natural com que o filho a recebera depois de regressar a Lyon, mas pouco a pouco foi-se
estabelecendo uma relao normal entre os dois. Sempre que Gabrielle viajava em servio, Andr no se importava de ir para casa
dos Piats. Uma vez que estava prestes a viajar de novo, Gabrielle
achou que aquela seria uma boa altura para o preparar.
  - Andr, na prxima semana vou ter de visitar uma grande casa

A rvore do Ouro 295

no campo onde as sedas Roche esto a ser utilizadas. Como sabes,
cada vez mais as pessoas querem as suas casas decoradas com sedas
da Maison Roche e eu quero ter a certeza de que tudo  executado
com a maior perfeio.
  Andr compreendeu. Alguns dos momentos mais felizes da sua
vida eram passados na fbrica com a sua mam. Adorava as cores
e os padres das sedas, assim como o cheiro daquele lugar.
  - Quando  que posso ir contigo? - Era essa a sua pergunta
habitual.
  - Quando fores mais crescido - prometeu Gabrielle, como
fazia sempre. - Sers dono de tudo isto quando fores um homem.
  Por alturas dos preparativos para a viagem, comearam a espalhar-se rumores sobre a rpida aproximao de Bonaparte. Ao longo
de todo o percurso, os veteranos da Grande Arme juntavam-se-lhe,
aclamando-o com gritos de boas-vindas. Apesar dos meses de exlio, a velha magia persistia ainda e Napoleo fazia vibrar de novo a
Frana.
  No dia anterior ao da sua partida, Gabrielle levou Andr para
casa dos Piats. No caminho, uma multido obrigou a carruagem a
parar. Bonaparte acabava de entrar em Lyon e os Lioneses estavam
eufricos. Andr no conseguia manter-se quieto no assento, excitado com os gritos e aplausos e com as bandeiras que se agitavam ao
som da Marselhesa. Gabrielle abriu a janela e segurou-o de modo
que, por cima da multido, ele pudesse ver Napoleo cavalgando
orgulhosamente, trajando redingote cinzento e o chapu bicorne.
Gabrielle sentiu de novo a atraco exercida pela personalidade
carismtica deste chefe guerreiro.
  - Acabaste de ver o imperador - disse a Andr. - Lembra-te
sempre de que, apesar de tudo, ele fez mais por Lyon e pela Frana
do que qualquer outro homem.
  Quando Gabrielle partiu no dia seguinte, continuavam ainda as
comemoraes. Sentia a falta de Gaston sempre que precisava de
viajar. Gaston tinha largado o seu emprego e fora para a costa sul.

  - Todos os velhos ??cavalos?? de batalha sonham com as pastagens pacficas - dissera Gaston. - Chegou agora a minha vez, madame.
  Gabrielle no o deixou partir de bolsos vazios. Deu-lhe um bom
cavalo, roupas novas e um documento bancrio que lhe garantia um
rendimento razovel at ao fim dos seus dias. Durante muito tempo,
Gabrielle no teve notcias de Gaston. Soube depois que se fixara na pequena cidade de Cannes e ali tratava dos cavalos de um coronel
reformado. Esperava que ele se sentisse feliz.
  A enorme casa de campo onde tinham sido colocadas as suas
sedas distava apenas alguns quilmetros de Limoges. Gabrielle
demorou-se mais de quatro semanas at chegar a ltima pea para se
certificar de que todas as suas sedas haviam sido utilizadas de forma
perfeita. Durante a sua estada, ouviu dizer que o imperador fora
recebido de forma tumultuosa em Paris, depois da apressada partida
para a Blgica do rei Lus. Nas Tulherias, o lrio branco dos Bourbons tinha sido arrancado dos cortinados e tapearias para dar de
novo lugar  abelha imperial. Parecia que as sedas Roche, encomendadas para Versalhes, iriam afinal ser desempacotadas, mas  custa
de quantas vidas? Os jornais proclamavam que o imperador j tinha
sob o seu comando trezentos mil franceses leais e muitas centenas
mais estavam a apresentar-se como voluntrios.
  Quando Gabrielle regressou a Lyon, as notcias no eram boas.
Os soldados ingleses e prussianos concentravam-se na Blgica e os
exrcitos austraco e do czar uniam as suas foras mais para leste. A
Frana estava de novo rodeada de inimigos.
  Era j muito tarde para Gabrielle ir buscar Andr. Passaria por l
de manh. Depois de ter tomado um banho e ter mudado de roupa,
tomou uma refeio leve no salo azul, onde a criada lhe foi entregar uma carta.
  - Penso que deve ser importante, madame. Um cavalheiro veio
c pelo menos seis ou sete vezes na esperana de a encontrar. Deixou ontem esta carta com a indicao de que deveria ser-lhe entregue logo que chegasse.
  Ao reconhecer a letra, Gabrielle sentiu que o corao quase parava. Era de Nicolas. Inspirou profundamente antes de a abrir.

  Jessica morreu com tuberculose h seis semanas. A sua coragem e a devoo que tinha por mim permanecero para sempre na
minha memria. Regressei a Frana para voltar a ver-te, na esperana de que, depois de terminar o que tenho para fazer, possamos
ter algum tempo para ns.

Oh, meu amor! - Gabrielle suspirou e continuou a ler.


  No pensava voltar  terra onde nasci, mas o fim das hostilidades entre a Frana e a Inglaterra libertou-me do cdigo de honra que me fazia permanecer em solo 
britnico e por isso regressei a
Lyon e reingressei no meu regimento dos chasseurs. Tenho a convico de que neste momento todos os cidados franceses so
necessrios. No verei a Frana derrotada como o Mundo pretende.
Se ainda me tens algum amor, permite que te veja uma vez mais
antes de deixar Lyon.

  Gabrielle saiu do quarto a correr, chamando a criada.
  - A minha capa! Depressa! Imediatamente! - Logo que lha
trouxeram, atirou-a sobre os ombros e precipitou-se para fora de
casa em direco  praa. Conhecia o endereo da carta. A sua
sombra projectava-se nos crculos de luz dos lampies da rua. Alguns minutos depois, chegou, ofegante,  porta da casa e bateu a
aldraba. Uma ordenana abriu-a.
  - O capito Devaux est? Sou Madame Valmont - disse.
  - Saiu, madame, mas tenho ordens para ir cham-lo, a qualquer
hora do dia ou da naite, se a madame chegasse.
  Conduziu-a depois ao apartamento de Nicolas, situado no andar
superior, e em seguida retirou-se. Recuperando o flego, Gabrielle
tirou a capa, colocou-a sobre uma cadeira, aproximou-se da janela
e disps-se a aguardar a chegada de Nicolas. Esperou at que viu
uma caleche aproximar-se a toda a velocidade. Nicolas, fardado,
saltou l de dentro e precipitou-se para casa. Galgou as escadas,
abriu a porta de par em par e ali estava ele, como se nunca se tivessem separado.
  Olharam um para o outro, tal como tinham feito h muito tempo
atrs, quando uma carruagem de casamento embatera contra um
carro fnebre, fazendo com que os seus destinos se cruzassem.
Desta vez, estavam ss. Desta vez, tinha finalmente chegado a sua
hora.
  - Nicolas! - sussurrou Gabrielle, abrindo os braos e correndo
em sua direco. - Diz-me que no estou a sonhar.
  - Minha Gabrielle! - Nicolas apertou-a nos seus braos e beijou-a. Com lgrimas de felicidade escorrendo sob as plpebras cerradas, os dedos enterrados nos seus 
cabelos, Gabrielle parecia capaz
de morrer se Nicolas apartasse os lbios dos seus.
  Levantando-a nos braos, Nicolas abriu a porta que conduzia ao
quarto. A cama, grande e espaosa, coberta de almofadas macias,
aguardava-os. Foram horas de xtase como Gabrielle nunca conhecera.
  Deitados lado a lado, Gabrielle passava devagar os dedos pela
nuca de Nicolas, beijando-lhe a fronte com ternura.
  - Amo-te - murmurou ele, como se no tivesse j repetido
estas palavras vezes sem conta. - Casa comigo. Logo de manh.
Antes do almoo.
  De repente, ela tomou conscincia da realidade.
  - Vais partir em breve.
  - Amanh  tarde.
  - Para onde vais? J sabes?
  Nicolas apoiou-se nos cotovelos.
  - O imperador j atravessou a fronteira belga. Os Prussianos
concentraram-se em Ligny e diz-se que Wellington desloca as suas
tropas para um local chamado Quatre Bras. Quando estes exrcitos
forem derrotados, avanamos sobre Bruxelas! - O seu rosto descontraiu-se num sorriso. - Irs l ter comigo, meu amor?

  - Farei mais do que isso - respondeu Gabrielle com veemncia. - Vou contigo. Desta vez, viajarei com as mulheres dos oficiais. No vou voltar a perder-te de vista 
como aconteceu em
-Ciudad Rodrigo.
  Ento, Gabrielle contou-lhe a histria toda. Nicolas prometeu a
si prprio que iria sobreviver para a compensar nos prximos anos
por todo o sofrimento passado.

  CEDo na manh seguinte foram falar com o padre de uma pequena igreja situada nas proximidades. Ficou combinado que o
casamento seria celebrado s 11 e meia, depois de uma breve cerimnia civil no htel de ville. Nicolas dirigiu-se ao acampamento
para tratar dos ltimos pormenores para a partida, enquanto Gabrielle foi a casa fazer as malas e escrever um bilhete a Hlne e
Andr explicando o motivo da sua partida sbita. Entrou em casa a
correr quando ouviu, vindo da cozinha, o rudo familiar de uma
perna de pau.
  Girou sobre os calcanhares e voltou a descer as escadas.
  - Gaston! Que surpresa!
  Gaston estava muito elegante com a sua bengala nova, um casaco verde de botes dourados e um alfinete de ouro na gravata.
Estava verdadeiramente exuberante por voltar a v-la.
  - Madame! Tenho andado  sua procura!
  - Vou casar-me! Voltei a encontrar Nicolas. Vamos conseguir
ficar juntos finalmente. Deseja-me sorte, Gaston! Gostaria que fosses testemunha do nosso casamento. Ningum  mais indicado do
que tu!
  Com um olhar astuto, em que brilhava como que uma pequena
chama, Gaston disse:
  - Tambm me casei. A minha Jeanne  encantadora, cheia de
vida, e esperamos uma criana para breve.
  - Que bom saber isso! Trouxeste-a?
  - No. Deixei-a em segurana em Cannes.  a encarregada da
lavandaria na residncia do coronel, e  l que moramos presentemente. No tarda, teremos uma casa s nossa.
  - As novidades so maravilhosas. Nesse caso, porque ests
aqui? No me digas que vieste de Cannes atrs do imperador?
  -  verdade. At Paris. - Gaston tinha testemunhado impressionantes manifestaes de lealdade e regozijou-se, como os demais, quando batalhes inteiros com os 
seus oficiais se juntaram 
rpida marcha sobre Paris. Ento, quando chegaram  capital e o
imperador se instalou de novo nas Tulherias, Gaston iniciou a viagem de regresso. E assim tinha chegado  casa da Rue Clmont.
  - Vem comigo ao htel de ville e depois  igreja. - Gabrielle
apressava-o. - No tenho tempo a perder. Nicolas sai hoje de Lyon
e vai para a Blgica e desta vez eu vou tambm. Nunca mais me
separarei dele.
  Gaston deu uma das suas risadas caractersticas.
  - Ento, parece que cheguei na altura certa. A que horas partimos?
  Gabrielle ergueu as sobrancelhas com um ar atnito.
  - Voltarias a acompanhar-me?
  - Ser como nos velhos tempos. Tenciono ver o imperador ter

de novo uma grande vitria. Que  que me diz?
  - Ficaria muito feliz, meu bom amigo. Muito feliz mesmo.
  Na igreja, os noivos trocaram os seus votos matrimoniais junto
ao altar reluzente. Quando a cerimnia terminou, e depois de terem
sidos abenoados pelo padre, Nicolas e Gabrielle tiveram que se
separar nos degraus da entrada. Ele apertou-a de encontro a si com
ternura e beijou-a. A seguir, colocou a mo sobre o ombro de Gaston.
  - Cuida da minha mulher, como j fizeste uma vez.
  - Assim farei, capito. Pode estar descansado.
  Para Gaston era fcil fazer tal promessa. Agora que se encontrava de novo junto a Gabrielle, esquecera um pouco a sua prpria
mulher, no por maldade, uma vez que amava Jeanne, mas porque o
seu sentido de lealdade protectora em relao a Gabrielle fora reavivado e era to forte como antes.
  O esquadro deixou a cidade duas horas mais tarde, precedido
pela banda do regimento tocando uma animada marcha. Atrs dos
chasseurs vinham as caravanas, os cavalos de reserva e o habitual
acompanhamento de mulheres e crianas. Gabrielle e Gaston iam na
retaguarda.
  Durante o percurso de Lyon at  fronteira belga, o esquadro
acampava ao anoitecer nos arredores das cidades. Gabrielle alojava-se em estalagens ou quintas, onde Nicolas ia ter com ela. Estavam juntos algumas horas, o passado 
ainda muito vivo e o futuro
muito incerto. Viviam para essas horas que ainda podiam partilhar.
  No dia 17 de Junho, Gabrielle viu o esquadro de Nicolas juntar-se s foras do imperador em solo belga. O exrcito vitorioso de
Napoleo tinha capturado Charleroi e vencera uma batalha em
Ligny, obrigando os Prussianos a bater em retirada e forando os
Ingleses a recuar. Chovia torrencialmente, mas nada conseguia esfriar o nimo das tropas. No dia seguinte, iria ser travada uma
grande batalha com os Ingleses, prximo da vila de Waterloo.
  Nessa noite, Gabrielle conseguiu alojar-se em casa de uma famlia de camponeses. Por sobre as suas cabeas, a chuva continuava a
martelar impiedosamente o telhado, mas Gabrielle e Nicolas, na
cama quente e macia, nem davam por ela, apenas conscientes da
presena um do outro.
  - Desde que voltei a encontrar-te, tenho vivido as horas mais
felizes da minha vida - disse Nicolas a Gabrielle, que estava aninhada nos seus braos. - Se eu no regressar ...
  - No fales nisso! - disse ela, pondo-lhe os dedos nos lbios.
  Com suavidade, Nicolas segurou-lhe o pulso.
  - Quero apenas dizer-te que tenho esperana de que o nosso
amor tenha gerado uma criana, porque assim sei que continuarei
vivo para ti, no obstante o que possa vir a acontecer amanh no
campo de batalha.
  Nicolas s a deixou ao romper da aurora. Gabrielle dormia e no
o sentiu sair da cama. Fechando a porta devagar, Nicolas desceu as
escadas e enfrentou a luz da madrugada. Tinha parado de chover
nessa manh de domingo e o ar estava doce e perfumado. A sua

ordenana aguardava-o com o cavalo, que Nicolas montou de um
salto. Viu que Gaston o esperava junto ao porto.
- Boa sorte, capito - saudou-o numa continncia.
Retribuindo o gesto, Nicolas afastou-se.

  GABRIELLE foi' acordada pelo rudo vindo do ptio. Estava s h
mais de uma hora. Enfiando um roupo, aproximou-se da janela e
espreitou. A famlia que a alojara estava de partida, com todos os
haveres amontoados numa carroa puxada por um burro. Muitas
outras pessoas partiam tambm, procurando afastar-se da zona de
perigo enquanto havia tempo. Em sentido contrrio, cruzava-se
com eles todo o tipo de trnsito militar, desde carroas de munies
at mensageiros a cavalo.
  Enquanto se vestia, Gabrielle ia observando os que passavam.
Quando desceu, encontrou Gaston a fazer caf na cafeteira enegrecida que trouxera consigo.
  - Estou a ouvir a Marselhesa - disse ela, escutando atentamente.
  - O imperador deve estar a passar revista s tropas.  o normal
antes de uma grande batalha.
  Gabrielle foi sentar-se num banco perto da tosca mesa onde
Gaston lhe havia preparado o pequeno-almoo. O apetite no era
muito nessa manh, mas Gabrielle forou-se a comer, visto que
precisava de se alimentar para levar a cabo o plano que concebera.
  - A que horas comear o combate? - perguntou, dando pancadinhas num ovo com uma colher para o abrir.
  - Penso que no ir ser nas prximas duas a trs horas. - Gaston sentara-se  sua frente. - E intil tentar combater enquanto o
terreno no se encontrar seco. Neste momento, cavalos e homens
iriam escorregar e cair em todas as direces e as armas ficariam
completamente inutilizadas. No se preocupe, o imperador atacar
quando chegar a altura certa.
  - No vou ficar aqui sentada horas a fio sem fazer nada - afirmou Gabrielle, decidida. - Vou oferecer os meus prstimos a um
dos hospitais de campanha.
  - E preciso muito estmago - avisou Gaston.
  Mas a expresso resoluta de Gabrielle dissuadiu-o de argumentar. Cobriram a p a distncia que os separava dos hospitais de campanha, que ostentavam a tradicional 
bandeira negra para assinalar o
local tanto a amigos como a inimigos. As tendas tinham sido montadas na orla dos bosques, com um acesso razovel ao campo de
batalha.

A rvore do Ouro 303

  Os cirurgies, sentados em cadeiras de campanha, passavam o
tempo at serem necessrios: uns conversavam, outros liam ou
dormitavam. Dentro das tendas, as mesas de operao estavam preparadas, os instrumentos cirrgicos brilhavam em mesinhas laterais. L fora, havia inmeros barris 
de vinho, o pio e fortificante

para aqueles que tivessem que ser submetidos a uma operao. As
ordenanas iam organizando algumas mulheres que acompanhavam o exrcito para abrirem os rolos de tecido limpo que serviriam
para fazer ligaduras.
  Gabrielle lanou o olhar em direco ao vale onde iria travar-se
a batalha, que se encontrava emoldurado pela folhagem das rvores
de ambos os lados de uma pequena clareira do bosque. Longe, para
a sua esquerda, Gabrielle conseguia distinguir os seus compatriotas
aguardando.
  Passaram ainda mais duas horas de tenso crescente antes de os
tambores comearem a soar, chamando s armas. Os cirurgies iniciaram ento os seus preparativos, despindo os casacos e colocando
os aventais de couro. As ordenanas fecharam rapidamente as cadeiras de campanha e arrumaram-nas. Um deles deu a Gabrielle um
grosso avental de lona, igual aos que as outras mulheres usavam, e
ela p-lo. Gaston estava encarregado de ajudar os feridos  medida
que chegassem, assegurando que os mais graves tivessem prioridade.
  Exactamente trinta minutos antes do meio-dia, os canhes franceses abriram fogo, ribombantes. Gabrielle perguntava a si prpria
como  que os Ingleses iriam conseguir aguentar um bombardeamento to terrvel. Grossas nuvens de fumo proveniente dos canhes flutuavam por entre as rvores e elevavam-se 
acima da bandeira negra.
  As primeiras baixas a chegar foram soldados atingidos por disparos de armas inimigas. Angustiada, Gabrielle observou que os
levavam para dentro das tendas. Nesse momento, um dos cirurgies
chamou-a.
  - Madame Devaux! Preparar as ligaduras!
  - Imediatamente, major Arnoul!
  Agarrou num cesto de faixas limpas e tomou o seu lugar junto de
uma mesa de operaes. Era a sua iniciao. Viu de tudo - as ordenanas despejando vinho para dentro da boca dos pacientes que
gemiam, o sangue que escorria, o segurar dos doentes enquanto as
serras raspavam ossos que nunca voltariam a ser os mesmos.
  Quando chegou a altura de tratar e ligar o seu primeiro doente,
Gabrielle trabalhou juntamente com uma ordenana.
  Os canhes franceses pararam to abruptamente como tinham
comeado, dando lugar ao barulho produzido pelos passos rpidos
dos soldados. Quando foi reabastecer o seu cesto de ligaduras,
Gabrielle parou a olhar o vale. Extensas colunas de soldados de infantaria franceses avanavam ombro a ombro com pelo menos cento e cinquenta homens em cada frente, 
flanqueados pela cavalaria.
quela distncia pareciam soldadinhos de chumbo rigidamente
colocados nas suas formaes, como se estivessem em parada.
Gabrielle apressou-se a cumprir a tarefa de que estava incumbida.
  Quando as foras opostas se encontraram, o fragor da batalha
ressoou em tiros de mosquete e carabina, gritos e berros, o relinchar

dos cavalos e o troar dos canhes ingleses,  medida que a matana
prosseguia. Vindos do bosque, os feridos comearam a afluir ininterruptamente.
  Gabrielle, vendo um chasseur com um golpe num brao, correu
a perguntar-lhe se conhecia Nicolas e se o tinha visto. Ele fez que
sim com a cabea, segurando o brao para aliviar a dor, o rosto
branco como a cal.
  - Trs dos cavalos que montou foram abatidos. De cada vez que
isso sucedia, ele agarrava num cavalo sem cavaleiro e voltava a
montar. No se preocupe, minha senhora. Da ltima vez que o vi
estava bem vivo.
   medida que o dia chegava ao fim, os contornos da batalha iam-se definindo. Os Ingleses tinham sofrido grandes perdas e estavam
encurralados numa posio defensiva; os Franceses encontravam-se em franca vantagem. Ao fim da tarde, Gabrielle perdera completamente a noo do tempo. Estava coberta 
de sangue. Uma das
mulheres disse-lhe que uma carga macia da cavalaria francesa lanara-se vale abaixo sobre o reduto dos Ingleses. A batalha estava
praticamente ganha. Gabrielle fez um aceno de cabea e uma prece
silenciosa por Nicolas enquanto continuava a ligar uma ferida provocada por uma baioneta.
  As boas notcias continuavam a chegar. As defesas inglesas
continuavam a enfraquecer. Wellington tinha as horas contadas.
Todos aguardavam que o imperador desferisse o golpe final.
  O Sol comeava a pr-se quando uma ordenana apareceu  entrada da tenda e gritou:
  - O imperador mandou avanar a Garde Impriale!

A rvore do Ouro 305

  A elite de todo o exrcito! Os eleitos do imperador! Agora, eles
iam varrer tudo  sua passagem!
  Nas tendas, as lanternas foram acesas porque a luz do dia enfraquecia. L fora, os feridos que aguardavam tratamento cobriam
quase todo o terreno disponvel. O nmero de baixas ia aumentando
cada vez mais. Eram constantes os pedidos de gua e Gaston tinha-se associado s mulheres que cornam de um lado para o outro na
tentativa de aliviar os lbios ressequidos.
  Todos estes feridos podiam considerar-se afortunados, visto que
milhares dos seus camaradas jaziam no vale, igualmente feridos, e
no podiam ser retirados do local de combate. Alguns deles tentavam, com dificuldade, afastar-se da zona crtica. Nicolas estava
entre eles.
  No conseguia recordar-se da altura em que fora ferido. Imagens
pouco ntidas assomavam ao seu esprito, alternando com perodos
de inconscincia. Tudo era turvo e confuso. O sangue corria-lhe dos
ferimentos e as foras escoavam-se; jazia no cho, o rosto entre
despojos enlameados de homens e cavalos.

  Sob Nicolas, o solo voltou a estremecer, coincidindo com um
dos breves momentos de lucidez que ainda ocorriam periodicamente. Aproximava-se outra carga de cavalaria. J lhe tinham passado por cima duas ou trs vezes. Para 
juntar aos seus ferimentos, os
cascos dos cavalos haviam-lhe esmagado a mo direita e quebrado
o brao como se este fosse um galho. E agora a cavalaria voltava.
  Com esforo, abriu os olhos. O cu tinha adquirido o rico tom
alaranjado do pr do Sol. Naquela luz esplndida, seguidos de perto
por soldados a correr, os cavaleiros aproximavam-se a galope, com
os distintivos metlicos das altas patentes nas barretinas de pele
reflectindo os ltimos raios do Sol. Teve novo perodo de lucidez.
Era a Garde Impriale, que finalmente se lanava para esmagar as
aparentemente impenetrveis linhas inglesas, arrecadando assim a
glria daquele dia. No entanto, havia qualquer coisa de errado que
o seu crebro exausto e dorido no conseguia definir.
  A carga passou-lhe por cima, os cascos cortantes e botas triturantes, antes de Nicolas voltar a deslizar para um estado de inconscincia. Quando recobrou os sentidos, 
percebeu que no se tratara
de um ataque, mas de uma retirada. Uma ignominiosa debandada. A
Garde Impriale tinha dispersado e fugia perante um ataque final
estratgico de Wellington, o qual, contra todas as probabilidades,
ganhara o dia. Vindos do sector ingls, ecoavam gritos de jbilo.
  Um enorme grito de raiva e desiluso cresceu na sua garganta,
conferindo-lhe uma fora sobre-humana para se erguer, um vulto
oscilante e alquebrado recortando-se contra a cor de sangue brilhante do cu.
  - No! - gritou alto, completamente fora de si. - Vive la
France! - A seguir, cambaleou e depois caiu sem sentidos.

  A NoitE chegou e com ela as estrelas. Nicolas abriu os olhos e viu
grinaldas de flores azuis e vermelhas brilhando contra o luar plido,
por baixo de si e  sua volta, como se estivesse envolvido por um
tapete baloiante. Era a seda que os seus teares haviam tecido para
a tenda do imperador e que agora jazia no cho, rasgada e espezinhada na lama por um exrcito em fuga. Ele e Gabrielle tinham declarado o seu amor no meio daquelas 
grinaldas. Agora, essa seda
Devaux seria a sua mortalha.
  Fechou os olhos devagar, sentindo que as foras o abandonavam.
Pensou ter ouvido a sua voz e disse o nome dela. Gabrielle.
  Na tenda dos cirurgies, o trabalho prosseguia. As luzes atraam
insectos que produziam sombras trmulas aqui e ali. Gabrielle terminou o trabalho com um dos pacientes e voltou-se para tratar do
seguinte, quando viu Gaston  entrada da tenda. A expresso cansada do rosto dele confirmou os seus receios.

  Sem pronunciar uma palavra, tirou o avental e encaminhou-se na
sua direco.
  - Tive informaes de cinco fontes diferentes - disse ele com
voz rouca. - O capito Devaux morreu. No meio de uma grande
carga de cavalaria, foi seriamente ferido quando protegia o estandarte e, embora o segurasse de novo e avanasse em direco s
linhas inglesas, tombou quase imediatamente sob os tiros de mosquete.
  Gabrielle fez um veemente aceno de cabea, como que a dar a
entender que tinha abarcado tudo o que ouvira.
  Entregou a outra as suas tarefas e saiu da tenda com Gaston,
caminhando pelo meio dos feridos em direco ao bosque e  casa
onde estavam alojados. Gaston f-la sentar-se numa cadeira da
cozinha e foi buscar um jarro de gua. A seguir, tirou-lhe as manchas de sangue seco do rosto e lavou-lhe as mos.
  - Agora - disse, levantando-a da cadeira -, v mudar-se
enquanto acendo o lume. A noite est a arrefecer.
  Gabrielle parou ao fundo das escadas.

A rvore do Ouro 307

  - Quero encontrar o corpo dele e lev-lo comigo para Lyon.
No ser enterrado em solo estrangeiro.
  A experincia ensinara Gaston a reconhecer que quando Gabrielle tomava uma deciso no havia nada a fazer. Enquanto ela
mudava de roupa, Gaston examinou o par de pistolas que trazia no
cinturo e certificou-se de que tinha bastantes munies. Sabia
como era um campo de batalha quando a noite caa e os saqueadores das vizinhanas comeavam a aparecer.
  Gabrielle desceu vestida de forma simples e agasalhada, com um
xaile  volta dos ombros. Gaston encontrara duas lanternas e acendeu-as. Gabrielle pegou numa delas e juntos enfrentaram a escurido. Atrelaram um dos cavalos a 
uma pequena carroa que encontraram no celeiro e conduziram-na at ao local onde, cedo nesse dia,
aquela grande massa humana aguardara ordens para avanar. Agora
estava deserto, a terra remexida por milhares de ps. O cavalo
comeou a ficar alarmado, pressentindo o cheiro da morte  medida
que avanavam. Gaston parou o cavalo e prendeu-o firmemente a
umas rvores. Depois, pegando nas lanternas, partiram para a busca.
  Por toda a parte jaziam corpos de ambos os lados, e a luz das
lanternas revelava vises horrveis. Os gemidos dos feridos pedindo
gua dilaceravam o corao de Gabrielle. Gaston prevenira-se com
quatro cantis cheios de gua e ambos paravam de vez em quando
para dar de beber tanto a franceses como a ingleses. Alguns feridos
agarravam-se  saia de Gabrielle suplicando que no os abandonassem, temendo os saqueadores. Sempre que podia, Gaston retirava a
pistola a um soldado morto e colocava-a junto a um ferido para o
deixar com proteco.
  Havia muitos saqueadores actuando a coberto da escurido.
Movimentavam-se facilmente, acostumados ao terreno, fugindo
como ratos quando Gaston, enraivecido, os afugentava.

  A busca prolongou-se por muitas horas. Os cantis estavam vazios e eles no tinham mais nada para dar, enquanto prosseguiam,
sob a luz das lanternas, na esperana de avistarem uma jaqueta
verde dos chasseurs. Era j madrugada quando o sol nascente fez
realar um pedao de seda cinzenta com flores, com um vulto
familiar verde-escuro estendido por cima. Um grito irrompeu da
garganta de Gabrielle quando avistou Nicolas.
  - Ali!
  Correu na sua direco, tropeando, evitando e saltando por
cima dos obstculos. Lanando-se de joelhos ao seu lado, com as
lgrimas a brotarem-lhe por fim, apertou a cabea de Nicolas com
ternura de encontro ao seu peito e, inclinando-se sobre ele, embalou-o no seu desgosto.
  - Meu querido. Meu amor. Minha vida. - Ento, os seus dedos
sentiram uma fraca pulsao no pescoo de Nicolas. - Deus seja
louvado - murmurou, incrdula. - Est vivo!
  Gaston deixou-se cair sobre o joelho da sua perna s e enfiou a
mo por baixo da jaqueta de Nicolas para lhe sentir o bater do corao.
  - Por pouco - disse gravemente, como que tentando prevenir
Gabrielle.
  - Eu vou mant-lo vivo! - declarou de cabea erguida.
  - Ento, vamos fazer uma padiola com esta seda e levamo-lo
at  carroa.
  Com a sua faca, Gaston cortou a quantidade de tecido necessria. Uma vez que Nicolas se encontrava j sobre o rectngulo grosseiramente cortado, tiveram apenas 
que o virar de costas, de modo
que ficasse o mais confortvel possvel. Iniciaram ento a tarefa
rdua de o carregar, fazendo um enorme esforo e tropeando ao
longo do percurso. P-lo na carroa foi uma tarefa facilitada porque
Gaston, de pistola em punho, arrebanhou dois saqueadores que os
ajudaram, aps o que os obrigou a correr  frente do cavalo de forma
a que carregassem o ferido escada acima quando chegassem a casa.

A rvore do Ouro 309

  Terminada a tarefa, despediu-os a pontap e voltou para o quarto
onde Nicolas, de olhos fechados, se encontrava deitado. Gabrielle
estava a cortar em pedaos o seu uniforme.
  - Vou buscar um dos cirurgies ao hospital de campanha -- disse Gaston.
  - No! Nestas circunstncias, ns podemos ser mais teis. Arranja-me vinho e gua quente e traz-me o meu saco. Tenho l umas
ligaduras. Depois, acende a lareira. Temos de mant-lo quente.
  Gaston obedeceu-lhe sem questionar. A seguir, aplicaram talas
no brao partido e nos dedos do doente. Gabrielle retirou os estilhaos enterrados na carne com a ajuda de uma colher e coseu um golpe
provocado por um sabre. Quando acabou de fazer tudo o que podia,
deitou vinho quente sobre as feridas, um processo que iria continuar

durante muitos dias. Nicolas ardia em febre, tinha uma sede insacivel e os murmrios que pronunciava no seu delrio eram frequentemente interrompidos por gritos 
de dor. Gabrielle no demonstrava qualquer emoo e nunca fraquejou nem mostrou sinais
de fadiga, dormindo e comendo apenas quando chegava a vez de
Gaston fazer a viglia.
  No andar de baixo, os donos da casa, que tinham regressado,
ficaram ressentidos ao encontrar um dos franceses derrotados ainda
sob o seu tecto - mas Gabrielle f-los mudar de atitude a troco de
uma quantia razovel.
  Pouco a pouco, a febre de Nicolas comeou a baixar. Chegou o
dia em que os seus olhos encovados mostraram sinais de vida e reconheceu o rosto da mulher que se encontrava junto  sua cama.
  - Sabia que estavas aqui - sussurrou ele.
  - Sim, meu querido. - Gabrielle beijou-lhe a fronte, sufocada
pela emoo. - J no falta muito para podermos voltar para casa.
  Passaram-se ainda algumas semanas. Logo que se tomou segura
a mudana, viajaram at uma pequena cidade imediatamente a seguir  fronteira francesa, onde Gaston conseguiu arranjar alojamento confortvel. Depois de um perodo 
de convalescena, durante o qual Nicolas conseguiu voltar a andar sozinho, ficou decidido que chegara a altura de percorrer a ltima etapa. Foi nesse
momento que Gaston se despediu, primeiro de Nicolas e a seguir de
Gabrielle em particular.
  - Agora 3 tem o capito Devaux - disse-lhe. - Penso que no
vai ser necessrio voltar a acompanh-la a nenhum stio, mas lembre-se, se for preciso, virei imediatamente.
Os olhos de Gabrielle encheram-se de lgrimas.
- Nunca te vou esquecer, meu amigo. Que Deus te acompanhe.
Gaston subiu ,para o cavalo e acenou-lhe enquanto se afastava.

  LoGo aps a partida de Gaston, Gabrielle e Nicolas regressaram
a Lyon, passando pela Fourvire. Foi Gabrielle quem sugeriu que
ambos deveriam voltar a ver a cidade do seu local preferido. Embora estivesse ansiosa por ver o filho, mandou parar a carruagem no
stio de que mais gostava. Apeou-se em primeiro lugar e olhou,
vida, para a paisagem que dali se desfrutava.
  - Olha como tudo est lmpido hoje! Consegues ver a ondulao provocada por aquele barco, l em baixo no Sane?
  Nicolas aproximou-se devagar. As dores que sentia levariam
ainda muitos meses a passar. Mas conseguira sobreviver e o resto da
sua vida seria passado ao lado da mulher que amava. Gabrielle iria
continuar  frente da Maison Roche at que Andr tivesse idade para
assumir o cargo, enquanto Nicolas se propunha fazer renascer das
cinzas a Maison Devaux. Eles iriam ser rivais nos negcios, amantes e companheiros. A monotonia no iria fazer parte do seu casamento, e se os sintomas recentes 
fossem confirmados, seria tambm
uma unio fecunda.
  -  uma bela vista - concordou Nicolas, pondo um brao 
volta dela. Apontando com a bengala para l do rio, indicou um

grande pedao de terra que estava  venda. - Seria um ptimo local para construir a Maison Devaux, ali, ao p do molhe.
  - Concordo. Mas h ainda que resolver o problema da localizao da nossa nova casa. - Tinham decidido ambos que a casa da
Rue Clmont deveria ficar fechada at Andr ser maior. Iriam construir uma residncia nova s deles.
  Nicolas sorriu abertamente, virando-a para ele.
  - Penso que isso ficou decidido h muito tempo, quando me
contaste que colocaras uma marca aqui, nesta encosta, com um fragmento de cermica romana.
  - Ento, nunca te esqueceste disso?
  Profundamente comovida, Gabrielle ps com ternura a mo
sobre o rosto de Nicolas, que a cobriu com a sua.
  Depois, voltaram a olhar a paisagem suave, de telhados e pinculos reluzentes, copas viosas e gua cintilante, que iria pertencer-lhes para o resto das suas vidas.
Gabrielle guardou-a no mais
profundo do seu ser. Lyon. A sua querida cidade.

ACERCA DA AUTORA


Rosalind Laker, autora de mais de vinte
romances, colheu inspirao para A rvore
do Ouro numa viagem que efectuou a Nova
Iorque h muitos anos, onde viu uma exposio de sedas de Lyon do incio do sculo
xIx em que estava patente uma das tendas
de campanha de Napoleo Bonaparte.
  - A tenda era de uma seda excelente,
com grinaldas vermelhas e azuis - diz Miss
Laker -, e eu pensei logo nas disputas que
teria havido para a obteno da encomenda
daquela seda. Foi desta ideia que surgiu o
livro.
  Curiosa insacivel, a autora elaborou a
sua histria viajando primeiro at Lyon, onde ainda se encontram em laborao algumas fbricas de seda.
  - Vi exemplares maravilhosos da seda de Lyon. Depois, visitei Fontainebleau, para ver a seda que a imperatriz Josphine escolhera para os
cortinados dos sales, e em seguida Versalhes e outros palcios.
  Miss Laker tambm foi ver os teceles a trabalhar no Paradise Mill
Working Museum, em Macclesfield, Inglaterra, e at foi  sirgaria Lullingstone, em Kent, de onde proveio a seda para o famoso vestido de noiva
da princesa Diana.
  Talvez a faceta mais interessante da histria da seda de Lyon seja a
evoluo do tear de Jacquard.
  - O mecanismo era extraordinrio - explica Miss Laker -, porque as
suas potencialidades no se esgotaram na seda. Os cartes perfurados que
seleccionavam os fios para a urdidura deram origem aos cartes perfurados utilizados nos sistemas de computadores.
  Um americano chamado Herman Hollerith serviu-se do princpio de

Jacquard para a sua mquina de tabelar, e a companhia que ele fundou em
1896 expandiu-se posteriormente e passou a ser conhecida como IBM.

FIM DO LIVRO.
